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Vida das garotas de programa passa longe do glamour das telas

Vida das garotas de programa passa longe do glamour das telas



CARLOS MINUANO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


No cinema ou na literatura, a coisa até parece fácil e divertida. Mas, na real, a vida de uma garota de programa passa longe do clima de videoclipe do sucesso de bilheteria "Bruna Surfistinha".


Há duas semanas em cartaz, o filme foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas.


O longa é inspirado no livro "O Doce Veneno do Escorpião" (Panda Books), que relata as experiências de Bruna, codinome de Raquel Pacheco, 26, que viveu como garota de programa dos 17 aos 21 anos.


O filme de Marcus Baldini, com Deborah Secco como Bruna, parece uma peça publicitária, mas traz um pouco do lado B da prostituição.


Caso da passagem da personagem pelo chamado "baixo clero" dos bordéis, ou o famoso "vintão" - nome e preço do programa.


O longa e a história real de Bruna mostram também como tudo pode começar a partir de uma brincadeira: na cena inicial, Deborah Secco encarna uma lolita que despe sua camisola via webcam.


Pode ser o primeiro passo para um universo por onde transitam jovens (incluindo aí uma penca de adolescentes) que vendem o corpo para qualquer um que pague.



"CÁRCERE PRIVADO"


A jovem Drica*, 24, vive no circuito de luxo da prostituição. Seus clientes são empresários, advogados e "todo tipo de gente com dinheiro".


Ela conta que começou aos 21 anos, imaginando que ganharia altas cifras. Mesmo atendendo a "clientes vips", ela vivia sob o que chama de "cárcere privado".


"Entrava às 21h e era obrigada a ficar até às 4h da manhã. Só podia sair se pagasse multa de R$ 100, mesmo se estivesse passando mal."


Já Valentina, 22, apesar de formada em fisioterapia e moda, decidiu vender o corpo quando sua família, no interior paulista, sofreu um revés financeiro.


Para ela, a violência pesou. "Há clientes que agridem, há humilhação."


Depois de dois anos como garota de programa, ela hoje é hostess de uma boate de São Paulo e observa dramas até piores aos que viveu.


"Há clientes hoje que querem uma parceira para o sexo e para se drogar em quantidades gigantescas", diz.



TRÁFICO DE PESSOAS


A cada cliente, existem novos perigos. Valentina tem amigas que desapareceram no exterior, aliciadas por redes de tráficos de pessoas.


"Algumas são mantidas presas. Dificilmente voltam."


Assim como o preço do programa, o perfil da prostituição entre jovens varia de acordo com a região do país. "No Norte e Nordeste, o problema é a pobreza extrema mesmo", afirma a promotora Laila Shukair, da Associação Brasileira de Magistrados e Promotores de Justiça da Infância e da Juventude.


Famílias desestruturadas se tornam alvos fáceis de redes de tráfico de pessoas - a terceira atividade criminosa mais lucrativa no mundo, depois de drogas e armas.


O dinheiro que as meninas ganham vai embora tão rápido como veio. "É uma compensação. Se você não torra com drogas, gasta tudo no shopping", diz Valentina.


Nas ruas desde os 20 anos, Ticiane diz que o pior é a solidão. "Não tenho mais vida pessoal, namorado ou amigos." Ela também reclama da violência. "Saí com três rapazes que me levaram para uma rua deserta. Se não fosse um vigia noturno, acho que tinha morrido."


A promotora Shukair aponta três responsáveis. "A família falhou na educação. O Estado não garantiu o direito constitucional de essas adolescentes se desenvolverem sexualmente de forma saudável. E falhou a sociedade três vezes: na figura de quem explora, de quem paga e de todos que se omitem."


* Todos os nomes das meninas são fictícios.


Notícia publicada na Folha.com, em 14 de março de 2011.



Reinaldo Monteiro Macedo** comenta


Aqui está um alerta grave aos nossos jovens e a seus pais, pois estamos vivendo tempos em que a informação tanto pode servir de um forte elemento preventivo para que não sejam vividas terríveis dores pelos erros praticados pelos nossos jovens, assim como se obter claríssimos dados detalhados das dores pelos sofrimentos causados pelos erros cometidos (e que marcam para sempre uma vida) por eles.


Pobreza extrema, famílias desestruturadas, exemplos de falta de honestidade, impunidade aos crimes cometidos, inexistência ou não observância de princípios éticos que devem  balizar as relações humanas são “o pano de fundo” que se enxerga com nitidez a quantos venham a discutir assuntos que tenham relação com o tema dessa reportagem.


Reiteramos, e fazemos nossas, as palavras da promotora de Justiça e representante da ABMP (Associação Brasileira de Magistrados e Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude), Laila Shukair, que aponta os três grandes responsáveis, por casos dessa natureza:


1- "A família falhou na educação.


2- O Estado não garantiu o direito constitucional de essas adolescentes se desenvolverem sexualmente de forma saudável.


3- E falhou a sociedade três vezes:


- na figura de quem explora;


- de quem paga;


- e de todos que se omitem."


A Promotora ainda lamentou que, embora a sociedade, família e o Estado tenham a obrigação de garantir esses direitos, ainda há falhas pela falta de preparo e estrutura da rede de proteção e atendimento de crianças e adolescentes. "A rede ainda não é eficaz porque não se trabalha em rede. Não se conhece o agente que dará continuidade ao atendimento", afirmou. "Crianças e adolescentes ainda não são prioridade em política, em orçamento, em nada. A criança é violada e o médico não percebe, a escola não percebe, a sociedade não se manifesta", lamentou (grifo nosso).


Não nos detemos aqui somente num aspecto, que é o da reportagem em questão... Vamos mais longe: violência, drogas pesadas  e o uso do álcool (basta acessar o link da CISA - Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, cujo endereço é http://www.cisa.org.br). Um pequeno gole de bebida alcoólica pode ser o deflagrador de um processo que poderá determinar o futuro da vida de um jovem... Quem sabe?


Portanto, fica a lição, que como a educação começa em casa, ela é o berço no qual se iniciará um processo sem retorno, talvez, de uma má educação... E lembramos aqui da Lei de Causa e Efeito...


Vemos com absoluta clareza a falta que faz a criação de um pequeno ser, que é um empréstimo que Deus nos faz (visando também a nossa evolução), fora de um contexto religioso. Assim, ela ouviria desde pequena os princípios éticos e morais que precisam reger nossa vida, enquanto humanidade, e a caminho de mais desafios para nosso progresso e merecimento de um mundo melhor.


** Reinaldo Monteiro Macedo é aposentado, administrador e analista de sistemas de formação, expositor de estudos e colaborador do Centro Espírita Nair Montez de Castro no Rio de Janeiro/RJ e de algumas outras Casas.