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Sexo X Religião

Sexo X Religião



Os hormônios falam mais alto do que os preceitos religiosos entre os jovens, que se afastam das igrejas


Rodrigo Cardoso


A posição retrógrada das igrejas em relação ao sexo, cada vez mais distante da realidade dos jovens, é um dos fatores que afastam a juventude da religião. Uma pesquisa inédita com universitários entre 17 e 25 anos que investigou, entre outros assuntos, o que eles pensam sobre a orientação de suas igrejas no campo sexual mostrou quanto esta tese é verdadeira. Das 374 pessoas que responderam a essa questão, 65% discordaram das determinações religiosas. A enquete torna clara uma impressão que estava no ar: se tiver de escolher entre a religião e o livre exercício de sua sexualidade, o jovem abre mão da primeira. “Ele acredita em Deus como um ser superior que não deve se meter em sua vida”, diz o teólogo Jorge Claudio Ribeiro, professor do departamento de ciência da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Os dados serão compilados em um livro a ser lançado em breve. A publicação faz parte da série “Religiosidade Jovem” (Ed. Olho D’Água). A equipe do teólogo já havia estudado o tema em 2000 e 2004, aplicando questionários para 1.825 estudantes. Como nas três etapas a frase “concordo com as orientações de minha igreja em questões sexuais” sempre esteve entre as mais rejeitadas, Ribeiro resolveu, dessa vez, quantificar o tamanho do embate entre sexo e religião. A pedido de ISTOÉ, as respostas foram organizadas considerando os quatro maiores grupos religiosos dos jovens pesquisados. “Para o jovem, ter fé é mais importante do que ter religião”, explica Ribeiro. Ao não aceitar o livre arbítrio da juventude, a igreja deixa de evangelizar muitos fiéis.


Essa é a opinião da aeroviária paulista Fernanda Correa do Prado, 25 anos, criada em berço católico. “É um absurdo condenar o uso da camisinha. O sexo não é praticado apenas como forma de reprodução. E vivemos em um mundo cheio de doenças”, protesta. Fernanda recorda um episódio que a fez repensar a sua devoção ao catolicismo. “Uma colega do grupo de jovens foi repreendida pelo padre por estar grávida. Ele disse que ela não deveria ser representante da comunidade porque iria ser mãe solteira.” A aeroviária estranhou o fato. Não abandou o catolicismo, mas passou a ir menos à igreja. O psicólogo e sociólogo Antonio Carlos Egypto acha saudável essa grita da garotada. Para ele, os religiosos deveriam ser menos normativos em questões comportamentais. “O correto seria discutir mais os temas, para dar espaço à reflexão e à escolha e não apresentá-los como diretrizes fechadas”, diz Egypto, que presta assessoria a colégios na área de orientação sexual. Ateu, o músico Danilo Espada Barba, 23 anos, não enxerga o sexo como um entrave na relação entre a juventude e a religião. Para ele, o jovem não deixa de ir à igreja, mas também não fica sem transar. “Ele mantém a religião que escolheu apenas para cultivar as aparências”, explica. Barba é contra a proibição de quaisquer necessidades inerentes ao ser humano, especialmente as que se referem à sua sexualidade. “A negação do sexo compromete não só um grupo que segue uma doutrina, mas a perpetuação da espécie.” Para o padre e doutor em teologia Márcio Fabri dos Anjos, professor de bioética do Centro Universitário São Camilo, um sem-número de jovens se sente mais seguro sob uma moral rígida imposta por católicos e evangélicos.


