Espiritismo .NET

Mãe desafia risco de morte e leva gravidez adiante

Mãe desafia risco de morte e leva gravidez adiante



CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo


Ao iniciar a vida reprodutiva, aos 13 anos, Gabriela Kaplan soube que seria uma mulher diferente. Na primeira menstruação, foi internada com uma grave hemorragia que a obrigaria a fazer transfusões sanguíneas a cada ciclo menstrual durante toda a adolescência. O pai, tipo O positivo, era o seu doador.


Gabriela, 36, publicitária de São Paulo, tem deficiência do fator 10, uma doença hereditária rara que dificulta a coagulação sanguínea e a predispõe a graves hemorragias. Sem controle, essa "prima" da hemofilia pode matar. E foi justamente esse argumento usado por médicos para tentar persuadir Gabriela a desistir da gravidez.


Para quem desde a infância já brincava de ser mãe da irmã caçula, nove anos mais nova, o prognóstico médico foi um duro golpe. "Fiquei sem chão."


Mas Gabriela não desistiu. Pesquisou e encontrou uma dupla de médicos - o hematologista e imunologista Nelson Hamerschlak e o obstetra Renato Kalil - que topou o desafio de acompanhá-la na gravidez.


"A literatura médica é muito pobre sobre essa doença e vários colegas acharam melhor convencê-la a desistir da gravidez. Foi quase um ano de conversas, de aconselhamento e cumplicidade entre eu, ela e o marido. Queria ter certeza de que era aquilo mesmo que eles queriam", diz Hamerschlak.


Em 2006, fazendo uma busca na literatura internacional, os médicos encontraram oito casos iguais aos de Gabriela em que as mulheres haviam conseguido ter seus bebês. No Brasil, não havia situações relatadas.


"Eles me alertaram que seria uma gravidez arriscada, especialmente entre a 20ª e a 25ª semana, mas que era um risco controlado", lembra Gabriela.


Em março de 2006, a arquiteta engravidou naturalmente. Nas primeiras 22 semanas, fazia ultrassons semanais. Depois, a cada 15 dias. "Tinha tanta certeza de que tudo ocorreria bem que fiquei supertranquila, nem enjoo tive. Até na hora do parto, na 39ª semana de gestação, estava bem, serena."


Kalil, por sua vez, não estava nada tranquilo. "No pré-natal, esperava que ela tivesse um abortamento - ocorrência frequente nessa doença. No parto, tinha medo que ela sofresse uma hemorragia incontrolável. Fiz a cesárea muito rápido, como se não quisesse dar tempo de o vaso [sanguíneo] saber que estava sendo operado."


Antes do parto, Gabriela recebeu um complexo protrombínico - medicação que evita a hemorragia. "O sangramento durante o parto foi zero, sucesso total", conta Hamerschlak.


Uma equipe de oito médicos, entre obstetras, anestesistas, hematologistas e cirurgiões-vasculares, estava no centro cirúrgico do hospital Albert Einstein, no momento em que Sofia nasceu, no dia 5 de dezembro de 2006. Outros sete especialistas esperavam no corredor para agir em uma situação de emergência.


"Foi um alívio quando tudo terminou bem", lembra Kalil. Mal ele sabia que a sensação de alívio duraria pouco. Meses depois, Gabriela procurou novamente os médicos dizendo que queria ter um segundo bebê. "Eu disse que ela era louca, que já tinha uma filha e que não deveria correr novamente o risco de morrer no parto."


Mas Gabriela estava decidida. "Já saí da maternidade querendo um outro filho. Quando olhei para a Sofia pela primeira vez, tive a certeza sobre minha missão nesta vida. Vim para ser mãe. É maravilhoso."


Em 2008, quando Sofia completou um ano e quatro meses, Gabriela engravidou de Lara. Enfrentou alguns sustos, como na oitava semana de gestação, quando sofreu um descolamento da placenta. Depois disso, a gestação seguiu normal.


