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Terapia genética traz esperança na cura da aids

Terapia genética traz esperança na cura da aids



Pesquisadores conseguiram livrar um homem do vírus HIV por meio de um transplante de medula óssea. Para os médicos, o caso foi o mais próximo da cura registrado até hoje


REDAÇÃO ÉPOCA


Depois de conviver por uma década com o vírus HIV, um americano de 42 anos desenvolveu leucemia. Para tratar do câncer, deixou de tomar os medicamentos antiretrovirais e se submeteu a um transplante de medula óssea. Depois do procedimento, realizado há dois anos, o vírus deixou de ser detectado e o paciente não voltou a fazer o tratamento contra a aids. As informações detalhadas sobre o paciente foram publicadas no New England Journal of Medicine nesta quinta-feira (12).


Para os médicos envolvidos no tratamento, o caso aumenta a importância da pesquisa de terapias genéticas na cura da aids. "O caso abre caminho para abordagens inovadoras para o controle de longo prazo e com menos efeitos colaterais do HIV", destaca o artigo, noticiado pelo jornal britânico The Independent.


O tratamento, liderado pelo hematologista Gero Hutter, do Charité Hospital em Berlim, envolveu a seleção de doadores de medula óssea compatíveis com o paciente e que tivessem uma mutação no gene CCR5. De acordo com pesquisas anteriores, essa alteração genética está relacionada a uma imunidade ao HIV e está presente em 1 a 3% da população nos países ocidentais.


Depois de se submeter ao transplante, o americano fez vários testes e nenhum sinal do vírus foi encontrado na medula, no sangue ou em tecidos. Ainda é cedo para dizer que o paciente foi curado: sabe-se que o vírus pode se "esconder" em partes do corpo como o cérebro, o intestino e o sistema linfático. Mesmo com ressalvas, o caso está sendo recebido como uma vitória pela comunidade científica porque, até hoje, pacientes submetidos a tratamentos semelhantes haviam conseguido ficar livres do HIV apenas por algumas semanas. Para Hutter, um transplante de medula é muito arriscado para ser adotado como um tratamento para a aids, mas o procedimento abre um novo campo de pesquisa na luta contra a doença.


Matéria publicada na Revista Época, em 12 de fevereiro de 2009.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Desde que a ciência saiu das malhas de influência da religião, esta sempre a encarou de uma forma desconfiada, temerosa que apartada de uma moral definida e estruturada, ávida por novas conquistas e descobertas, pudesse buscar o progresso ignorando princípios éticos que atentassem contra Deus, o Homem e o Espírito. Dentro de determinados limites éticos que protejam a dignidade da vida humana em todas as suas expressões, devemos seguir e apoiar as pesquisas que visem o progresso tecnológico e científico, que proporcionarão uma melhoria das condições de vida no nosso Planeta. A tecnologia e as descobertas dos diversos ramos da ciência vêm ampliando as nossas possibilidades, escolhas e potencialidades como Homens e Espíritos. Cada inovação, invenção ou descoberta oferece-nos uma nova forma de nos expressarmos, de obtermos a excelência, de colocarmos em ação os talentos que nos são inerentes e novas oportunidades de crescimento e transcendência. A nossa responsabilidade como seres humanos numa era tecnológica passa por privilegiar as tecnologias que ampliam o nosso poder de escolha e de crescimento, em detrimento daquelas que o limitam e atrofiam.


