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Transformação da medicina em negócio ameaça integridade da profissão

Transformação da medicina em negócio ameaça integridade da profissão



Em artigo opinativo, profissional americano debate mudanças na área. Médicos estão se tornando mais administradores e menos cuidadores.


Sandeep Jauhar
Do ‘New York Times’


Para cobrir as despesas da minha família crescente, recentemente comecei outro trabalho, numa clínica médica particular, no Queens, em NY. Nas manhãs de sábado, passo por lojas de comida chinesa e estabelecimentos que oferecem divórcios a baixo custo. Prossigo para um edifício comercial, localizado num bairro de classe média. Muitas vezes, reflito sobre o quanto esse trabalho é diferente do meu emprego regular, num centro médico acadêmico, em Long Island. Isso me leva, cada vez mais, a pensar sobre a quantidade de dinheiro que minha prática está gerando.


Um paciente chega, com dores no peito. É difícil não solicitar um teste de estresse cardíaco quando a câmera nuclear está no recinto ao lado. Palpitações? Um monitor Holter – e um ecocardiograma. Não é fácil ignorar o reembolso quando prescrevemos exames, especialmente numa prática cuja metade da receita vai para despesas gerais.


Poucas pessoas acreditaram em recentes alegações feitas por líderes da indústria hospitalar, de seguros, medicamentos e aparelhos médicos, para eliminar bilhões de dólares em gastos desnecessários. Já ouvimos essa antes. Sem mudanças fundamentais no financiamento à saúde, essa promessa, como as que a precederam, será impossível de ser cumprida. O que algumas pessoas chamam de desperdício, outras chamam de renda.


É questionável que médicos e outros profissionais de saúde voluntariamente possam reduzir sua renda (mesmo se parte dessa renda seja gerada por gastos exagerados). A maioria dos médicos que conheço afirma não receberem o suficiente. A prática deles é como um carro numa montanha, com o freio de mão acionado. Observando de fora, não percebemos quanta força é necessária para manter o carro parado.



Investimentos


Recentemente, conversei com um amigo que deixou a faculdade de medicina, há vinte anos, para se dedicar a investimentos. Sempre que nos encontramos, ele acha uma forma de me parabenizar pelo que considera minha vocação profissional. Ele frequentemente se pergunta se deveria ter insistido na medicina. Como muitos expatriados, meu amigo é um constante idealista do mundo que abandonou.


No nosso último encontro, ele falou sobre o tumulto em Wall Street. Como muitos banqueiros, ele estava preocupado com o futuro. "É uma boa época para ser médico", disse ele, conforme me lembro. "Eu adoraria ter um trabalho que não me obrigasse a pensar constantemente em dinheiro."


Nem me preocupei em desiludi-lo, mas a verdade é que a maioria dos médicos, hoje, seja na academia ou na prática particular, constantemente têm de pensar em dinheiro. No último mês de janeiro, os médicos Pamela Hartzband e Jerome Groopman, do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, escreveram na publicação "The New England Journal of Medicine" que "etiquetas de preço estão sendo aplicadas a todos os momentos do dia de um médico, criando uma consciência afiada sobre custos e reembolsos". Eles ainda acrescentaram: "Os estudantes de medicina de hoje estão sendo induzidos a uma cultura na qual sua profissão é vista cada vez mais em termos financeiros".


O crescente comercialismo, causado em parte pelo aumento das despesas e diminuição do reembolso, tem consequências óbvias para o público: custos galopantes e desgaste da relação médico-paciente. O que não está tão evidente são os efeitos prejudiciais para os próprios médicos. Somos treinados para pensar como pessoas que oferecem cuidado, não como homens de negócio. A constante intrusão do mercado de trabalho está gerando uma séria e profunda ansiedade na profissão.



Ingênuo


Não faz muito tempo, um colega cardiologista, entrevistado para algumas vagas de emprego, veio ao meu consultório claramente decepcionado. "Eu fui ingênuo", ele disse. "Nunca pensei na medicina como um negócio. Achei que estávamos aqui para cuidar dos pacientes. Mas acho que a medicina é, sim, um negócio."


Perguntei o que ele achava de passar a atender pacientes particulares. "Estarei ocupado demais nos primeiros seis meses, vomitando – não terei muito tempo para pensar nisso", respondeu.


É claro, sempre houve uma motivação de lucro na medicina. Médicos que possuem seus próprios equipamentos de exame solicitam mais daquele tipo de análise. Para tomar um exemplo do meu trabalho adicional, um médico dono de um scanner tem sete vezes mais probabilidade de indicar um exame a um paciente, em relação aos outros médicos. Em regiões onde há mais médicos, existe um uso maior per capita dos serviços e exames dos médicos. A oferta muitas vezes dita a demanda.


