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“Se houvesse uma alternativa, não faríamos testes com animais”

“Se houvesse uma alternativa, não faríamos testes com animais”



O americano Michael Conn afirma que o uso de cobaias animais é uma necessidade da ciência e que a ideia de que os bichos são submetidos a crueldades nos laboratórios é fruto da desinformação


Por Marco Túlio Pires


Em 2008, cansado de ver amigos deixando a pesquisa biomédica sob ameaças de ativistas contra a pesquisa com animais, o endocrinologista americano Michael Conn resolveu sair do anonimato e publicar o livro The Animal Research War, sem edição no Brasil. Nele, além de falar de pesquisadores que chegaram a ter suas vidas ameaçadas por radicais, Conn defende o uso de cobaias como essencial ao avanço da medicina.


A publicação foi aclamada por renomados periódicos científicos como Science, Nature e New Scientist como um dos principais documentos na defesa da pesquisa animal. “Relatamos casos de profissionais que abandonaram carreiras de sucesso porque não queriam ver suas esposas, parentes e filhos em perigo”, escreveu Conn em uma coluna do jornal americano Washington Post em 2008. Orientado pelos colegas e advogados, o endocrinologista prefere não mostrar o rosto visando à própria segurança.


Conn é também o diretor de pesquisa da Universidade de Saúde e Ciência do estado de Oregon (EUA) e editor-chefe dos periódicos científicos Endocrine, Contemporary Endocrinology e Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders. Ele conversou com o site de VEJA e disse que, se os seres humanos vivem cada vez mais e melhor, isso se deve ao vasto conhecimento médico acumulado por meio de pesquisas com animais.


O que nos dá o direito de submeter outros seres vivos indefesos ao sofrimento em pesquisas médicas?


O fato de que existe um meio termo entre abusar dos animais e acreditar que eles não devem ser usados em pesquisas de maneira nenhuma. E não é preciso ser médico, ou estar envolvido nas pesquisas, para pensar assim. O caso do Dalai Lama, um líder espiritual que não come carne, é interessante nesse aspecto. Ele afirma que devemos tratar os animais com respeito e que não devemos explorá-los. Especificamente em resposta à experimentação animal, ele já disse que as perdas são de curto prazo, mas os benefícios de longo prazo são muitos. Se surgir a necessidade de sacrificar um animal, afirma o Dalai Lama, devemos fazê-lo com empatia, causando o mínimo de dor possível. Menciono o Dalai Lama como um exemplo de que é possível desenvolver um raciocínio ético a respeito desse assunto, compatível inclusive com outras formas de respeito à vida animal, como o vegetarianismo.


Leis internacionais como o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsinki dizem que qualquer experimentação com humanos em pesquisa científica requer o pleno consentimento do indivíduo. É óbvio que os animais não podem "consentir" em ser usados, mas, como eles fogem da dor e do sofrimento na natureza, podemos inferir que eles evitariam situações em que são submetidos a elas. Por que não estender aos animais, ainda que por empatia, o mesmo princípio que protege os humanos?


Conceitos como os de consentimento e autonomia só fazem sentido dentro de um código moral que diz respeito aos homens, e não aos animais. Os animais não planejam significativamente o futuro. Eles não têm leis como as nossas. Eles não tomam decisões coletivas e não fazem assembleias para resolver esta ou aquela questão. Com frequencia, eles se canibalizam no meio selvagem. Somos seres diferentes. Nossa obrigação com nossos vizinhos é respeitá-los como indivíduos e dar, a cada um, o direito de tomar suas próprias decisões, dentro dos limites estabelecidos pela sociedade. Nossa obrigação com os animais é fazer com que eles sejam devidamente cuidados, não sofram nem sintam dor - e não tratá-los como se fossem humanos, o que seria uma ficção. Nossas leis - dirigidas a outros seres humanos - devem garantir que esses procedimentos serão observados na pesquisa científica.


Há quem diga que o único motivo por que os cientistas se preocupam com o bem estar dos animais é porque o estresse e o sofrimento alteram o resultado das pesquisas. É assim que os cientistas agem?


