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Não tenho violência no coração, diz filho de Osama bin Laden

Não tenho violência no coração, diz filho de Osama bin Laden que recusou suceder o pai na Al Qaeda



Fernanda Calgaro
Especial para o UOL Notícias
Em Londres


Mesmo sendo uma das famílias mais ricas e influentes da Arábia Saudita, na casa dos Bin Laden era proibido ter televisão, geladeira, fogão elétrico e ar-condicionado - apesar de a temperatura na Arábia Saudita chegar a 45ºC no verão (com picos de 54ºC).


As crianças não podiam ter brinquedos, tomar refrigerante nem rir, sob pena de serem castigadas. Eram obrigadas pelo pai, Osama, a fazer caminhadas no deserto de até 14 horas sem poder beber água. Algumas vezes no Sudão, os treinamentos incluíam passar a noite também. Cada um tinha que se deitar num buraco cavado no chão. Para espantar o frio, só havia terra para se cobrir.


Histórias como essas são narradas por Omar, o quarto dos 20 filhos de Osama, e pela sua mãe, Najwa, primeira mulher de Osama, à escritora americana Jean Sasson no livro "Sob a sombra do terror" (editora BestSeller, R$ 34,90, 432 páginas), lançado no Brasil há algumas semanas.


Escolhido pelo seu pai para ser sucessor na Al Qaeda, grupo terrorista que organizou os ataques de 11 de setembro de 2001, Omar recusou seguir esse caminho. Depois de abandonar Osama no Afeganistão, tornou-se crítico das atividades do pai. Confira a seguir a entrevista que Omar concedeu ao UOL Notícias por e-mail.


UOL Notícias: No livro, o sr. diz que "a vida era mais agradável quando seu pai estava longe, muito longe" e que o "mundo louco do seu pai" teve efeitos na vida da família. Como o comportamento dele afetou o senhor, seus irmãos e irmãs?


Omar bin Laden: Era difícil ter um pai que não ficava tanto em casa. E ele estava muito ocupado com o seu trabalho e lutando contra os russos no Afeganistão, algo que ele levava muito a sério. Havia uma seriedade incomum na nossa vida de crianças pequenas. Como consequência, nós não éramos muito felizes quando crianças.


UOL Notícias: Apesar de o sr. pertencer a uma das famílias mais ricas e influentes da Arábia Saudita, muitas coisas eram proibidas na sua vida, como o uso da geladeira, do ar-condicionado e de brinquedos, o consumo de refrigerantes e até remédios. Ironicamente, seu pai tinha os carros mais modernos e caros e armas. Quando olha para trás, como vê o seu pai? O sr. ainda o ama?


Omar bin Laden: Ele era meu pai e eu sempre o amei. Ele achava que o que ele estava fazendo era muito importante e então os filhos dele vinham em segundo plano em relação aos problemas mundiais. Eu gostaria que tivesse sido diferente. Eu gostaria que meu pai tivesse tido mais tempo com os seus filhos pequenos. Sim, eu amo meu pai como todo filho ama o seu pai. É um amor automático, sem pensar.


UOL Notícias: O sr. deixou o seu pai no Afeganistão meses antes do ataque de 11 de Setembro. Por que decidiu esperar todo esse tempo para contar a sua história?


Omar bin Laden: A hora não era a certa. Era muito cedo depois de eventos grandes. Eu estava ocupado tentando colocar a minha vida em ordem. Então todo mundo estava escrevendo sobre a minha vida e a do meu pai, mas não sabiam do que estavam falando. Tudo o que eu lia estava errado. Até mesmo depois de eu ter revelado como era a vida do meu pai, jornalistas escrevem o que eles querem e, quando leio, balanço a minha cabeça sobre o quão errado eles estão. Até que chegou a hora em que decidi que seria bom contar ao mundo sobre a minha vida com o meu pai.


UOL Notícias: Por que escolheu uma escritora americana para escrever o livro? Foi uma tentativa de tornar a sua história mais convincente para o mundo ocidental?


