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Transformando a dor em solidariedade

Transformando a dor em solidariedade



Você vai conhecer a história comovente de uma mãe da Ilha do Governador. A advogada Fátima Vasconcelos mudou a vida para atenuar o sofrimento de outras mães, depois que ela própria viveu uma tragédia.


Depois de uma grande dor, depois de uma perda terrível, a mãe de um rapaz da Ilha do Governador encontrou forças para criar uma obra que vem beneficiando centenas de pessoas e que, ao mesmo tempo, vem dando coragem a outras mães que passaram, e passam, pelo mesmo sofrimento que ela. No Bate-Papo deste sábado, Edney Silvestre entrevista a advogada Fátima Vasconcelos.


Edney Silvestre – Sem ajuda oficial, sem dinheiro do governo, a senhora vem mantendo uma obra na Ilha do Governador que beneficia milhares de pessoas. Que obra é essa?


Fátima Vasconcelos - É o Grupo da Solidariedade.


Trata-se de quê? O que vocês fazem?


O Grupo da Solidariedade fica na Ilha do Governador, como você disse. Nós temos um brechó, temos uma fábrica de fraldas e temos três consultórios médicos, onde nós atendemos à comunidade.


Essa instituição existe há cinco anos e alguns meses. E, há seis anos, a senhora passou por uma grande dor, quando perdeu o Bruno.


O Brunão. No dia 18 de setembro de 2002, repentinamente, a gente perdeu o nosso filho. Foi uma coisa muito séria. Nós perdemos nosso chão, eu, meu marido e minhas filhas. Não tinha mais sentido viver sem o nosso Brunão.


Não foi um acidente?


Não foi um acidente. Foi uma dor no braço, uma dor no peito. Repentinamente, de um dia para o outro, ele faleceu. Ele teve nove paradas cardíacas, e foi embora na nona parada.


Mas ele era um rapaz doente?


Nada, nada. Era um rapaz forte e saudável, que nunca teve uma gripe, ou doença. Era um filho maravilhoso.


Sem entrar em detalhes da sua dor, sem ser intrometido com a sua dor, a sua experiência pode ajudar outras mães.


Tem ajudado outras pessoas que também perderam filhos, ou um ente querido. Elas chegam ao nosso trabalho, precisando de ajuda, e nós recebemos de portas abertas. Muitas mães estão lá pela dor, mas muitas também estão pelo amor. E é um trabalho magnífico, gratificante, que não visa o dinheiro. Todas nós estamos trabalhando, realmente, pelo amor. A pedra fundamental é o amor. E eu comecei esse trabalho após a perda do Bruno. Como eu falei, no dia 18 de setembro de 2002, ele partiu repentinamente. Nós temos uma casa em São Pedro da Aldeia, a qual ele amava. E nós não tivemos mais condições de voltar a essa casa. Voltamos um dia para nos desfazer dos animais e dos bichos que o Bruno tinha lá, como cavalos e cachorros. E, conversando com uma amiga, falei que precisava fazer algo. Não seria nada relacionado a trabalho, porque eu já trabalhava. Na época, eu dirigia uma escola já há 20 anos. Eu sentia falta de alguma coisa em relação à caridade. E essa minha amiga me disse: “Tem um orfanato em São Pedro da Aldeia. Você quer visitá-lo?” Eu respondi que queria, e fui visitar o orfanato, chamado Aldeia da Criança Feliz. As crianças não tinham colchão, nem ventiladores. Eu abracei aquela causa. Já saí dali ligando para os amigos, pedindo ajuda. Consegui colocar os ventiladores, os colchões, e já saí dali com outra cabeça. Voltei para o Rio de Janeiro, conversei com outras amigas que também tinham perdido os filhos, e falei que ia me envolver com a caridade. Então, nós fazemos sempre campanha. Temos amigos no Ceasa-RJ (Central de abastecimento do Rio de Janeiro), onde nós pedimos e conseguimos legumes, verduras e frutas, que levamos também para asilos e orfanatos. Tudo o que as pessoas dos asilos e orfanatos precisam, eles ligam para a gente. Imediatamente, todas nós corremos, pedimos e alcançamos o nosso objetivo, que é ajudar o próximo. Hoje, eu falo com tranquilidade sobre o Bruno e estou feliz, porque estou ajudando a outras pessoas. Esse foi o caminho, a caridade, que, hoje, eu acho que é uma missão. E eu tento fazer da melhor forma possível.


Notícia publicada no site do RJTV, em 2 de maio de 2009.



Sonia Maria Ferreira da Rocha* comenta


Essa noticia nos mostra que nem tudo está perdido nessa nossa bendita morada.


Atitude como essa deve servir de exemplo para momentos de grande sofrimento, como o da entrevistada.


Não existe dor maior, para uma mulher, do que a perda um filho. E ela, sem desespero, cultivando as verdadeiras flores que precisamos para alegrar o nosso jardim interior, soube buscar o caminho que consola e nos faz crescer na jornada.


O desespero corrói as nossas energias e nos impede de vislumbrar os ensinamentos trazidos para a nossa evolução.


Levemos em conta que sempre que procuramos ajudar o nosso semelhante recebemos, automaticamente, os benefícios que necessitamos para superar as dificuldades da jornada terrena. E quando trocamos a dor pela ajuda, o isolamento pela luta por um mundo melhor para os nossos irmãos carentes das necessidades material, moral e emocional, o retorno é imediato.


É a auto-transformação do sofrimento em bálsamo, que consola, fortalece, que também ilumina a jornada do ente amado que retornou à patria espiritual.


Nós, espiritas, temos como recurso, nas horas das lágrimas, O Evangelho Segundo o Espiritismo como fonte de consolo. Onde encontramos, no Cap.V, “Bem-aventurados os aflitos”, as causas das nossas aflições, e, também, nas instruções dos espíritos, “O bem e o mal sofrer”, dentre outras causas do nosso padecer.


Temos, também, a certeza de que o desencarne é apenas um período de afastamento dos nossos amados que nos antecederam ao retorno para a pátria espiritual e que poderão ser os que nos recepcionarão na nossa chegada.


O sofrer com Jesus é ameno, é transformar o sentimento de dor em aprendizado com amor.


A publicação de atitudes como a da advogada Fátima Vasconcelos serve de alento e força para um grande número de mães que estão passando por esse sofrimento e que não conseguem reencontrar o caminho da sua jornada física.


Vejamos o ensinamento de Emmanuel:


“Tuas lágrimas são gotas de fel em sua taça de esperança. Tuas aflições são espinhos a se lhe implantarem no coração. Tua mágoa destrutiva é como neve de angústia a congelar-lhe os sonhos. Tua tristeza inerte é sombra a escurecer-lhe a nova senda. Por mais que a separação te lacere a alma sensível, levanta-te e segue para a frente, honrando-lhe a confiança, como a fiel execução das tarefas que o mundo te reservou. Não vale a deserção do sofrimento, porque a fuga é sempre a dilatação do labirinto em que nos arroja a invigilância, compelindo-nos a despender longo tempo na recuperação do rumo certo.”


Assim, transformar o sofrimento em luzes em prol dos nossos irmãos necessitados é o ensinamento que tiramos para um futuro de PAZ.


* Sonia Maria Ferreira da Rocha reside em Angra dos Reis, RJ, estuda o Espiritismo há mais de 30 anos e é colaboradora regular do Espiritismo.net.