Penso que os cientistas são pessoas extremamente morais. Em nosso laboratório, por exemplo, os cientistas tratam os animais como indivíduos muito especiais. Passamos muito tempo cuidando deles. Nós nos certificamos de que eles estão confortáveis e suas necessidades supridas. As instalações nas quais a maioria dos animais de pesquisas são acomodados são muito superiores às dos animais de estimação. O problema é partir do pressuposto de que pessoas e animais são a mesma coisa. Existem muitos aspectos que diferenciam os humanos dos outros animais. Por exemplo, os ativistas querem que os coelhos sejam colocados em gaiolas maiores. Acontece que quando um coelho é colocado em uma gaiola grande ele acredita que está em um campo aberto e que será presa fácil para um falcão ou algum pássaro grande que pode matá-lo. Por causa disso, ele entra em pânico. Eles gostam de gaiolas pequenas. O que quero dizer é que são feitos estudos para entender as necessidades desses animais. E com isso, tiramos vantagem do fato de que é possível manter coelhos em gaiolas pequenas deixando-os confortáveis. Repito: as necessidades de um coelho e as necessidades de uma pessoa são muito diferentes. Animais não são pessoas.


Quais valores pautam o seu trabalho, quando o senhor promove testes em animais?


Nós nos pautamos por aquilo que, em inglês, chamamos de "princípio dos três Rs”:  Reduce, Refine, Replace [em português, reduzir, refinar e substituir]. Reduzir significa utilizar o menor número possível de animais em determinado estudo. Refinar significa desenvolver experimentos de modo que o ser menos evoluído da cadeia evolutiva possa ser utilizado. Se é possível utilizar amebas, vamos usar amebas — a mesma coisa para insetos ou minhocas, por exemplo. A minoria absoluta dos experimentos, muito menos de 1%, utiliza primatas. A maior parte dos estudos é feita em roedores e outras espécies não-primatas. Substituir, finalmente, significa não utilizar animais sempre que possível. Nos Estados Unidos e no Brasil, o conceito dos três Rs é adotado por todos os cientistas éticos como requerimento e padrão para a condução do trabalho.


Alguns cientistas, como o médico Ray Greek, dizem que testes de remédios em animais não têm valor preditivo - que os resultados válidos de verdade só começam a ser obtidos na hora em que as cobaias humanas entram na experiência. O senhor concorda?


A verdade é que se você observar o que aconteceu com as doenças humanas, virtualmente todos os resultados positivos, que fizeram as pessoas viverem vidas mais longas e saudáveis, vieram de pesquisa animal. Nesse momento, sou um ótimo exemplo. Semana passada tive o osso do meu quadril substituído. Esse tipo de procedimento médico veio de pesquisa animal. E mais, se a sua tia está sendo tratada de câncer de mama, se suas crianças e animais estão imunizados por vacinas, se seu pai fez cirurgia do coração ou se você tem um joelho artificial, você deve tudo isso à pesquisa animal. Na próxima vez que seus leitores levarem os filhos ao pediatra para diagnosticar uma gripe, eles estarão utilizando produtos advindos de pesquisa animal. Mesma coisa para exames que vão da rubéola até a gravidez. Então, do que exatamente esses cientistas estão falando? Acredite, se houvesse uma forma mais fácil de conduzir os estudos, os cientistas envolvidos na pesquisa com animais seriam os primeiros a adotá-la.


O teste com animais é capaz de prever os efeitos de uma droga em um ser humano?


A rigor, seres humanos não são modelos perfeitos para eles próprios. Homens não são modelos perfeitos para mulheres, pessoas jovens não o são para velhas, pessoas que cresceram em São Paulo não são modelos perfeitos para pessoas que cresceram nos Estados Unidos e vice-versa. Os animais não são modelos perfeitos para os seres humanos. Mas o uso de animais é indispensável para fazer avançar as pesquisas. As pessoas e os animais são diferentes e utilizamos os animais para entender melhor as leis fundamentais da biologia de modo que possamos desenvolver novas drogas. Algumas pessoas dizem que a cultura de células é uma boa alternativa. E de onde veio a cultura de células? Da pesquisa animal.


Com sua enorme capacidade de fazer cálculos e testar alternativos, os computadores não poderiam eliminar a necessidade do uso de animais em experiências?


