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Abaixo o pessimismo

Abaixo o pessimismo



Novos estudos confirmam os efeitos prejudiciais do pessimismo e os benefícios que uma perspectiva otimista oferece à saúde. Mas como é possível ter otimismo numa época tão difícil como a atual? A psicologia positiva indica o caminho


Por Eduardo Araia


A esta altura do campeonato, é consenso geral que a crise econômica é gigantesca, afeta praticamente todo o mundo e só deve começar a ceder em 2010 - isso na melhor das hipóteses. Com um cenário de imensas dificuldades, como crédito (bem) mais escasso, empresas fechadas, vagas a menos e menor geração de empregos, não é de estranhar que muita gente se desespere ou entre em depressão. Raras vezes uma injeção coletiva de otimismo foi tão necessária.


Por coincidência ou sincronicidade, o otimismo e o seu antônimo, o pessimismo, estão sendo objetos de um número cada vez maior de pesquisas científicas. Um recente estudo da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos), por exemplo, revelou que as mulheres otimistas vivem mais do que as circunspectas. O pessimismo, por outro lado, foi associado não só a uma expectativa de vida menor, mas também a problemas físicos e mentais, que vão desde resfriados à ansiedade e a distúrbios crônicos, como a depressão.


Mas o que é o otimismo - ou, mais especificamente, o otimismo que faz bem à saúde? O interesse acadêmico abalou aquela imagem tradicional do otimista do gênero Poliana (heroína de um clássico infantil da escritora norte-americana Eleanor H. Porter), que vê sempre o "copo meio cheio" - em oposição ao pessimista, que na mesma situação só enxerga o "copo meio vazio". Um dos principais estudiosos dessa área, o norte-americano Tal Ben-Shahar, afirma: "O otimismo sadio significa estar em contato com a realidade. Ele certamente não significa ser polianesco e pensar que tudo é grande e maravilhoso."


Responsável pelo curso mais popular da Universidade Harvard entre 2002 e 2008, o Psicologia Positiva, Ben-Shahar prefere escapar por uma variante na questão de nomenclatura: para ele, os otimistas realistas são "otimalistas" - pessoas que sabem extrair o melhor das coisas que lhes acontecem. Outros autores não adotam o neologismo, mas seguem basicamente definições que combinam com essa ideia. Para eles, o otimista do século 21 não é o que vê o mundo sempre cor-de-rosa, mas o que tem consciência de que vai, vez por outra, enfrentar momentos de dor e tristeza e possui recursos internos para levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima.


Esse perfil é um privilégio genético? Nada disso, afirmam os cientistas. Pelos estudos, apenas cerca de 25% do otimismo de uma pessoa pode ser atribuído a fatores hereditários. Há uma imensa margem a preencher, via aprendizado.


Preparar as pessoas para aprender a ser otimistas é exatamente a chave da psicologia positiva, ramo de estudo cujas bases foram lançadas pelo psicólogo norte-americano Martin Seligman em 1998, num discurso presidencial que redigiu para a American Psychological Association. Seligman, que dirige o Centro de Psicologia Positiva na Universidade da Pensilvânia, começou a concentrar-se nessa área ao perceber que ajudar pacientes deprimidos a superar a melancolia, a ansiedade ou a raiva não significava deixá-los felizes - o que ele conseguia, explica, eram pessoas vazias. Na psicologia positiva, o profissional não se concentra nas falhas de seus pacientes, e sim em suas forças e virtudes. É esse núcleo que permite aos pacientes ganhar condições de superar obstáculos - a chamada resiliência (expressão da física que significa poder de recuperação, grau de elasticidade). "Não é suficiente limpar as ervas daninhas e o mato", afirma Seligman. "Se você quer rosas, tem de plantar uma rosa."


Um elemento fundamental nessa equação é a expectativa que temos em relação ao que está por vir. Um estudo recente, da Universidade da Califórnia em San Francisco, abordou a expectativa sob o ângulo de uma experiência inicialmente negativa. Os pesquisadores solicitaram a um grupo de mulheres que dessem uma conferência para uma plateia de estranhos - todos com rostos impenetráveis. No primeiro dia, as participantes confessaram-se assustadas e seus níveis de cortisol (hormônio associado ao estresse e à ansiedade) e de hormônios ligados ao medo subiram consideravelmente. Nos dias posteriores, contudo, as mulheres que haviam informado previamente ter-se recuperado de uma séria crise de vida no passado afirmaram não sentir mais o mesmo medo de falar em público; comprovando isso, os níveis de cortisol não apresentavam elevação. Para elas, esse evento, tal como outras experiências negativas, também viraria passado e elas continuariam levando sua vida adiante.


