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As redes sociais feitas para trair

As redes sociais feitas para trair



Serviços estrangeiros que oferecem recursos propícios a quem busca uma relação extraconjugal aportam no Brasil. E atraem até solteiros


Rafael Sbarai


Nos últimos três meses, aportaram no Brasil três redes sociais com uma proposta inusitada: facilitar a traição conjugal. Juntas, a canadense Ashley Madison, a americana Ohhtel e a holandesa Second Love contam com cerca de 12 milhões de usuários ao redor do mundo. No Brasil, já reuniram mais de 500.000 pessoas – 70% são homens –, interessadas em aventuras facilitadas pelos mecanismos próprios desses sites. Por exemplo: os serviços garantem que os movimentos de seus usuários jamais deixam rastros. "A internet potencializa fantasias de relações fugazes. A esse ambiente, esses novos serviços adicionam uma blindagem, que esconde interessados e os encoraja a buscar aventuras", afirma a psicóloga Margareth Volpi, fundadora do instituto Volpi & Pasini, explicando a rápida disseminação dos serviços no país.


O paulistano Paulo*, de 33 anos, casado há cinco, está cadastrado no Ohhtel há dois meses. Nesse período, fez contato virtual com 25 mulheres – segundo dados do Ashley Madison, em média, um homem se comunica com 20 mulheres por mês, enquanto elas interagem com 11 homens no mesmo período. A partir de uma das investidas virtuais, encontrou uma mulher que lhe chamou a atenção. "Logo descobrimos gostos parecidos", diz. Até agora, a afinidade propiciou três encontros às escondidas. "Busco uma história passageira. Não pretendo me separar, pois tenho um carinho enorme por minha mulher e nosso filho." Faz ecoar uma máxima do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, sempre provocador: "Entre o desquite e a traição, é preferível a traição, mil vezes a traição."


Sigilo é o pilar dos serviços de relacionamento extraconjugais. Nome, fotos e dados de contato são, por padrão, considerados ultrassecretos e só se tornam visíveis a outro cadastrado com consentimento do proprietário do perfil. É o inverso do mecanismo vigente no Facebook, por exemplo, onde (quase) todos os dados da conta são públicos, até que o usuário decida o contrário. O Ashley Madison oferece ainda um último recurso, a ser usado em situações emergenciais, ou seja, quando o usuário comprometido está prestes a ser apanhado pela mulher (ou pelo marido, no caso delas): o botão do pânico. O recurso apaga, de forma definitiva, os registros relativos a uma conta que possam comprovar a passagem de uma pessoa pela rede. Mais: faz uma varredura nas caixas de mensagens de pessoas que foram alvo do assédio eletrônico do usuário acossado, apagando textos, fotos e vídeos enviados por esse cadastrado. Em tese, é o fim da marca de batom no colarinho.


A privacidade é também o que diferencia esses serviços das tradicionais redes de dating, criadas para propiciar encontros amorosos entre pessoas (supostamente) solteiras. Nos sites de dating, é normal que homens e mulheres exponham logo seus principais atributos. Um close de rosto, por exemplo, é obrigatório – imagens do corpo, é claro, também podem ser decisivas para o sucesso da paquera –, além de outras informações de identificação pessoal. Supõe-se que ninguém ali tem algo a esconder.


A aproximação em sites como Ashley Madison, Ohhtel e Second Love, por outro lado, segue o caminho tortuoso das relações proibidas. Usuários têm acesso a informações gerais sobre os demais participantes – idade, sexo, cidade de resiência e dimensões físicas. Nomes e imagens dificimente estão disponíveis – a menos, é claro, que alguém queira tornar público o caso, mas lhe falte coragem... Só quando demonstra interesse por um perfil específico é que o usuário demanda informações, passando a recebê-las de acordo com a vontade da contraparte. Galerias de fotos privativas estão entre atrações favoritas. "Nesses serviços, você se expõe com menos medo, já que, ao menos nos primeiros contatos, vive num mundo à parte, uma fantasia virtual. O usuário pode se definir como quiser: duvido que ele teria coragem de reproduzir na vida real algumas das ações feitas ali", afirma Isabel Cristina Gomes, professora do Instituto de Psicologia da Universide de São Paulo (USP).