Omar bin Laden: Eu escolhi a Jean Sasson porque ela era conhecida por escrever histórias sobre o Oriente Médio e mulheres muçulmanas. Ela morou na Arábia Saudita por 12 anos e eu ouvi de alguém próximo a mim que ela iria entender a minha mentalidade de árabe muçulmano melhor do que ninguém. E ela entende.


UOL Notícias: Ao ser levado, ainda adolescente, para a montanha de Tora Bora (Afeganistão), o sr. havia sido escolhido pelo seu pai como seu sucessor, aquele que deveria conduzir a Al Qaeda e continuar com a guerra santa. Como se sentiu sobre isso? E por que acha que seu pai o escolheu? Chegou em algum momento a considerar aceitar a posição?


Omar bin Laden: Meu pai disse que ele havia me escolhido porque eu era justo e calmo ao tomar decisões. Além disso, eu não sei outro motivo. Não, nunca considerei aceitar a escolha do meu pai de que eu deveria ser o seu sucessor. Eu não tenho violência no meu coração.


UOL Notícias: Quando o sr. abandonou o seu pai no Afeganistão, qual foi a sua reação? Com a sua recusa, por que seu pai não escolheu um irmão seu?


Omar bin Laden: Meu pai ficou calmo porque esse era o seu jeito. Posso dizer que ele ficou desapontado, mas calmo. Ele sabia que eu havia me tornado um homem e, uma vez que os anos da minha infância haviam passado, ele não podia forçar as suas escolhas sobre os filhos dele. Eu não sei por que meu pai não escolheu um dos meus irmãos.


UOL Notícias: Ayman al-Zawahiri (número dois na hierarquia da rede terrorista Al Qaeda) e o seu fervor revolucionário tiveram influência no seu pai. O sr. considera que, se não fosse por ele, talvez seu pai não tivesse se tornado terrorista?


Omar bin Laden: Eu sempre disse que meu pai foi influenciado por egípcios que estavam em guerra contra o seu próprio governo. Certamente, eles tornaram meu pai mais agressivo.


UOL Notícias: No livro, o sr. relata que acreditou que seu pai era o responsável pelo ataque às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, "somente muito depois, quando ele (Osama) assumiu pessoalmente a autoria". Por que levou tanto tempo?


Omar bin Laden: É difícil para qualquer filho acreditar quando se olha para os eventos daquele dia.


UOL Notícias: O sr. considera que é possível haver mais ataques coordenados pela Al Qaeda?


Omar bin Laden: Pelo que eu leio no noticiário, parece que a Al Qaeda permanece ativa em várias partes do mundo, o que leva a crer que esteja coordenando mais ataques.


UOL Notícias: O livro mostra seu pai como um combatente muçulmano obstinado. O livro poderia influenciar as pessoas que pensam em lutar a Jihad (guerra santa)?


Omar bin Laden: Não. Eu acredito que qualquer um que esteja focado em se tornar um jihadista vai fazê-lo sem ler a história da minha vida e da vida do meu pai.


UOL Notícias: Tropas americanas continuam a atuar no Afeganistão, enquanto os Estados Unidos recuaram no Iraque. Considera que essa estratégia pode derrotar o Taleban?


Omar bin Laden: Pelo que eu vi do Taleban no Afeganistão, eles são bem obstinados e vão continuar a lutar contra qualquer um no país deles. A história provou que é impossível fazer alguma mudança no Afeganistão, portanto eu acho que ninguém consegue derrotá-los.


UOL Notícias: Desde o lançamento do livro na Europa e nos Estados Unidos no final de 2009, o sr. e a sua mãe tiveram notícias de parentes com quem haviam perdido o contato. O que eles disseram sobre o livro e sobre a descrição que fez do seu pai? O sr. mantém contato com eles?


Omar bin Laden: Prefiro não comentar o que meus irmãos disseram sobre a história ter sido contada ou sobre meu pai. Mantenho contato frequente com eles.