No entanto, considerações financeiras nunca foram tão notáveis quanto hoje, provavelmente porque muitos hospitais e médicos, especialmente em grandes áreas metropolitanas, estão passando por apuros financeiros. Cada vez mais esses profissionais da saúde estão tentando vender sua prática, ou negociando com hospitais empregos, equipamentos ou ajuda financeira.


Em hospitais, a assistência sem reembolso está aumentando, à medida que pacientes - alvos da crise econômica - perdem seus seguros de saúde. Admissões e procedimentos eletivos – grandes produtores de receita – estão diminuindo. Os hospitais estão cortando custos administrativos, equipe e serviços. "Cada vez mais, você verá pessoas da área médica fazendo MBA", disse-me um médico durante um seminário, numa previsão confirmada pela minha experiência. "Estamos numa crise total, e eu não sei a resposta".



Lado bom


Devo admitir que parte de mim quer ver os médicos dominando o lado comercial da nossa profissão. Quando ouço sobre executivos de empresas de saúde que recebem milhões de dólares em bônus, sinto nojo por esse lucro desavergonhado. Como membro leal da minha associação, quero ver médicos exercendo maior controle sobre nossa casa financeira.


Ainda assim, as consequências dessa tomada de consciência comerciais são problemáticas. Entre meus colegas, sinto um vazio emocional criado pela consideração implacável do dinheiro. A maioria dos médicos entrou para a medicina por estímulos intelectuais, ou pelo desejo de desenvolver relações com pacientes, não para maximizar suas receitas. Existe um sentimento palpável de angústia. Trabalhamos duro por tanto tempo, fizemos tantos sacrifícios, para quê? No fim, para muitos colegas, o trabalho se tornou somente isso – um trabalho.


Até começar a prática particular, nunca tive interesse no lado comercial da medicina. Às vezes, sinto falta de ser um residente ou acadêmico novamente, discutindo as complexidades de um caso, em vez de me preocupar com os resultados financeiros. "Você precisa aprender um pouco da visão da prática particular", aconselhou-me recentemente um colega médico. "Você não consegue sobreviver com a cabeça nas nuvens."


No entanto, algo fundamental se perde quando médicos começam a pensar na medicina como um negócio. Em seu ensaio, Hartzband e Groopman falam sobre a erosão do coleguismo, cooperação e espírito de equipe quando o ambiente do mercado de trabalho toma conta do hospital. "A balança se inclinou em direção a trocas de mercado, ao custo da dimensão comunitária e social da medicina."


O desenrolar dessa batalha determinará, em grande parte, como a medicina será realizada em vinte anos. Trata-se muito mais do que dólares e centavos. É uma batalha pela alma da medicina.


Matéria publicada no Portal G1, em 10 de julho de 2009.



Jorge Hessen* comenta


No século passado (XX), a medicina dos horizontes ocidentais se transformou em gigantesco negócio. Por isso, consigno algumas observações pontuais sobre a preocupante mudança do status do médico à medida que a relação entre pacientes e profissionais da saúde deixou de ser pessoal e passou a ser comercial. Em épocas recuadas, na maioria dos casos, o médico era muito mais do que um amigo (era quase membro da família) que conhecia bem o paciente com quem dialogava e dedicava atenção. O juramento de Hipócrates era sacralizado para esses profissionais que prezavam posturas éticas. Porém, lamentavelmente, os tempos mudaram. Atualmente, os médicos, em sua maioria, são mal remunerados, obrigando-os a assumir vários empregos (fazer bicos?...). Justificam que essa foi a principal razão de a relação mais próxima com seus pacientes ter mudado significativamente.


Como se não bastasse, frequentemente, as empresas estão anunciando consórcios ou parcelamentos dos honorários médicos relativos a tratamentos complexos como cirurgias, basicamente, as estéticas. Perplexo, observo a propaganda abusiva anunciada nos panfletos, outdoors, jornais e mídia eletrônica, de empresas ofertando inúmeros planos de financiamento para cirurgias plásticas. São anúncios do tipo: Promoção: “Redução de abdomem, em 24 vezes de R$ 200,00”.(1) Existem clínicas e profissionais que compram, a peso de ouro, horários em canais de televisão para, simulando reportagens, fazerem merchandising(2) dos tratamentos que prometem verdadeiros "milagres" para os pacientes. Vejo, nesse contexto, que, de fato, a ética foi abandonada e emergiu um panorama típico de deplorável mercantilização da ciência médica.(3)


Por que, hoje, os médicos em geral, seja na academia ou na prática particular, pensam mais nos cifrões do que na saúde do paciente? Os alunos de medicina estão sendo coagidos a uma cultura, cuja técnica-profissional é vista, cada vez mais, como habilidade, unicamente, para fins financeiros. Creio que, se os governos garantissem aos médicos uma remuneração do Estado, a prática dessa ciência seria menos execrável quanto a se verem como homens de negócio.