Os computadores só conseguem analisar dados que lhes oferecemos, e esses dados vêm dos animais. Os remédios vêm de descobertas feitas em laboratórios que usam animais e, com elas, entendemos os processos biológicos fundamentais de determinado procedimento. Não é possível utilizar computadores para conduzir esse tipo de prática, ela precisa ser desenvolvida em animais.


Por que não crer que a ciência, capaz de tantos feitos espetaculares, não é capaz de avançar sem a pesquisa com animais?


Eu adoraria que um dia não precisássemos mais conduzir experimentos sem utilizar animais. Creio que a maioria dos cientistas se sente da mesma forma. Se pudéssemos utilizar apenas um computador seria ótimo. Mas a verdade é que não é possível. A pesquisa é uma troca. Para aprender mais sobre os seres humanos realizamos experimentação animal - controlada por leis, que garantem que elas sejam feitas de modo a causar o menor sofrimento possível. Estudamos duro para entender quais são as necessidades dos bichos com os quais convivemos. Por exemplo, sabemos que os primatas são animais pensantes, curiosos. Por isso, proporcionamos à nossa colônia estímulo intelectual, realizando atividades que os mantém interessados. Os animais em nossas instalações recebem cuidado veterinário excelente. Eles se alimentam de comida excepcional e vivem muito mais do que no meio selvagem. Existem profissionais a postos 24 horas por dia. Essa visão de que a pesquisa animal é uma coisa monstruosa não é verdade. Poucas pessoas já visitaram laboratórios que acomodam esses animais e eu faço o convite para que os leitores tenham o trabalho de visitar algum deles.


Matéria publicada na Revista Veja, em 15 de outubro de 2010.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Lei de Destruição


O discurso pelo uso de animais para o desenvolvimento da ciência é justificado sob os mesmos argumentos do uso dos mesmos para a alimentação humana. Na reportagem em destaque, Michael Conn defende abertamente esta ideia, porém, ressaltando todos os cuidados éticos para minimizar o sofrimento de animais. Conduzida sob o mencionado princípio dos 3 R’s (Reduzir, Refinar e Substituir em português), as pesquisas, assim feitas, atendem as prerrogativas éticas pois busca-se usar o animal apenas quando é realmente necessário.


A polêmica remete a O Livro dos Espíritos, quando em sua parte terceira, na Lei de Destruição, podemos destacar as seguintes questões:


734. Em seu estado atual, tem o homem direito ilimitado de destruição sobre os animais?


"Tal direito se acha regulado pela necessidade, que ele tem, de prover ao seu sustento e à sua segurança. O abuso jamais constitui direito."


735. Que se deve pensar da destruição, quando ultrapassa os limites que as necessidades e a segurança traçam? Da caça, por exemplo, quando não objetiva senão o prazer de destruir sem utilidade?


"Predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais só destroem para satisfação de suas necessidades; enquanto que o homem, dotado de livre-arbítrio, destrói sem necessidade. Terá que prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, pois isso significa que cede aos maus instintos."


Diante disso, fica clara a posição espírita sobre o assunto. Resta saber se as experiências conduzidas nos laboratórios seguem de fato todas as prerrogativas éticas, porque nem sempre o discurso corresponde à prática. O que observa-se pelo mundo, principalmente em alguns países asiáticos, onde se acredita no poder terapêutico de partes de organismos de alguns animais, é a criação, tortura e exploração dolorosa dos mesmos para atender às crendices locais. Pelo mundo, pesquisadores que não se importam em seguir tais prerrogativas éticas, pessoas que maltratam e espancam seus animais de estimação ou simplesmente quem come seu bife suculento sem se importar sobre como estes animais foram mortos e abatidos.


Não quero entrar na questão do consumo de carne, que é outra polêmica, mas peço aos carnívoros irremediáveis que pelo menos busquem saber das condições que muitos animais são criados e abatidos antes de chegarem à mesa para escolher por uma carne de origem certificada, de criadores que tratem bem seus animais, que procedam com um abate rápido e indolor. Eu mesmo já tive a oportunidade de ir a um abatedouro por uma atividade da faculdade e de fato é uma experiência nada agradável, que me fez pensar sobre os meus hábitos.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.