A ideia de criar ambientes virtuais dessa natureza é mais antiga do que a mais popular rede social do planeta, o Facebook. Ela surgiu há exatos dez anos, na cabeça do canadense Noel Biderman, até então empresário esportivo, que percebeu que casos extraconjugais na era da internet obedeciam a um padrão: sempre vinham à tona devido a escorregões digitais – mensagens de texto esquecidas em celulares ou em sites de relacionamento. Nascia o Ashley Madison, que deve faturar 60 milhões de dólares neste ano. Nos Estados Unidos, Biderman é uma celebridade mal vista. Já tentou até veicular uma propaganda de seu negócio durante a transmissão do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, evento mais visto na história da TV. Ouviu um "não" como resposta dos organizadores, que alegaram que o produto promove a promiscuidade. Recentemente, ajudou a ventilar o boato de que pretendia contratar como garoto-propaganda o ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, que há cerca de quatro meses revelou que tivera um filho com a empregada e agora enfrenta um bilionário processo de divórcio. "Ele já faz um grande trabalho para aumentar a popularidade do tema adultério", desconversou Biderman, em entrevista ao site de VEJA, durante passagem pelo Brasil.


A migração dos serviços para o mercado brasileiro é fruto de uma pesquisa sobre sexualidade na América Latina que excitou os executivos estrangeiros. De acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Tendências Digitales, o Brasil registra os maiores índices de infidelidade do subcontinente. Cerca de 60% das mulheres revelaram ter sido infiéis a namorados ou maridos. Entre os homens, o valor é ainda maior: 70%.


A paulistana Roberta*, de 30 anos, casada há quatro, tenta alimentar a estatística. Cadastrou-se há três semanas em dois serviços: Ashley Madison e Ohhtel. Até o momento, foi abordada por vinte homens casados. Ela diz que decidiu ingressar no serviço após descobrir que era traída pelo marido. "De repente, me descobri ao lado de um companheiro infiel e com uma criança no colo. É claro que recebi o tradicional pedido de perdão, mas, desde então, decidi buscar aventuras. Espero ter em breve meu primeiro encontro", afirma.


Casados como Roberta e Paulo estão nas redes de traição conjugal. Mas, como quase tudo na internet, são as ondas de usuários que dão forma aos serviços, e não exatamente a intenção de seus criadores. Exemplo disso é que já é fácil encontrar solteiros flanando pelas páginas dos novos sites. Retratos em close, dados pessoais à vista, depoimentos... bingo! Eis um solteiro em busca também de uma aventura. "Acredito que esse grupo percebeu que há uma facilidade ali para se relacionar com outras pessoas. Na verdade, esses sites são compatíveis com o jogo descompromissado de alguns solteiros", afirma Isabel Cristina, da USP.


(*) Todos os nomes são fictícios.


Matéria publicada na Revista Veja, em 19 de agosto de 2011.



Jorge Hessen** comenta


Chegaram no Brasil algumas redes sociais com propostas gritantes: promover a infidelidade conjugal. São 12 milhões de usuários ao redor do mundo. Em nosso país, já há mais de 500.000 pessoas (70% são homens) interessadas em aventuras promovidas pelos mecanismos próprios desses sites, que faturam não poucos milhões de dólares por ano. Cerca de 60% das mulheres revelaram ter sido infiéis a namorados ou maridos. Entre os homens, o valor é ainda maior: 70%.


A ideia de instituir ambientes virtuais dessa natureza surgiu há uma década, através do canadense Noel Biderman, criador do Ashley Madison, que deve faturar 60 milhões de dólares em 2011. De acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Tendências Digitais, a “Pátria do Evangelho” paradoxalmente registra os maiores índices de infidelidade.


Por que será que o mundo virtual vem fascinando mais do que a vida que se levava 20 anos atrás? Permanecer neste mundo quimérico, seduzidos pelas ondas eletromagnéticas da Internet, diante de um monitor, será por receio? Timidez? Acanhamento? Carência de amor próprio? Incerteza? Carência? Solidão? Ou será tolo encantamento, necessidade de aventuras, realização de feitos inenarráveis, ultrapassar limites, provocar reações, escândalos...?