É óbvio que há exceções, pois há aqueles que ingressam na medicina por estímulos intelectuais, por natural vocação, pelo desejo de desenvolver relações com pacientes, e não para avolumar suas receitas, apenas. Todavia, cresce, cada vez mais, o número de profissionais tentando vender sua prática ou negociando com os hospitais empregos, equipamentos ou auxílio financeiro. Sei que inúmeros profissionais da saúde possuem seus próprios equipamentos de exame, e solicitam, desnecessariamente, que mais exames passem por esses aparelhos de finalidades específicas.


O tema é complexo, não resta a menor dúvida, e exige profundas discussões bem fundamentadas e consistentes. Não cabem fórmulas simplistas nem abordagens oportunistas sobre situações pontuais. Para mim, a mais nobre das profissões - a medicina - é recheada de encanto, importância social e apreço. Para que a medicina se faça representar por pessoas dignas dessa profissão, o candidato precisa ter muitas virtudes, ter moral ilibada, ser sábio, tolerante, esforçado, ético, fraterno, incansável, estudioso, dedicado, lógico, honesto, diligente, rápido, benevolente, humano, correto, cortês, compreensível, sensível, desprendido, justo, competente e calmo. Por acaso, conhecemos alguém com essas qualidades todas? O aspirante a médico tem que fazer uma escolha desde muito cedo. Deve ser esculpido para o sacerdócio. Num curso de medicina, recebe-se um conteúdo gigantesco. Nenhum outro curso superior, no Brasil, tem maior carga horária, na graduação, do que o curso de medicina. Terminada essa etapa, o incipiente médico parte para a especialização, que consome, pelo menos, mais 50% do tempo da graduação. Depois de tanta dedicação, é inserido no mercado de trabalho e precisa ser remunerado como qualquer profissional.


Entendo que a conotação sacerdotal, tanto difundida, deve ser entendida como o esforço hercúleo que o médico faz para exercer sua profissão, em condições adversas, como bem sabemos. Não quero condenar a ótica comercial que esta relação de negócios exige nos dias de hoje. Alguns médicos estabelecem seu próprio consultório. Instrumentaliza-o, equipa-o, paga todas as taxas e impostos, enfim, está no mercado de trabalho. Muitos correm atrás de pacientes. Hoje, a primeira porta a bater é a do convênio.


De forma comercial, visando crescer seus ganhos financeiros, negociam valores ínfimos, condições de pagamento, prazos flexíveis, limites de exames complementares, etc. Diante do paciente sem convênio, é a mesma conversa. Negociam valores, prazos, parcelamentos e, não raro, confunde-se assistência médica com medicina de resultados, aplicando os preceitos contidos no Código de Defesa do Consumidor, alegando-se que a medicina é uma prestação de serviço como outra qualquer.


O médico é um sacerdote da vida ou um comerciante da saúde? Talvez, nem um, nem outro. O médico deve ser visto como um profissional técnico como outro qualquer, que necessita ser remunerado pelo seu trabalho, pois é dele que sobrevive. Porém, por lidar diretamente com a dor, seja ela física, emocional ou psicológica do ser humano, e tantas vezes conseguir livrá-lo do sofrimento, recai sobre o médico a nuance de ser, ele, um sacerdote, um pai, um amigo, um anjo que salva, alivia e traz o bálsamo - situações, essas, incompatíveis com a ‘profana’ contraprestação pecuniária.


Apesar dos pesares, cremos que a prática do médico espírita, pelo menos, deve inspirar-se e se alimentar nos ensinamentos de Jesus. Não deve ser realizada de forma, exclusivamente, mercantilista, ambiciosa, aleatória, mística, fanática, imposta pelo mercado dos tempos modernos (lembro aqui que Bezerra de Menezes receitou, gratuitamente, diversas vezes), porém, dentro de uma obediência às leis naturais, que têm origem nas mesmas fontes dos princípios científicos. A prática do médico espírita, pelo conjunto de fatores que o sustenta, deve ampliar-se, instrumentalizar-se e se cercar de elementos de ordem ética-cristã, sempre. Concluindo, deixo a minha esperança de que o médico espírita consciente (não só médicos, mas advogados, professores, engenheiros, dentistas, etc., etc. e etc.) seja exemplo para a medicina que, lamentavelmente, perde-se nos cipoais do capitalismo explorador e excludente.



Referências:


(1) A Resolução nº 1.835/08, editada pelo Conselho Federal de Medicina, estabelece ser vedado ao médico ter vínculo de qualquer natureza com empresa que anuncie e/ou comercialize plano de financiamento ou consórcio para procedimento médico, sendo que o exame, diagnóstico, indicação de tratamentos e execução de técnica são de responsabilidade única e intransferível do profissional médico, o qual deve estabelecer os honorários observando o contido no Código de Ética Médica;


(2) Apesar de ser proibido fazer esse tipo de atividade, conforme prevê o Código de Defesa do Consumidor;


(3) O artigo 9.º, do Código de Ética Médica, determina expressamente que a medicina não pode, em qualquer circunstância ou de qualquer forma, ser exercida como comércio.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.