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Amor de irmão: americano de 6 anos protege irmão mais novo com seu corpo no ataque de cão feroz

Amor de irmão: americano de 6 anos protege irmão mais novo com seu corpo no ataque de cão feroz



Como um escudo, Timo não deixou que o cão chegasse perto do irmão e de outra criança, de 4 anos


Para proteger o irmão de 4 anos do ataque de um cão feroz, o americano Timo, de 6 anos, esqueceu o medo e utilizou seu corpo como escudo. O cachorro, que era uma mistura de pastor alemão, tinha escapado de um lote comercial e foi parar no quintal dos meninos em Homestead, sul da Flórida (EUA), onde, junto com mais outra criança de 4 anos, estavam brincando.


Os dois meninos mais novos se esconderam embaixo de um caminhão quando o cachorro abocanhou o ombro, o braço e a cabeça de Timo. Usando o corpo como barreira entre o cão e as outras crianças, Timo se deitou ao lado do caminhou e se recusou se mover enquanto o ataque permanecia. Eventualmente, o cão parou o ataque e fugiu, contou o garoto durante entrevista à TV WSVN, reproduzido pelo jornal britânico Daily Mail.


Só depois que o irmão e o amigo estavam salvos, Timo procurou ajuda e foi levado ao Miami Childrens’ Hospital, onde recebeu grampos cirúrgicos no couro cabeludo, ombros e braço. Agora, ele está se recuperando. E quanto ao cão, ele foi capturado pela polícia e sacrificado.


Notícia publicada na Revista Crescer, em abril de 2011.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Irmãos, parceiros inseparáveis ou rivais sem remédio?


Quando um novo Espírito está para chegar à família, normalmente os pais sentam o irmão de tenra idade num banco de jardim, mesmo em frente ao lago dos patinhos amarelos, e explicam com delicadeza que dentro daquela enorme barriga que a mãe exibe, com orgulho, está o seu futuro companheiro de brincadeiras com quem ele irá partilhar muitas alegrias durante a sua vida. “Vai ser o teu melhor amigo!”, diz-lhe o pai, procurando convencê-lo das vantagens da experiência da fraternidade.


Mas quando o irmão nasce, o entusiasmo depressa desaparece: aquele amigo não joga a bola, não sabe andar de bicicleta, nem sequer se comunica com clareza. Chora constantemente por mamadeira e suja as fraldas com uma frequência impressionante. Se isto não bastasse, a atenção dos pais fica centrada naquele pequeno manipulador, deixando o jovem iludido se roendo de ciúmes: “Mamãe, mudei de ideia e já não quero nenhum irmão. Ainda podemos devolvê-lo?”, perguntam às vezes, saudosos do tempo em que possuíam a propriedade exclusiva do amor dos pais. Quando o irmão começa a crescer, as coisas não melhoram. Tudo o que era só dele tem agora de ser partilhado. Amigo? Na verdade ele se parece mais a um verdadeiro usurpador.


Será mesmo?


Na realidade, os irmãos vivem uma das experiências mais marcantes e extraordinárias dos relacionamentos humanos. É uma união sem igual devido à sua duração, ao caráter indissolúvel, à igualdade e partilha de direitos e deveres. Devido a estas caraterísticas peculiares, é uma relação sujeita a enormes atritos e divergências – e quanto mais aproximadas as idades mais comuns são essas situações. Desde a infância, a presença de um irmão é encarada como uma perda, já que a criança precisa de aceitar que o amor dos seus pais não é uma exclusividade sua, mas uma propriedade partilhada. As suas ambições de ser o centro nevrálgico do mundo – que ele julga ser a família – esbarram na inflexibilidade do irmão em não abdicar dos mesmos desejos. Assim, enquanto não for atingida a maturidade emocional, é normal e saudável que haja rivalidade e competição entre os irmãos. Aliás, conseguindo ultrapassar essa fase, essa experiência tornar-se-á fundamental para lidar melhor com outros tipos de relacionamentos ao longo da vida.


Mas é verdade que muitos irmãos, mesmo adultos, não se conseguem libertar do ciúme, da competitividade e da antagonia. A Doutrina Espírita, compreendendo a vida como uma sequência infindável de experiências preciosas para expandirmos o nosso amor e a nossa sabedoria, compreende que muitas das incompatibilidades pessoais evidenciadas têm origens em outras vidas, quando esses Espíritos, através dos seus comportamentos e atitudes, criaram sentimentos mútuos de ódio e antipatia. Porém, nem tudo se encontra oculto pelo véu das vidas passadas. Existem situações em que as causas se encontram nessa vida mesmo. Por exemplo, as rivalidades entre irmãos, ao serem encaradas como tabus e situações embaraçosas que é preciso esconder, podem transformar-se em emoções reprimidas como se fossem enterradas em baús poeirentos de onde nunca saem. É aí, no secreto reduto da consciência, que essas rivalidades ficam guardadas a sete chaves, impedidas de serem confrontadas com a luz da realidade, do diálogo aberto, da compreensão e do exercício do amor. Encaradas desta forma, acabam muitas vezes por se perpetuar sem remédio durante toda a vida.


Mas, na maior parte dos casos, a rivalidade fraterna é saudável, fazendo parte de um processo em que aprendemos a partilhar e a reconhecer nos outros, indivíduos com os mesmos direitos e ambições, aquilo que desejamos. Com o passar dos anos, ao deixarmos cair as nossas pretensões de posse exclusiva, conquistamos uma visão diferente dos nossos irmãos: damos o devido valor ao companheiro de aventuras que está ao nosso lado; percebemos a admiração que ele sente por nós mesmo quando não a quer demonstrar; encaramos muitas vezes o nosso irmão como um modelo que nos incentiva à superação e à realização; multiplicamos os momentos de cumplicidade e de confiança. E assim, o rival irritante, o competidor inflexível, o intruso desagradável começa a transformar-se naquilo que o pai havia prometido naquele dia, sentado no banco do jardim em frente ao lago dos patinhos amarelos: um grande amigo!


É sempre com enorme emoção que lemos notícias sobre a coragem de alguém, e ainda mais quando é uma criança de 6 anos salvando a vida do seu irmão mais novo. Este exemplo tão emocionante mostra-nos que o elo fraterno, muito mais do que promover a rivalidade, instiga à proteção, à lealdade e amizade, ajudando a consolidar relações de amor, cumplicidade e confiança, que se estendem não só por esta vida física, mas que se prolongam por toda a eternidade.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.