É com grande alegria que tomamos conhecimento da notícia do enorme passo dado para a cura de uma das doenças mais estigmatizantes e devastadoras de sempre. A Organização das Nações Unidas estima que existam cerca de 33 milhões de pessoas no mundo com AIDS, com um crescimento anual na ordem dos 2,5 milhões, provocando mais de 2 milhões de mortes por ano. O vírus da AIDS resulta de uma infecção que provoca danos no sistema imunitário, podendo ser transmitido através de líquidos corporais como o sangue, esperma, secreções vaginais e leite materno. As formas mais comuns de contágio são através de relações sexuais com um parceiro infectado com o vírus e da partilha de seringas infectadas entre toxicodependentes. Nos dias que correm, e apesar de toda a informação divulgada a nível global sobre este flagelo, ainda existem muitas dúvidas sobre as formas de transmissão da doença. Existe ainda o mito que a AIDS é uma doença restrita aos usuários de drogas, prostitutas e homossexuais, mas nada está mais longe da verdade. A AIDS é uma doença transversal a todas as faixas etárias e estratos sociais, potenciada pelos comportamentos de risco: toxicodependência e relações sexuais com vários parceiros ao longo dos anos. O uso de material descartável, a utilização de preservativo e a fidelidade conjugal apresentam-se como medidas preventivas para a não proliferação dessa doença.


Mesmo sabendo que o caso relatado na notícia ocorreu numa situação muito específica e durante o tratamento de outra doença grave, que foi a Leucemia, devemos perceber que estes novos dados poderão inaugurar uma nova era para a descoberta de uma cura real da AIDS ou mesmo para a criação de uma vacina. Contam-se por isso aos milhões o número de pessoas martirizadas por essa doença e que dependem dos avanços científicos para alimentarem a esperança e minimizarem as suas dores físicas e morais. Uma das mais controversas discussões dos últimos tempos ocorreu à volta da pesquisa com células-tronco embrionárias. Pelo potencial de diferenciação evidenciado e capacidade de se auto-renovarem, as células-tronco são distintas das restantes células do nosso organismo. São células com características particulares que se podem transformar em vários tipos de células diferentes, através de um processo chamado de diferenciação. As células-tronco embrionárias, diferentemente às células-tronco adultas extraídas do cordão umbilical, placenta, sangue e medula, têm a capacidade para produzirem, por diferenciação dirigida pelos investigadores, todos ou quase todos os tipos celulares existentes num organismo adulto, alimentando o entusiasmo e possibilidade dos cientistas na descoberta de cura para vários tipos de doenças. Mas será que as pesquisas que utilizam embriões não aproveitados nos processos de fertilização assistida, e que ficam congelados durante três anos, ultrapassam os limites éticos e atentam contra a dignidade e o respeito que uma forma de vida nos merece? No que se relaciona com o Espiritismo, será que existem Espíritos ligados a embriões congelados? Na questão 136 a, de “O Livro dos Espíritos”, é dito que “A vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado da vida orgânica.” Já a questão 366, de “O Livro dos Espíritos”, evidencia que há embriões a cujos corpos nunca nenhum Espírito esteve destinado já que nada tinha que se efetuar para eles. Pensamos que é o que ocorre com os embriões criopreservados, já que fora do corpo da mãe por um período de alguns dias, as células do embrião sofrem modificações que o impelirão numa direção diferente daquela que o levaria a formar um feto e depois um recém-nascido, eliminando a possibilidade de gerar um ser humano, apesar de as suas células permanecerem vivas. Perguntou Allan Kardec aos Espíritos, na pergunta 136 b, de “O Livro dos Espíritos”: “Que seria o nosso corpo, se não tivesse alma? R: Simples massa de carne sem inteligência, tudo o que quiserdes, exceto um homem.” Não havendo possibilidade de gerar uma vida a partir daquele embrião, qual a utilidade de um Espírito estar a ele ligado?


A pesquisa com células-tronco embrionárias é um tônico de esperança para o alívio da dor que aflige milhões de pessoas em todo mundo. É um sopro de alento para todos os que se encontram martirizados pela AIDS, pelo cancro, por diversas paralisias e doenças degenerativas, mas também para todos aqueles que passarão por essas adversidades no futuro. Não havendo alternativa de uso para os embriões não aproveitados nas fertilizações assistidas, a sua utilização em investigações científicas de objetivo humanista e que potenciem a melhoria das condições atuais de vida deverá ser incentivada, não dispensando o respeito ético para com o valor da vida potencial que ali se apresenta.


“Lançar anátema ao progresso, por atentatório a religião, é lançá-lo à própria obra de Deus.” – Allan Kardec, em “A Gênese”.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.