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Pesquisador argentino testa consciência de pacientes em coma

Pesquisador argentino testa consciência de pacientes em coma



Tristán Bekinschtein desenvolveu com cientistas franceses um método para definir se é hora de desligar os aparelhos ou se ainda há esperança


Andres Vera


Ele abre os olhos e move os braços, mas não reage às perguntas do médico nem às súplicas de sua família. É um paciente em coma. Antes que a decisão de desligar os aparelhos seja tomada, é preciso resolver um dos grandes enigmas da neurologia: e se ele estiver consciente? O biólogo argentino Tristán Bekinschtein, de 33 anos, e um grupo de pesquisadores franceses criaram um teste simples para responder à pergunta. Publicado no começo de fevereiro na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, o estudo conclui que uma combinação específica de sons ativa uma área do cérebro relacionada à cognição. A descoberta é crucial para o tratamento de pessoas em estado de coma. Bekinschtein explicou o motivo nesta entrevista a ÉPOCA.



ENTREVISTA – TRISTÁN BEKINSCHTEIN


QUEM É
Nascido na Argentina, tem 33 anos, é biólogo, ph.D. em neurociência e pesquisador da Universidade de Cambridge, na Inglaterra


O QUE FEZ
Desenvolveu com um grupo de pesquisadores franceses um método para detectar consciência em pacientes em coma


O QUE PUBLICOU
Neural signature of the conscious processing of auditory regularities (“Comprovação neurológica do processamento consciente de regularidades auditivas”), PNAS, 2009


ÉPOCA – Como é possível detectar a consciência de um paciente em coma?
Tristán Bekinschtein –
Criamos um teste que não necessita de resposta voluntária. Os pacientes ouvem um padrão sonoro com alguns desvios e um eletroencefalograma detecta a resposta do cérebro. Testamos isso em três grupos de pacientes normais. Então comparamos os resultados com pacientes em estado de coma e em pacientes em estado vegetativo com um mínimo de consciência. Os resultados foram parecidos. Nenhum paciente em estado de coma detectou os sons, e três dos quatro pacientes em estado de mínima consciência responderam como os pacientes normais distraídos. Eles saíram do estado vegetativo pouco tempo depois. Estavam conscientes, só não podiam responder.


ÉPOCA – Por que outros cientistas não conseguiram chegar ao mesmo resultado na última década?
Bekinschtein –
Os médicos pensavam que a melhor maneira para identificar a consciência era por meio de palavras. Davam-se ordens: faça isso, imagine isso, tente se mexer. Essa ideia de verbalizar o tratamento é muito complexa. Um paciente pode não entender o pedido porque teve uma lesão no cérebro que o impede de decodificar a linguagem. Além disso, todos esses testes eram feitos com ressonância magnética funcional, que exige equipamentos muito caros. O teste sonoro faz um uso inédito da encefalografia, mais fácil e mais barata.


ÉPOCA – Quais são as diferenças entre seu estudo e a escala de Glasgow, que também mede a intensidade do coma?
Bekinschtein –
A escala de Glasgow é simples, grosseira e pouco informativa. Ela é aplicada no paciente durante um minuto e meio para medir o grau do coma numa escala de 3 a 15. Há muita subjetividade nisso. Ela não pergunta concretamente se o paciente está consciente, mas se ele é capaz de responder. Isso serve para quando o paciente dá entrada numa UTI e está inconsciente, mas não detecta a consciência em si. Nos últimos três ou quatro anos, a escala de Glasgow está sendo repensada e substituída por escalas melhores de comportamento, como a de recuperação de coma. Nosso teste é mais objetivo e pode ser usado depois da aplicação desses métodos.


ÉPOCA – Um médico poderia manter ligados os aparelhos de um paciente se soubesse que ele tem consciência?
Bekinschtein –
Sim, o médico certamente daria ao paciente um tempo maior de recuperação. Quando um paciente não responde nas duas ou três semanas que sucedem a um acidente automobilístico ou a uma parada cardíaca, os médicos concluem que ele tem prognóstico negativo. É nesse momento que se costuma perguntar à família se os aparelhos que mantêm o paciente vivo devem continuar ligados. Se obtivéssemos um resultado positivo no teste de consciência, significaria que esse paciente ainda pode se recuperar e voltar ao estado consciente. Isso pode marcar a diferença entre a vida e a morte.


Matéria publicada na Revista Época, em 13 de março de 2009.



José Antonio M. Pereira* comenta


Interessante ver como tudo aquilo que pensamos e temos como certo pode ser questionado, substituído por novas verdades, e, de repente, estamos a frente de uma revolução. Interessante notar também que, muitas vezes, os homens que provocam mudanças de tal ordem não obram isoladamente no mundo, mesmo pensando que apenas ele ou sua equipe trabalha com aquela ideia. Neste caso, basta ver a pesquisa(1) das universidades de Cambridge (Inglaterra) e Liège (Bélgica), similares a do argentino Tristán Bekinschtein. Segundo nos dizem os espíritos, isto pode ocorrer porque estes verdadeiros missionários preparam-se no mundo espiritual para trazer novas ideias ao mundo e, então, nascem em lugares diferentes, aparentemente sem conexão. Assim, estas novas ideias encontram menos resistência e alavancam o avanço tecnológico do planeta.


Acredito que seja o caso, porque as duas pesquisas chegam à mesma conclusão: os métodos usados atualmente nem sempre identificam se um paciente em coma tem algum nível de consciência. E o mais importante é que estes trabalhos podem ter também a mesma consequência: o fim da eutanásia – atitude prejudicial ao aprendizado do espírito encarnado segundo a Doutrina Espírita(2). Isto porque estes novos métodos identificam que, apesar de ser incapaz de responder a determinados estímulos, um paciente pode ter alguma consciência, o que indica que ainda existe chance de recuperação, e permite até que ele mesmo manifeste sua vontade.


Deus abençoe estes homens de ciência!



Referências:


1) Cientistas conseguem detectar sinais de consciência em cérebro de paciente em coma:
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2010/02/04/cientistas-conseguem-detectar-sinais-de-consciencia-em-cerebro-de-paciente-em-coma-915781530.asp;


2) O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed. FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA, 112ª edição – Allan Kardec, Cap V, item 28 - Será lícito abreviar a vida de um doente que sofra sem esperança de cura?


* José Antonio M. Pereira coordena o ESDE e é médium da Casa de Emmanuel, além de integrante da Caravana Fraterna Irmã Scheilla, no Rio de Janeiro. Também é colaborador da equipe do Serviço de Perguntas e Respostas do Espiritismo.net.