Assim como há depravados nas drogas, no jogo e no tabaco, há internautas que passam horas a fio nas redes sociais, fato que vários grupos de especialistas americanos consideram um problema psiquiátrico. “Só no Brasil o número de internautas é de aproximadamente 75,5 milhões.”(1) A Internet oferece, sem dúvida, extremos perigos quando veicula cenas reais de apelos eróticos, de violências nos joguinhos “infantis”, etc. Por outro lado, não podemos desconsiderar que a Internet está presente nos hospitais, nos tribunais, nos ministérios, nas agências bancárias, nos supermercados, nas lojas, nas escolas, na segurança de nossas casas e empresas, enfim, fazer uma movimentação bancária, compras, observar nota na escola, realizar trabalhos escolares e profissionais, pesquisas. Eis aqui alguns dos exemplos de como estamos mais envolvidos com a informática do que se possa imaginar.


Na era da cibernética, da robótica, "vivemos épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda poucos estabilizados. Vivemos um destes raros momentos em que, a partir de uma nova configuração técnica, quer dizer, de uma nova relação com o cosmos, um novo estilo de humanidade é inventado."(2)


Estamos num estágio social em que o mundo virtual é quase o real, mas ele nos surge como sonho. Alguns sonham com cuidado, outros se perdem nos cipoais dos delírios oníricos. Em todos esses estágios, há o perigo dele virar pesadelo. Esse é o preço que a sociedade contemporânea paga pelo avanço da Tecnologia da Informação (TI), apesar de muitos cidadãos ainda não terem se dado conta de que seus atos pelas vias virtuais estão estabelecendo desastres morais de consequências imprevisíveis. Vejamos: a questão aqui colocada como inquietante é o adultério ocorrido pelas ferramentas virtuais, desaguando quase sempre na vida real.


Para refletirmos sobre o adultério, recorramos à sentença do Cristo que assevera: “atire-lhe a primeira pedra aquele que estiver isento de pecado.”(3) Esta sentença faz da indulgência um dever para nós outros porque ninguém há que não necessite, para si próprio, de indulgência. “Ela nos ensina que não devemos julgar com mais severidade os outros, do que nos julgamos a nós mesmos, nem condenar em outrem aquilo de que nos absolvemos. Antes de profligarmos a alguém uma falta, vejamos se a mesma censura não nos pode ser feita.”(4)


O Espírito Emmanuel explica que “é curioso notar que Jesus, em se tratando de faltas e quedas, nos domínios do espírito, haja escolhido aquela da mulher, em falhas do sexo, para pronunciar a sua inolvidável sentença.”(5)


Para Emmanuel, “dos milenares e tristes episódios afetivos que reverberam na consciência humana, resta, ainda, por ferida sangrenta no organismo da coletividade, o adultério que, de futuro, será classificado na patologia da doença da alma, extinguindo-se, por fim, com remédio adequado.” Considerando as aberrações propostas pelas redes sociais, urge considerar que o “adultério ainda permanece na Terra, por instrumento de prova e expiação, destinado naturalmente a desaparecer, na equação dos direitos do homem e da mulher, que se harmonizarão pelo mesmo peso, na balança do progresso e da vida.”(6)


Em verdade, quando respeitarmos os sentimentos alheios, “para que o amor se consagre por vínculo divino, muito mais de alma para alma que de corpo para corpo, com a dignidade do trabalho e do aperfeiçoamento pessoal luzindo na presença de cada uma, então o conceito de adultério se fará distanciado do cotidiano, de vez que a compreensão apaziguará o coração humano e a chamada desventura afetiva não terá razão de ser.”(7)


Auscultemos nos recessos profundos da consciência a oportuna advertência dos Benfeitores espirituais, lembrando-nos que diante de toda e qualquer desarmonia do mundo afetivo, seja com quem for e como for, coloquemo-nos, em pensamento, no lugar dos acusados, analisando as nossas tendências mais íntimas e, após verificarmos se estamos em condições de censurar alguém, escutemos, no âmago da consciência, o apelo inolvidável do Cristo: "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei."(8)



Referências bibliográficas:


(1) Últimas atualizações do Ibope/NetRatings;


(2) Pierre Lévy - As tecnologias da Inteligência - O futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004;


(3) João 8:7;


(4) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1977, item 13, do Cap. X;


(5) Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro, 1972, Ed. FEB, cap. 22;


(6) Idem;


(7) Idem;


(8) João 15:12.


** Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.