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Cooperativa emprega ex-moradores de rua para reciclar lixo

Cooperativa emprega ex-moradores de rua para reciclar lixo



Há 21 anos em Pinheiros, Coopamare tem como objetivo a reinserção social e ensina vizinhança de classe média a conviver com a diferença


por Eduardo Duarte Zanelato


Vá lá dentro pedir a Joana uma máscara”, aconselha Maria José dos Santos, uma das 28 pessoas que trabalham na Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare), em Pinheiros. “Vamos mexer num material que está guardado há muito tempo, e os pelos que os ratos soltam irritam a garganta.” São 9h30 de uma manhã chuvosa, e Maria José, junto de outros 25 trabalhadores, trabalha rápido. A impressão é que ali ninguém tem tempo a perder. “Conversar a gente até conversa. A mão é que tem de estar trabalhando”, diz.


O dia está começando, e eles têm ao menos três toneladas de sacos de lixo para separar, organizar em grandes amontoados e comprimir em fardos de até 250 quilos. Esse material será vendido para indústrias de reciclagem, e o montante arrecadado garantirá de R$ 900 a R$ 1.000 mensais para cada um dos trabalhadores.


O objetivo da cooperativa é empregar moradores de rua para que, com esse dinheiro, eles consigam moradia e reinserção social. Até o final do ano, eles pretendem chegar a 50 cooperados. Seis recém-chegados estão em treinamento. É o caso de Paulo Eduardo Silva, de 39 anos, que há 20 anos vive como carroceiro. Nos últimos anos, ele viveu em prédios abandonados e teve problemas com alcoolismo. Viu o cartaz da Coopamare num centro de assistência social e candidatou-se à vaga. “Abriram a última porta para mim. É isso ou estou fora”, diz, contente. Ele está morando em um albergue associado à cooperativa e pretende trocá-lo por uma moradia assim que receber seu primeiro salário.


Exemplos como o de Paulo Eduardo são comuns na cooperativa. A trajetória da atual presidente, Dulcineia Silva Santos, de 46 anos (e 11 de casa), é parecida com a dele. Vinda do Maranhão, ela foi parar nas ruas após deixar o primeiro emprego na cidade. Sem ter onde morar, pernoitava em albergues e bebia muito. Depois de oito meses nas ruas, entrou para a cooperativa. Alugou um quarto de pensão em Pinheiros – onde vive até hoje – e teve uma filha com um ex-cooperado. Em dezembro, realizará o sonho da casa própria e mudará para um apartamento no Centro da cidade. “A ideia é que quem entra na Coopamare saia das ruas e em dois ou três meses consiga moradia. Morar em albergue não é vida.” Ela se mantém com o dinheiro que ganha ali e guarda a pensão que recebe do pai de sua filha, Camille, de 7 anos. “Não quero que ela tenha a mesma vida que eu.”


A Coopamare fica num ponto “nobre”: a Rua João Moura, em Pinheiros, sob o viaduto da Avenida Paulo VI. Por falta de uma resolução clara da prefeitura, eles já quase perderam o direito de uso do espaço. Desde 2006, um termo de concessão assinado pelo prefeito Gilberto Kassab lhes dá respaldo. A prefeitura exigiu, em contrapartida, que eles bancassem a obra de proteção contra incêndio, orçada em R$ 700 mil – e ainda falta dinheiro.


Quando chegaram ali, os cooperados sofreram também com a resistência de alguns moradores, que até tentaram retirá-los do local, desconfiados da idoneidade do grupo. Hoje a situação é bem diferente. Cerca de 20% do material recebido é deixado no portão da Coopamare por vizinhos. Como diz a mensagem na enorme viga do viaduto, eles trabalham “a serviço da comunidade” – e a comunidade aprendeu a se beneficiar do trabalho da cooperativa.


COOPAMARE. R. Galeno de Almeida, 659 (esq. com a Rua João Moura), Pinheiros, tel. (11) 3088-3537.


