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Mentes ativadas

Mentes ativadas



A boa experiência com o filho, portador de deficiência, fez a psicopedagoga Maria Inês Grell criar o Projeto Apia para capacitar jovens com problemas mentais na arte da cerâmica


Texto Marilena Dêgelo Fotos Carlos Cubi


O movimento de amassar e moldar a argila mexe com os processos mentais. Por acreditar nisso, a psicopedagoga Maria Inês Grell colocou, aos 10 anos, seu filho Paulo, que possui deficiência intelectual, em aulas de cerâmica. “Elas foram transformadoras. Tudo melhorou nele: a autoestima, a coordenação motora, a concentração e a comunicação”, diz. “A cerâmica virou um elo dele com o mundo.”


Quando Paulo fez 20 anos, inês montou um ateliê para ele desempenhar a atividade profissionalmente com duas amigas ceramistas. “Começamos fazendo aromatizadores. Para compor o kit, fui comprar essências em uma loja e o dono encomendou seis mil peças. Como não daríamos conta, propus a capacitação de jovens de baixa renda com alguma deficiência para trabalhar conosco”, conta.


Daí nasceu, em 2003, o Projeto Apia – atividades e Projetos de inclusão pela arte, que obteve do Ministério da Justiça a certificação da OSCiP (organização da sociedade Civil de interesse Público). “Para haver inclusão, criamos módulos de oito alunos, com duração de um semestre, abertos para pessoas sem deficiência que contribuem com R$ 50 por mês”, afirma Inês, que é a coordenadora do projeto. Com doações de empresas, o valor arrecadado ajuda a pagar as despesas do ateliê e a compra de tornos e forno.


Em cada módulo são feitas cerca de 800 peças vendidas em bazares, lojas e feiras de artesanato e sob encomenda como brindes para empresas. Depois das aulas gratuitas, muitos alunos com deficiência continuam frequentando o ateliê e recebem porcentagem do faturamento de acordo com os dias trabalhados e a produção. “Já tive aqui 16 jovens com deficiência, vindos de instituições públicas, como as Capis – Centro de atenção Psicossocial”, diz Inês. A capacitação envolve a confecção das peças biscoito – argila que recebe uma queima no forno a 800ºC – usadas nos aromatizadores. Alguns dos jovens progridem e criam cerâmica com pintura e segunda queima a 1.300ºC. Mesmo com dificuldades, Inês acha importante manter o projeto. “Não há programas para jovens com deficiência, somente para crianças, apesar da lei de inclusão. E eles são capazes e precisam exercer alguma atividade.”


Matéria publicada na Revista Casa e Jardim.



Nara de Campos Coelho* comenta


Lição Aprendida


Com o Espiritismo, sabemos que a jornada terrena tem a finalidade superior de nos permitir a chance da evolução integral. Espíritos que somos, precisamos dos corpos físicos que nos propiciem experiências capazes de nos transformar para melhor, somando, assim, em cada reencarnação, as conquistas alcançadas por nosso esforço. Esta experiência significa caminho de evolução, como nos ensina a questão 501, de O Livro dos Espíritos: “(...) O Espírito precisa de experiência para adiantar-se, experiência que, na maioria das vezes, deve ser adquirida a sua custa. É necessário que exercite suas forças, pois do contrário, seria como uma criança a quem não permitem que ande sozinha.” O difícil tem sido aproveitar bem as lutas para que elas, verdadeiramente, nos facultem a desejada experiência, que é a chancela para a evolução e consequente felicidade. O mais comum, porém, tem sido a fuga das lutas, a revolta contra Deus, o desespero, e tantas outras atitudes que multiplicam as dores.


Com o Espiritismo, sabemos, também, que não existe acaso nas leis divinas, que somos os artífices do nosso futuro e que o bom uso do nosso livre-arbítrio nos conduzirá, sempre, às situações mais felizes. Bom uso do livre-arbítrio significa sua aproximação com as leis divinas, que Jesus veio exemplificar.


Maria Inês Grell, ao identificar a deficiência intelectual de seu filho de dez anos, não se deixou ser derrotada por esta dor. Tampouco, permitiu que seu filho estacionasse no problema que, certamente, acarretaria crescentes dificuldades para suas vidas. Ela foi à luta. Transformou a dor pessoal em degraus evolutivos, beneficiando a si e a seu filho, bem como a todos que podem usufruir de sua atitude feliz.


É interessante que observemos que nem sempre vivenciamos situações dolorosas como forma de resgate do passado. É muito comum as pessoas dizerem: “A dor vem porque precisamos pagar alguma coisa...” Nem sempre. Na questão 399, de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos nos esclarece que “(...) as provas porque passa o Espírito tanto se referem ao futuro quanto ao passado. Chegado ao termo marcado pela Providência para a sua vida na erraticidade, o próprio Espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu adiantamento, isto é, o gênero de existência que julga mais apropriado a fornecer-lhe os meios de adiantar-se, e tais provas estão sempre em relação com as faltas que deve expiar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem de recomeçar.”


Assim, no caso em análise, mãe e filho podem estar resgatando o passado, aprendendo com as dificuldades atuais para harmonizarem-se às leis divinas a que um dia infringiram. Ou então, estão se fortalecendo no entendimento das leis divinas, por meio da vivência desta dificuldade, escolhida por eles mesmos, graças ao bom uso do seu livre-arbítrio, para atingirem o fim superior que é o progresso integral, que se dá em conquista gradual, de reencarnação em reencarnação. Foi por isto que Jesus nos alertou em várias de suas parábolas: “Aquele que é fiel no pouco é fiel no muito!”


Ao seguir Jesus, amando o seu próximo como a si mesmo, Maria Inês Grell vem fazendo daquilo que poderia tecer-lhe as teias da infelicidade, impedindo-lhe os movimentos naturais da vida, sua escada de luminosa ascensão. E este amor se multiplica em corrente de alegria para tantos outros que se vêm tangidos pela dor, carentes do amparo dos circunstantes, para se estabelecer em torno dela, trazendo-lhe a atmosfera de paz e alegria, típica de quem age para o bem, de quem pensa o bem, de quem faz de si mesmo a diferença para tantos.


É uma bela vida.


É uma belo exemplo de lição aprendida.


* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.