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Menino acredita que está morto

Menino acredita que está morto



É um caso raro e estranho que está a suscitar muita curiosidade. Um menino indiano, sobrevivente de um choque entre comboios ocorrido há duas semanas e que causou 71 vítimas mortais, acredita que está morto.


O menino, de apenas sete anos, saiu ileso do acidente, ao contrário dos seus pais que sofreram ferimentos. Duas semanas depois, o rapaz acredita que morreu no choque e "fala de si mesmo como se se tratasse da sua vida passada", conta o seu pai.


"Recusa-se a comer ou a dormir, porque diz que não é uma pessoa, é uma alma e as almas não precisam de comer ou dormir", acrescenta o pai, explicando que o estado do seu filho se deve ao facto de ter sido testemunha de "muita morte e muito sofrimento".


O reconhecido psiquiatra Shiladitya Roy descreve o caso como se tratando de uma "situação de stress pós-traumático". "É normal que depois de um choque tão forte, o menino sofra este trauma. O problema começará se este comportamento se mantiver com o passar do tempo", acrescenta o mesmo clínico.


Os pais, que já pediram uma indemnização à companhia ferroviária, esperam que o seu filho melhore com o início do ano escolar, após as férias de Verão e ao reencontrar os seus colegas. Caso o menino mantenha o seu comportamento, os progenitores ponderam levá-lo a um psicólogo.


Notícia publicada no Correio da Manhã, em 10 de agosto 2010.



Carlos Miguel Pereira* comenta


A notícia descreve-nos um fato estranho e pouco habitual, empurrando-nos para interessantes reflexões: Como poderá este menino indiano pensar que está morto se pode comprovar facilmente a existência do seu corpo? Serão as duas vivências tão semelhantes que potenciem este tipo de confusões?


Para percebermos um pouco melhor o fenômeno, invertamos a situação e analisemos algo que nos é mais familiar: Espíritos recém desencarnados que não se apercebem imediatamente da sua morte física. Diz-nos Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos: “No momento da morte, tudo, a princípio, é confuso. A alma necessita de algum tempo para se reconhecer. Ela se acha como que aturdida e no estado de um homem que despertando de um sono profundo procura orientar-se sobre sua situação. (…) Essa perturbação apresenta circunstâncias particulares, segundo o caráter dos indivíduos e, sobretudo, de acordo com o gênero de morte. Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, apoplexia, ferimentos, etc, o Espírito é surpreendido, espanta-se, e, não acredita que morreu, sustentando essa ideia com obstinação. Entretanto, vê o seu corpo, sabe que esse corpo é seu e não compreende porque está separado dele; acerca-se das pessoas a quem estima, fala-lhes e não compreende porque elas não o ouvem. (…) Este fenômeno se explica facilmente. Surpreendido de improviso pela morte, o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que nele se operou. Para ele, a morte é ainda sinônimo de destruição, aniquilamento; ora, como ele pensa, vê e escuta, não se considera morto.”


Através destas palavras, é então possível percebermos que o momento da morte não muda tudo. Também nós não nos transformamos completamente ao passarmos por essa experiência. Quem nós somos hoje, seríamos também amanhã se por uma qualquer circunstância a morte nos visitasse. Manteríamos o mesmo caráter, as mesmas dependências, os mesmos vícios, continuaríamos com os mesmos afetos, procuraríamos as pessoas que mais amamos e os lugares onde nos sentimos melhor. O que se modifica irremediavelmente com a morte é a união da nossa alma com o corpo físico, ligação que se vai desfazendo gradualmente até à separação definitiva. Mas isso não significa que deixemos de ter um corpo. Conservamos um corpo espiritual, ou perispírito, que nos acompanha constantemente, e que ao nível da aparência se assemelha em muito ao que éramos enquanto encarnados. É, pois, por tudo isto, havendo tantas semelhanças e tão tênues diferenças entre a realidade física e a extra-física, que um Espírito assustado e surpreendido por um acontecimento traumático que o leva à morte não consegue, por vezes, distinguir com propriedade a condição em que se encontra.


No caso narrado na notícia, o menino recusa-se a comer ou a dormir porque afirma que as almas não necessitam de sono ou alimentação. Segundo os médicos, ele está a atravessar uma fase de stress pós-traumático, bastante comum em situações semelhantes. Paradoxalmente, ele encontra-se numa situação bastante idêntica à dos Espíritos desencarnados que se julgam vivos. O acidente violento que sofreu, a ansiedade atroz, o terror que sentiu partilhando o mesmo espaço com a dor extrema e inúmeros cadáveres, provocaram um choque tremendo que abalou emocionalmente a criança, marcando-a de tal forma que ela se convenceu intimamente que também tinha morrido. A perturbação e o abalo emocional foram tão fortes que a levam ainda a sustentar tal ideia fixa com obstinação, ignorando as evidências, à primeira vista inequívocas, da sua realidade atual. Com o tempo, à medida que as incongruências entre a sua ideia fixa e a realidade lhe forem mostradas claramente e explicadas com paciência, possivelmente até com ajuda médica, ele irá ultrapassar as dúvidas e confusões, ficando pronto para enfrentar as oportunidades que ainda tem à sua disposição como Espírito encarnado.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.