Matéria publicada na Revista Época São Paulo, em 18 de junho de 2010.



Cristiano Carvalho Assis* comenta


Cooperativa que dá certo. Este é o tipo de reportagem que deveria ser capa de revista, destaque em reportagem nos telejornais ou assunto de discussões. Mas observamos o inverso na nossa alimentação mental do dia a dia. Assistir ou ler as notícias que nos são colocadas é uma escada para depressão, desesperança e estímulo para aumentar nossos medos. Sempre que terminamos de ler ou assistir algo, na maior parte do tempo, sentimos um mal estar íntimo e saímos acreditando que a humanidade não tem mais jeito, perdendo nossas esperanças.


Nesta reportagem, reacendemos nosso orgulho de sermos Espíritos e, como tal, utilizarmos a inteligência para superar as limitações e auxiliar nosso próximo com ideias simples, mas que fazem a diferença para a dignidade pessoal. Quando terminamos de ler este tipo de matéria, ficamos melhores, mais satisfeitos e felizes.


Em O Evangelho Segundo Espiritismo, observamos, no Capítulo XIII, item 9: "A beneficência praticada sem ostentação tem duplo mérito. Além de ser caridade material, é caridade moral, visto que resguarda a suscetibilidade do beneficiado, faz-lhe aceitar o benefício, sem que seu amor-próprio se ressinta e salvaguardando-lhe a dignidade de homem, porquanto aceitar um serviço é coisa bem diversa de receber uma esmola". A Cooperativa é um exemplo típico da caridade moral, sem a humilhação da esmola, e contribuindo para a reestruturação da autoestima íntima perdida por infinidades de razões, como vícios, desemprego, choques emocionais e preconceito de outras pessoas por sua situação.


Sabemos que existe a modalidade de dar o peixe e a de ensinar a pescar. Qual a melhor? Sem dúvida, quem responde esta pergunta será o necessitado ao nosso lado. Alguns terão condições de aprender a pescar, conseguir com um pouco de ajuda, tirar seu próprio sustento, como no caso da reportagem. Outros são como Madre Tereza de Calcutá resume: "alguns nem conseguem segurar na mão a vara de pesca".


Divulguemos ao máximo todos os tipos de caridade, para que possamos estimular os corações de muitos a imitar essas iniciativas. Façamos a nossa parte para melhorar a psicosfera desta humanidade tão influenciada pelo desequilíbrio e com tão pouco destaque ao que melhora nossa alma. Precisamos mostrar que enquanto tem um fazendo o mal, existem milhares ao lado fazendo o bem. Onde ocorre uma calamidade, observamos milhões auxiliando. Enquanto têm alguns que julgam sem ajudar, outros como a Cooperativa ajuda sem julgar.


Sintamos nos corações sentimentos de amor e caridade quando lermos estes exemplos, mas não nos esqueçamos que associados a eles deveremos ter nossos braços, pernas e mentes para desenvolvermos nossa fé ativa, conforme Jesus veio nos ensinar. “Para ser proveitosa, a fé tem de ser ativa; não deve entorpecer-se”. (O Evangelho Segundo Espiritismo, Capítulo XIX, item 10.)


Alimentemo-nos com o que é bom, equilibrado e que nos faz bem. Busquemos leituras, imagens, vídeos ou áudios que nos elevem espiritualmente, não com a intenção de ficarmos vivendo numa ilusão contemplativa, achando que o mal não existe. Mas para conhecermos a outra face do que nos é jogado diariamente através de programas, revistas, jornais ou conversas que se centralizam no que é negativo. Com isso, teremos a liberdade de escolher o que for melhor para nós. E quem sabe consigamos fazer como Maria e ouçamos Jesus dizendo aos que nos rodeiam: “Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada." (Lucas 10:38-42.)


* Cristiano Carvalho Assis é formado em Odontologia. Nasceu em Brasília/DF e reside atualmente em São Luís/MA. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Maranhense e colaborador do Serviço de Atendimento Fraterno do Espiritismo.net.