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Pesquisadores da Unicamp apresentam capacete que pode ler pensamentos

Pesquisadores da Unicamp apresentam capacete que pode ler pensamentos



Jornal Nacional


O equipamento pode emitir comandos para operar um computador, por exemplo. Aparelho possui eletrodos que captam sinais do cérebro, que são transformados em comandos.



Matéria publicada na página da Globo Vídeos, em 3 de dezembro de 2010.



Carlos Miguel Pereira* comenta


“Porque Deus vos concedeu a inteligência e a ciência, se não para as compartilhardes com vossos irmãos, para os adiantar no caminho da felicidade e da bem-aventurança eterna?” (Espírito de São Luís, em O Livro dos Espíritos.)


As fascinantes histórias de ficção científica, conseguindo aliar a imensa criatividade dos seus autores com um elevado grau de especulação sobre um futuro mais ou menos distante, deliciam-nos com as suas narrativas extraordinárias sustentadas pela previsível escalada do progresso tecnológico. As tecnologias utilizadas nessas histórias, mesmo estando ao nível da ficção, nunca param de nos seduzir, alimentando a expectativa sobre a possibilidade de um dia se poderem tornar realidade. Por esse fato, é sempre uma enorme alegria quando percebemos que algumas das especulações tecnológicas deixaram o domínio da ficção para se fixarem nas fileiras da investigação científica com aplicações reais.


A comunicação direta entre o cérebro humano e as máquinas vem sendo estudada e investigada há alguns anos nos meios acadêmicos. Existem várias técnicas de interface cérebro computador, umas mais complexas do que outras. O Professor Kevin Warwick, da Universidade de Reading, na Inglaterra, é famoso pelas suas experiências com braços biônicos movidos através de sensores que monitoram a atividade elétrica ao longo da pele, nervos e músculos. O Professor Miguel Nicolelis, brasileiro, e diretor do Laboratório de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos USA, é também conhecido pelos excelentes resultados dos seus implantes em cérebros de mamíferos que, através de sinais neuronais, conseguem mover braços robóticos ou fazer andar um robô.


A técnica relatada na investigação da Unicamp, apresentada na notícia, é a de eletroencefalograma, sendo um pouco menos ambiciosa que as de implantes neuronais. Ultimamente têm surgido alguns instrumentos portáteis de baixo custo que tornam esta tecnologia acessível a um maior número de pessoas e utilizações e isso torna-a alvo de um maior protagonismo. Um desses aparelhos é o Emotiv Epoch que foi o utilizado pela Unicamp nesta investigação.


Mas como é possível um computador saber o que pensamos? O nosso cérebro é constituído por muitos milhões de neurônios. Quando estes neurônios interagem, a reação química resultante emite impulsos elétricos que podem ser medidos. Através de eletrodos colocados no couro cabeludo, é então possível amplificar e capturar os sinais elétricos emitidos pela atividade cerebral superficial, procurando compreendê-los numa linguagem informática. Capturada a informação, esta é passada a um software desenvolvido para o efeito que a compreende, executando alguns comandos básicos. Mas isto não é tão linear quanto possa parecer, já que os impulsos elétricos gerados por um indivíduo, ao pensar num determinado comando, são únicos para esse indivíduo, como se fossem uma singular impressão digital, sendo por isso necessário, em primeiro lugar, ensinar ao programa a forma como essa pessoa pensa nesse comando. A partir daí, sempre que pensamos daquela forma, o programa já sabe o que pretendemos. Uma simples e interessante explicação sobre esta tecnologia, foi relatada pela Drª Tan Le, a Diretora da Emotiv Systems, numa conferência TED e que se encontra neste link: http://www.ted.com/talks/tan_le_a_headset_that_reads_your_brainwaves. html.


Através desta ou de outras técnicas, poderemos antecipar um provável futuro em que a atividade eletromagnética do cérebro será usada para controlar próteses robóticas, acionar mecanismos computorizados simples, servir de interface com o computador, substituindo o teclado e o mouse, o que trará enormes benefícios para pacientes com doenças neurológicas incapacitantes ou indivíduos portadores de alguma limitação motora, significando um passo decisivo no caminho para a sua autonomia.


Estes avanços extraordinários a que assistimos fascinados também levantam algumas questões que precisamos não esquecer: Será que existirá no futuro uma tecnologia capaz de ler os pensamentos de outras pessoas? Quais as implicações éticas de uma tal tecnologia?


Analisando o extraordinário progresso que as neurociências alcançaram nos últimos anos, é temerário afirmar de forma peremptória o que elas não serão capazes de alcançar. É bem possível que algum dia isso possa acontecer. À medida que o Homem vai evoluindo moral e intelectualmente, possui cada vez melhores condições para lidar com os desafios que esta era tecnológica lhe coloca. No entanto, é imprescindível a incorporação de alguns limites éticos ao progresso, para que a tecnologia se mantenha ao serviço do Homem e da sua evolução, e não o oposto. Progresso, sem uma ética firme e consistente, é como um cavalo sem rédea: ninguém sabe onde vai parar. É bem possível que nos dias atuais o ser humano ainda não estivesse moralmente capaz de usar de forma correta uma tecnologia que lhe possibilitasse ler os pensamentos daqueles que o rodeiam, colocando-o antes ao serviço da sua inveja, cupidez, maledicência e curiosidade mórbida. O progresso intelectual, andando um pouco à frente do progresso espiritual, produz alguns abusos que a Humanidade por vezes sofre na pele. Mas esse progresso intelectual é também um agente do progresso moral, como nos afirma a questão 780, de O Livro dos Espíritos. A moral e a inteligência são duas asas de um mesmo pássaro que apenas o tempo ajudará a equilibrar. A tecnologia amplia as nossas possibilidades, escolhas e potencialidades. Cada inovação, invenção ou descoberta oferece ao Homem uma nova forma de se expressar, de obter a excelência, de colocar em ação os talentos que lhe são inerentes e uma nova oportunidade de crescimento e transcendência espiritual. O nosso trabalho como seres humanos numa era tecnológica passa por celebrar as inovações que sirvam a Humanidade, privilegiando as tecnologias que ampliam o nosso poder de escolha e de crescimento em detrimento daquelas que o limitam e atrofiam.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.