O webdesigner Leandro Carreira e sua esposa, a jornalista Luciana Carniti, iniciaram um relacionamento amoroso em 2002. Dois anos mais tarde, depois de passarem a estudar a “Bíblia” com um grupo de pentecostais, decidiram abdicar do sexo e iniciar um namoro conforme os preceitos da igreja. Nessa nova fase, deixaram também de viajar e dormir juntos e procuravam evitar intimidades como abraços calorosos, para não caírem em tentação. “É pecado provocar em alguém o desejo que você não pode cumprir”, explica Luciana. “Nosso corpo é um templo de Deus.” O sexo só retornou à rotina do casal após a troca de alianças, em 2006. Hoje, aos 27 anos e pais de Ana Carolina, de 1, eles dedicam boa parte do tempo à Comunhão Cristã em Adoração, igreja que fundaram há três anos. Protestantes, como o casal Luciana e Leandro, são os que mais concordam com a oratória da sua igreja sobre temas sexuais, de acordo com “Religiosidade Jovem”. No geral, porém, a obediência é uma exceção. Entre os pesquisados, religião ficou em último lugar entre as questões mais importantes para a vida deles, atrás de família, amigos, universidade, trabalho e política. Não é de estranhar, portanto, que seja rejeitada como conselheira sexual. Mas, então, quem tem autoridade para falar sobre sexo com os jovens? “Hoje, mídia e ciência são mais respeitadas”, afirma o sociólogo Egypto. “À escola cabe produzir capacidade de reflexão para que se faça uma boa escolha.” Para ele, os pais deixam de fazer uma avaliação objetiva em uma discussão sobre sexualidade com os filhos por causa do envolvimento afetivo. “Mas eles têm de estar por perto, principalmente para vigiar a informação fragmentada que chega”, pondera.


Espíritas, os pais do estudante mineiro Felipe Torres de Oliveira, 21 anos, discutem sobre sexo com ele e os irmãos. Há nove meses namorando a estudante Fernanda Pena de Sousa, 18, que conheceu durante reuniões de estudos espíritas para jovens, Oliveira afirma que “o sexo está a serviço da humanidade, é uma possibilidade divina”. E aponta o divórcio entre a religião e a razão  como o responsável pela distância entre os jovens e os templos. “Como teólogo, é bem mais fácil desejar que as comunidades religiosas evitem os caminhos da moralidade repressiva, para contribuir positivamente com os jovens no encontro de razões e espiritualidade em favor de uma vida sexual construtiva e digna”, afirma o padre dos Anjos, da São Camilo. Do papa ao pároco, passando pelo médium e o pastor, a evangelização da juventude interessa a qualquer doutrina. Para tanto, conhecê-la é condição fundamental. “Esse tipo de fiel quer ver o mundo pelos próprios olhos. E, em relação ao sexo, não admite intromissão”, afirma Ribeiro, da PUC. “Deus nos fala pelo jovem. É uma realidade teológica, que precisamos aprender a ler e a desvelar.”


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 27 de março de 2010.



Claudia Cardamone* comenta


Por ser uma doutrina de responsabilidade e não de proibição, a Doutrina Espírita tem diminuído o conflito entre a religiosidade e o sexo. O espírita sabe que a sexualidade é um instrumento útil à reencarnação, pois é através dela que se possibilita o reencarne de outro espírito neste mundo a fim de progredir.


Na verdade, o problema não está na sexualidade, mas no uso que fazemos dela. O princípio desta paixão é uma necessidade natural, não é um mal e nem poderia ser, já que é uma condição para a nossa existência. Porém, os Espíritos, em O Livro dos Espíritos, nos explicam quando e como a sexualidade enquanto paixão pode ser ruim:


"As paixões são como um cavalo que é útil quando governado e perigoso quando governa. Reconhecei, pois, que uma paixão se torna perniciosa no momento em que a deixais de governar e quando resulta num prejuízo qualquer para vós ou para outro".


Podemos condenar as antigas regras sobre este assunto? Não, porque devemos compreender que na época em que foram feitas o homem era muito mais governado pela sua sexualidade do que hoje, e a questão 796, do livro acima citado, explica bem isto:


"A severidade das leis penais não é uma necessidade, no estado atual da sociedade?


- Uma sociedade depravada tem certamente necessidade de leis mais severas. Infelizmente, essas leis se destinam antes a punir o mal praticado do que a cortar a raiz do mal. Somente a educação pode reformar os homens, que assim não terão mais necessidade de leis tão rigorosas".


A sexualidade que antes era um tabu, hoje é assunto normal e corriqueiro. Os jovens, principalmente depois de surgir a Internet, têm se instruído mais sobre o assunto e tido mais possibilidade de se posicionar de forma mais consciente e acaba se afastando das orientações extremas, porque elas sempre demonstram abuso, seja de uma forma ou de outra.


A sexualidade é uma grande fonte de prazer e aprender a controlar e utilizar este instrumento da melhor forma possível fará do ser humano um ser melhor, mais espírito que homem.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.