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A tendência é aparentar desequilíbrio mental

A tendência é aparentar desequilíbrio mental



Imitar o estilo das celebridades é coisa da estação passada. No lugar da imagem construída à semelhança do ídolo está a vontade de agir como ele e chamar a atenção do maior número de pessoas possível. É o que mostra uma pesquisa feita pelo serviço de terapia online Mentaline.com. Em um universo de 1.192 jovens britânicos entre 12 e 17 anos, um terço admitiu aparentar distúrbios mentais para imitar ídolos que têm problemas psicológicos. Entre esses distúrbios estão transtornos alimentares (22%), automutilação (17%), vício (13%), depressão (12%) e transtorno bipolar (9%).


Um em cada dez jovens ouvidos acredita que doenças mentais são uma tendência, assim como os sapatos Oxford ou o estilo Navy. Um dos casos que ganhou notoriedade foi o da cantora Britney Spears. Após alcançar fama mundial, ela foi protagonista de diversos escândalos até ser internada em uma clínica de reabilitação, em 2007, onde, deprimida e com medo de perder a guarda dos filhos, raspou os cabelos. Depois, eles foram vendidos em um leilão. Da imagem de artista trash, no entanto, Britney não se livrou. Como ela, há Lindsay Lohan, presa três vezes. No limite, está o ator Heath Ledger, que morreu em 2008 após ingerir uma quantidade elevada de remédios para dormir.


O jornal britânico Daily Mail ouviu um dos responsáveis pela pesquisa do Mentaline.com, Jesper Buch. Ele afirmou que a juventude deveria ser um período em que se aproveita a vida, em vez de tentar convencer as pessoas de que se tem um problema extremamente sério.


No entanto, para uma parcela dos jovens ouvidos, padecer de males psicológicos torna as pessoas “únicas”. Parece-me equivocada a escolha do adjetivo. É contraditório desejar ser único imitando alguém ou, nesse caso, emulando problemas psicológicos alheios. E o preço a se pagar por esse infeliz flerte com a loucura pode ser alto, bem mais caro do que um acessório excêntrico usado por Lady Gaga.


Matéria publicada na Revista Época, em 29 de dezembro de 2010.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Comportamentos Estranhos


Avaliar qualquer tipo de fenômeno social, mesmo quando circunscrito a um local ou época, é sempre uma tarefa difícil, porque isso exige conhecimento de diversos campos de conhecimento como a psicologia, a sociologia, história, etc. Por isso, acredito que, como comentarista, devo simplesmente propor reflexões que ajudem a repensar o assunto em seus diversos aspectos, sem a pretensão de dar opiniões conclusivas.


Comportamentos chocantes sempre foram a marca registrada das juventudes de todos os tempos. Mas, quem são os que se chocam com a juventude? Quase sempre, são as pessoas mais velhas, conservadoras, zelosas das tradições, dos bons costumes e tudo que faça a vida parecer normal e segura. É a velha história de que os mais velhos acusam os mais jovens de serem inexperientes, impulsivos, agressivos, egocêntricos e de infantilmente se acharem superiores. Já os jovens, por sua vez, acusam os mais velhos de serem reacionários, comodistas, conservadores, pouco imaginativos e quadrados. Os primeiros são a vanguarda inexperiente, os segundos, a retaguarda conservadora e prudente. Uns se atiram ao mar com sede de vida, os outros, calculam friamente seus passos.


Este é um debate sem fim e cada qual que puxe a sardinha pro seu lado, mas não podemos deixar de reconhecer que esta convivência de opostos é saudável para uma sociedade mais plural, diversificada e rica de possibilidades. São como os opostos na questão de gênero (homem-mulher), sem esquecer que estas são formas simplificadas de compreensão da coletividade e que existem, por exemplo, jovens velhos e velhos jovens, homens de psique feminina assim como mulheres de psique masculina (e não estou aqui falando de opção sexual).


Se a transgressão é em todas as épocas uma característica da juventude, é o substrato cultural que vai fazer a diferença no tipo de transgressão. Podemos ter a transgressão como a de um jovem discípulo, como Jung, que resolve não concordar com seu mentor Freud, e como consequência dá origem a uma nova corrente da psicologia. Ou podemos ter a transgressão vazia dos rebeldes sem causa, que transgridem qualquer coisa, apenas por transgredir, sem dar um sentido útil e criativo ao seu impulso para romper com o estabelecido.