UOL Notícias: O sr. já manifestou seu desejo de conhecer o papa Bento 16 e visitar o Vaticano. Também disse que gostaria de virar embaixador da paz das Nações Unidas. O sr. tem planos de entrar na política ou na vida pública?


Omar bin Laden: Não tenho planos no momento. Estou muito ocupado com a minha vida privada. No entanto, a qualquer momento, estou disposto a ajudar a promover a paz, fico feliz em poder fazer isso.


UOL Notícias: Em julho passado, a imprensa britânica publicou que o sr. havia sido hospitalizado com o diagnóstico de esquizofrenia, após ter começado a ouvir a voz do seu pai na sua cabeça. Sua ex-mulher [a britânica Zaina] também mencionou que o sr. teria transtorno bipolar. O sr. negou e disse que havia recebido tratamento contra depressão. Poderia comentar isso?


Omar bin Laden: As pessoas dizem muitas coisas quando elas estão bravas. A minha ex-mulher estava brava. Eu não tenho esquizofrenia. Não ouço a voz do meu pai na minha cabeça. Eu sonho com frequência com meu pai. Sonhei que ele estava dirigindo um caminhão e eu me punha na frente para tentar parar o caminhão - o que isso significa eu não sei. Tive depressão no passado porque a minha vida foi difícil, mas agora raramente me sinto deprimido.


UOL Notícias: Com que frequência o sr. recebe notícias do seu pai? O que sente quando o vê na televisão ou ouve a sua voz gravada numa fita?


Omar bin Laden: Quando meu pai está no noticiário, eu ouço da mesma maneira que as outras pessoas que acompanham as notícias. Eu não faço esforço para assisti-lo (na TV), mas há momentos em que a Jean (Sasson, co-autora do livro) me pede para ouvir e dizer a ela se é ou não o meu pai. E eu faço isso pela Jean.


UOL Notícias: Certa vez, o sr. disse que não queria que seu pai fosse pego e julgado por um tribunal, que o sr. preferia que ele morresse antes que alguém pusesse as mãos nele. Ainda pensa da mesma maneira?


Omar bin Laden: Seria melhor para o meu pai e para o mundo evitar a sua captura. Mas o destino dele está nas mãos de Deus e eu não tenho o direito de dizer nem uma coisa nem outra.


UOL Notícias: Acredita que seu pai esteja vivo? Se tivesse a chance de falar com ele mais uma vez, o que diria?


Omar bin Laden: Sim, eu acredito que meu pai esteja vivo. Eu não tenha nada em mente que eu falaria para ele.


Notícia publicada no Portal UOL, em 11 de setembro de 2010.



Claudia Cardamone* comenta


Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta se os pais transmitem aos filhos, além da semelhança física, alguma semelhança moral. Eles assim responderam:


"- Não, porque se trata de almas ou Espíritos diferentes, o corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito. Entre os descendentes das raças nada mais existe do que consanguinidade."


Esta reportagem vem demonstrar isto, que pais e filhos não possuem necessariamente a mesma evolução moral. Nos mostra também que para Omar nascer nesta família era uma prova de sua evolução, e ao ser escolhido como sucessor de seu pai, pois foi colocado verdadeiramente à prova e, aparentemente, resistiu à tentação de sua imperfeição.


A questão 260 do livro supra citado fala exatamente disso:
 
"Como o Espírito pode querer nascer entre gente de má vida?


- É necessário ser enviado ao meio em que possa sofrer a prova pedida. Pois bem: O semelhante atrai o semelhante, e para lutar contra o instinto do banditismo é preciso que ele se encontre entre gente dessa espécie".


Por este motivo, Osama convidou somente este filho, porque esta prova era para ser vivenciada apenas por ele. As provas dos demais filhos eram diferente.


É claro que o ambiente pode exercer uma certa influência sobre o indivíduo, mas se ele já tiver evoluído será menos influenciável, sempre de acordo com a sua evolução.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.