Pesquisadores da mesma universidade investigaram homens portadores do vírus HIV cujos parceiros já haviam morrido. O estudo mostrou que a dor, a depressão e o luto não devem ser sublimados - sua ocorrência, aliás, é até sinal de saúde. O perigo é ficar muito tempo nesse estado. Segundo os cientistas, aqueles que se enlutaram enquanto procuravam aceitar a morte do parceiro - percebendo, por exemplo, que essa situação representava o fim do sofrimento do ser amado - mostraram-se mais preparados para assimilar a perda e dar a volta por cima. Já aqueles cuja reação concentrou-se em lamentar o ocorrido levaram mais tempo para alterar esse quadro, provavelmente por falta de recursos internos que estimulassem essa mudança.


Uma perspectiva otimista influencia a própria percepção dos eventos, atenuando os negativos e valorizando os positivos. Essa ideia foi confirmada por uma pesquisa divulgada no Japão em 2008, que envolveu 175 pessoas, felizes e infelizes. Elas vivenciaram uma quantidade igual de episódios negativos a cada dia, mas os felizes reportaram um número maior de momentos positivos, vividos de maneira mais intensa.


A mesma pesquisa indicou ainda que o otimismo e a felicidade podem ser "transmitidos". As pessoas felizes contaram que suas experiências positivas geralmente envolviam uma ligação com alguém próximo - parceiro, amigo ou parente. Um padrão semelhante já havia aparecido num estudo anterior, realizado por Martin Seligman e outro expoente da psicologia positiva, Ed Diener. "Cem por cento das pessoas muito felizes têm boas relações", observou Diener.


O poder contagiante do otimismo e da felicidade foi também objeto de um estudo de Nicholas Christakis, da Escola de Medicina de Harvard, e James Fowler, da Universidade da Califórnia em San Diego, divulgado em 2008 no British Medical Journal. A pesquisa revelou que, na comparação com indivíduos melancólicos, os felizes apresentavam propensão maior a estar cercados de outras pessoas felizes. Até os amigos dos amigos das pessoas felizes (que poderiam nem conhecer uns aos outros) tendiam a ficar felizes. Segundo Christakis, a pessoa que tem contato com alguém feliz aumenta em 15% sua chance de também ficar feliz; no caso de ter contato com um amigo de alguém feliz, a chance sobe 10%.


Com tantos aspectos favoráveis, ser otimista é uma questão de bom senso. Para os que confessam ser difícil encarar o mundo dessa forma, vale o lembrete dos expoentes da psicologia positiva: otimismo pode ser aprendido. Martin Seligman comprovou isso numa pesquisa com calouros da faculdade. Os pessimistas que fizeram um curso de treinamento de otimismo de 12 semanas elaborado por Seligman tenderam a ir menos ao centro médico dos alunos durante os quatro anos seguintes do que seus colegas pessimistas que não receberam treinamento nenhum.


Seligman, aliás, é o responsável pelas técnicas usadas em uma grande pesquisa em andamento na área, que envolve mais de 3 mil estudantes da segunda metade do ensino fundamental na Grã-Bretanha. Ela deverá comprovar de maneira mais ampla que, num futuro próximo, só vai ser pessimista quem quiser.


Matéria publicada na Revista Planeta, em maio de 2009.



Sergio Rodrigues* comenta


A matéria destaca a importância do otimismo ante as dificuldades que se nos apresentam durante a nossa passagem pelo mundo material. Diante de uma situação de crise econômica como a que atualmente atravessamos, que tanta instabilidade e incerteza traz a todos, o autor da matéria ressalta a importância de se enfrentar com otimismo as dificuldades prováveis em momentos como esse. É a importância de se levar a vida com leveza, sem um pessimismo crônico que não nos leva a lugar algum. É preciso, pois confiar. E exemplifica citando pesquisa realizada em Universidade norte-americana, concluindo que as mulheres otimistas vivem por um período maior que as mais circunspectas.


Podemos analisar a matéria também sob a ótica espiritual. Sabemos que vivemos rodeados de inteligências do outro plano, aquela nuvem de testemunhas a que Paulo se referiu numa de suas cartas. A natureza dessas inteligências que nos rodeiam será determinada pela natureza dos nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Quando alimentamos pensamentos pessimistas, com uma perspectiva negativa do futuro, atraímos para nossa companhia, por força da lei de sintonia e atração, inteligências igualmente negativistas, emocionalmente desequilibradas, que vão nos influenciar para que nos sintamos cada vez mais pessimistas e sofridos. Sustentaremos com essas inteligências uma troca de energias negativas, que irão cada vez mais nos fazer sentir sem força e bom ânimo para o prosseguimento da caminhada.


De modo diferente acontece quando encaramos as lutas que nos esperam com otimismo, com fé e com confiança no futuro, na certeza de que o que nos está destinado é o melhor. Assim procedendo, atrairemos para nossa área de influência os espíritos benfeitores, que estão sempre dispostos a nos fortalecerem e nos incutirem bom ânimo. As dificuldades passam a ter uma nova conotação, menos sofrida, mais leve, com a certeza de que tudo o que passamos é transitório, necessário ao aprendizado que aqui viemos buscar, ainda tão importante para o nosso crescimento.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.