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Gente perfeccionista morre mais cedo

Gente perfeccionista morre mais cedo



Thiago Perin


Muita gente vê, nos perfeccionistas, um quê de qualidade, e não de defeito, né? O pessoal que conduz entrevistas de emprego que o diga. Seja como for, a parte negativa da coisa existe e está bem clara: o seu perfeccionismo, além de dar nos nervos de quem está ao seu redor, pode te matar.


A constatação vem de um estudo feito por pesquisadores de universidades do Canadá e da Noruega, que, depois de analisarem os níveis de perfeccionismo de 450 voluntários, ficaram de olho neles por seis anos e meio, observando como ia a saúde de cada um e, bem, se eles não morriam. Eis que, como deu para ver, o risco de morte era maior entre os que apresentavam sinais fortes de perfeccionismo e neuroticismo (é, gente difícil).


Já os mais desencanados, adeptos do “deixa a vida me levar”, é claro, tendiam a viver mais e melhor. Olha só, Zeca Pagodinho tinha razão. Espero que você nunca tenha duvidado.


Notícia publicada na Revista Superinteressante, em 3 de maio de 2011.



Nara de Campos Coelho* comenta


Perfeccionismo e Espiritismo


Com o Espiritismo, sabemo-nos Espíritos reencarnados na Terra para conquistar o desenvolvimento integral. Para isto, ocupamos temporariamente um corpo físico, vivenciando as situações que nos desafiam. Estamos, cada qual, em estágios evolutivos diferentes, pois ninguém cresce, harmonicamente, em todos os sentidos. Sob esta perspectiva, podemos entender a notícia de que uma pesquisa científica indica que pessoas perfeccionistas morrem mais cedo do que as que “deixam a vida os levar”.


Isto porque, se enxergarmos as pesquisas com olhos de quem entende a vida sob o aspecto da unicidade das existências, cujo futuro será o “Céu” ou o “Inferno”, em que nossa crença nem se detém, diremos: “Não é inteligente ser perfeccionista! Não ganho nada com isto! Então, deixe que a vida me leve ao seu sabor...” E é o que temos visto; cada vez um número maior de pessoas escolhe agir sem responsabilidade e critérios éticos e morais. Afinal, não ser escravos de regras e padrões, horários e exigências, contratos e responsabilidades, dá-lhes um sentido de liberdade e autonomia que, ainda que falsos, lhes conferem um quê de donos do seu próprio mundo. E isto tem se estendido por todos os ramos das ações humanas, especialmente no Brasil, onde personagens de destaque social e político, caricaturadas pelo ridículo de suas ações, têm feito a festa da mídia e a vergonha do nosso povo.


Por outro lado, a visão materialista de quem se sente espremido entre o berço e o túmulo, tendo o “nada” como comissão de espera após o assombro da morte, detecta da opinião da pesquisa a certeza de que ser perfeccionista resulta de opção racional para o resultado imediatista e utilitário, típico dos dias atuais. Assim se verifica a produção esperada com o desejado resultado acima do esperado. Para esta, pesquisa e nada é a mesma coisa, assim como a morte...


No terceiro enfoque, enquadra-se o espírita. A pesquisa ajuda-nos muito na aquisição do que já sabemos ser necessário, traduzido por Kardec, na expressão: “Conhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral, pelo grande esforço que faz em combater suas más tendências”. O que podemos observar é que os perfeccionistas, geralmente, se estressam muito para a realização de tarefas que se sucedem em exigências cada vez maiores, dando chance às obsessões. Além disto, é comum que exijam, também, dos que consigo se relacionam, as mesmas atitudes perfeccionistas, que nunca serão satisfatórias. Se não foram feitas por si mesmos, as produções estarão sempre incompletas. É fala comum dos perfeccionistas: “Eu é que tenho que fazer; ninguém faz do meu jeito...” Se não passaram por suas mãos, nada os agradará. Pois bem, isto gera muitos incômodos nas relações de afeto, de trabalho, na vida de relação, enfim, causando aborrecimentos de todos os lados, aumentando o estresse que corrói o equilíbrio e provoca até doenças. Quem é perfeccionista não se sente confortável, por exemplo, com a delegação de tarefas, permanecendo sobrecarregado, além de estimular o egoísmo que alimenta o orgulho, chagas da humanidade, como nos ensina Kardec, e das quais, portanto, precisamos nos libertar.


Se a pesquisa está certa ou errada, o futuro nos dirá. Mas que o perfeccionismo precisa dar vazão ao entendimento de que somos perfectíveis, mas não perfeitos, é uma realidade a que o Espiritismo nos concita. Eis que, neste exercício, temos a possibilidade de entender melhor as limitações do próximo, identificando as nossas próprias, para praticar, exaustivamente, no nosso cotidiano, o Amor ensinado por Jesus e traduzido por Kardec na feliz assertiva de que “Fora da caridade não há salvação!”


* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.