Em janeiro deste ano, a caminho da maternidade, bateu o medo. "Fiquei apreensiva. Pensei: "Será que devia estar correndo novamente o risco de morrer no parto. E se acontecer alguma coisa, o que será da minha filha?", lembra.


Novamente, os cuidados se repetiram - complexo protrombínico antes e após o parto - e a cesárea transcorreu sem problemas. Agora, Kalil e Hamerschlak preparam um artigo em que vão relatar o caso de Gabriela em uma revista médica internacional.


"Foi muito gratificante, mas chega de tensão. Falei para ela [Gabriela]: ‘Não quero te ver mais grávida!’", brinca Kalil.


Gabriela nem discute. "Se pudesse teria um monte de filhos, mas duas está mais do que bom", diz. Nenhuma das meninas herdou a doença da mãe.


Notícia publicada na Folha Online, em 11 de maio de 2009.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Num mundo em que a maldade e as tragédias são as notícias mais apetecidas das manchetes dos jornais e dos noticiários televisivos; numa época em que as mensagens que os ídolos de papel transmitem aos mais jovens são a vaidade, o egocentrismo e o imediatismo; numa altura em que são cada vez mais as mulheres que procuram encontrar razões para adiar ou mesmo contornar a oportunidade de serem mães; é com um brilho intenso de comoção a embargar o peito que ficamos a conhecer a história de Gabriela.


A bênção da maternidade, como uma oportunidade para gerar vida e de exercitar o poder criador que Deus colocou à nossa disposição, tem sido sucessivamente desprezada e desrespeitada, empurrada para um plano secundário e tratada muitas vezes como um obstáculo à satisfação dos interesses mais imediatos e dos desejos mais materiais. Não dá o devido valor à água quem nunca passou pelo deserto, já que, em sentido oposto, milhares de mulheres existem que, ansiando pela alegria de poderem segurar um filho nos braços e não possuindo condições fisiológicas para tal, se sujeitam aos mais demorados e intensos tratamentos, muitas vezes com prejuízo para a vida pessoal e profissional, tudo isso para não perderem a esperança de serem mães.


Ter a possibilidade de oferecer um corpo a um Espírito que espreita a encarnação é um dos momentos mais felizes que nos é dado a experimentar e onde nos sentimos em perfeita comunhão com o mundo. É uma mensagem de esperança que transmitimos à humanidade, um compromisso de dedicação e perseverança, um sinal que temos confiança em nós e nos outros, e que estamos tão comprometidos em fazer deste cantinho um lugar melhor que até trazemos um filho para cá. Aceitar a responsabilidade da maternidade consiste em colocar o nosso melhor amor, tempo, vontade, conhecimento e energias à disposição daquele Espírito, oferecendo as melhores condições para que ele possa desenvolver as suas capacidades e corrigir as inevitáveis imperfeições. “O Espírito dos pais tem a missão de desenvolver o dos filhos pela educação: isso é para ele uma tarefa.” (O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, questão 208.)


A coragem de Gabriela em arriscar a própria vida pela oportunidade de ser mãe é um exemplo para todas as mulheres que estão na luta pelo mesmo objetivo. A vida, campo de trabalho do nosso aperfeiçoamento e evolução, não é isenta de perigos, dificuldades ou de adversidades. Mas quem possui um projeto íntimo firme e se bate por ele, persiste e enfrenta os infortúnios, não se queda no queixume inconsequente: simplesmente se adapta ao que não pode mudar e procura superar o que está ao se alcance modificar. Essa perseverança vem de dentro, seguindo a voz do coração e agindo liberta dos preceitos impostos pelo exterior. Corajoso não é quem não tem medo ou quem desconhece os riscos, mas sim quem consegue superar seus medos e ir adiante, em busca do que se comprometeu a realizar nessa vida. Gabriela não se conformou com as dificuldades, aceitou os riscos e lutou com todas as suas forças pela realização do seu projeto interior que passava pela oportunidade da maternidade. É uma lição para todos.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.