Quero dizer que o impulso natural que os adolescentes têm para a mudança é próprio da fase juvenil, não é patológico ou obsessivo. Quando chega a adolescência, o indivíduo está na fase de definição da sua personalidade. Neste momento, a criança que antes dependia dos pais para fazer uma leitura do mundo, que antes tinha seus pais como heróis infalíveis, agora necessita fazer um segundo parto, um parto psicológico, onde ela busca construir sua própria identidade psicológica e, para isso, há uma sede de auto-afirmação, identificação em um grupo que lhe faça se sentir alguém. Não é só isso. Este jovem passa a olhar o mundo com seus próprios olhos, ou do seu grupo, e não através dos olhos dos pais. Está por isso em fase de questionamento, de ruptura, porque sem esta ruptura é como se ele não se libertasse da dependência psicológica parental. Enquanto os jovens seguem o caminho natural para sua formação, incomodam àqueles que já consolidaram suas opiniões a ponto de se acomodarem com elas.


Se não houvesse transgressão, não haveria evolução. Para os judeus da época, Jesus foi um transgressor, assim como Sócrates também foi considerado um corruptor da juventude. O problema é, volto a chamar esta reflexão, qual o sentido positivo, criativo ou útil desta transgressão? Ou seja, transgredir por quê e para quê?


Quando o ser humano vive em um contexto favorável ao desenvolvimento de suas capacidades, ele utiliza o impulso reformador e destemido da juventude para mudanças importantes em todos os campos do conhecimento humano. Quando o ser humano não desenvolve suas capacidades por meio da educação, ao deparar-se com o sentimento de inadequação e busca que surge na juventude, ele degenera para as mais vis expressões, para a degeneração moral e espiritual.


Os jovens de hoje são os mesmos de ontem, porém, estamos vivendo em uma sociedade empobrecida culturalmente, que tem seus valores erodidos pela cultura de massa voltada para o consumo. O que observamos é um esvaziamento de nossos valores familiares, morais, éticos e tudo se perde no cinismo da desconstrução pós-moderna, odiosamente niilista. Estas são as consequências do nefasto materialismo que Allan Kardec declarou abertamente como único inimigo do Espiritismo, por sua degradante influência sobre a humanidade. Onde medra o materialismo, culturas se degeneram e as pessoas deixam de valer pelo que são e sim pelo que possuem. Os ídolos de plástico são as mesmas vítimas deste sistema, que são como agentes catalisadores, ícones desta cultura, escravos que também são vítimas que se degeneram psicologicamente e espiritualmente nas teias do mercado de consumo.


Agora, o que importa é parecer-se com aqueles que a mídia escolheu como pop-stars, ou sex-symbols, que não raramente são os mais desequilibrados por serem o centro das atenções de uma vida exposta pela mídia, cercada de assédio, de apelos sexuais, de cobrança por padrões de beleza irreais, de desvalorização da moral e da espiritualidade. Os desequilíbrios que apresentam estas figuras acabam sendo tomados por qualidades necessárias aos píncaros do sucesso, da beleza e da riqueza. Se eles são belos, ricos, felizes e amados e mesmo assim sofrem de bulimia e síndrome do pânico, estas lhes parecem qualidades necessárias ao estrelato ou, quem sabe, uma maneira de se sentirem mais próximos ou parecidos ao objeto de sua admiração. Trata-se de uma infeliz inversão de valores, ou mesmo ausência dos mesmos, que seriam necessários para direcionar o ser humano nesta fase de transformação biológica, psíquica e espiritual que é a adolescência e juventude.


Diante deste panorama, surge a Doutrina Espírita como uma proposta ética, cultural e de afirmação de valores edificantes para a formação do ser humano. O Espiritismo oferece ao jovem uma formação crítica, uma literatura vasta que lhe dá subsídios para viver sua juventude de maneira consciente, usando os impulsos que lhe são próprios para a construção de obras edificantes. O Espiritismo não se afirma a única manifestação digna ou capaz de elevar a humanidade. Ao contrário, ele faculta o interesse pelos mais diversos campos do conhecimento humano, fazendo com que seus adeptos, não raramente, sejam apreciadores e estudiosos das artes, das ciências e das religiões. Eu mesmo tive o privilégio de atravessar minha juventude com apoio do Espiritismo. Se não fosse, em primeiro lugar, a educação dada pelos meus pais e as reflexões propostas pelo Espiritismo (e posso falar por mim), minha história seria muito diferente. Ah... Isso seria sim!


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.