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Agressão pode estar ‘escrita no rosto’, diz pesquisa

Agressão pode estar ‘escrita no rosto’, diz pesquisa



As tendências agressivas de um homem podem ser identificadas nos traços de seu rosto, segundo um estudo realizado por pesquisadores canadenses.


A equipe analisou o rosto de 90 jogadores de hóquei no gelo e constatou uma significativa correlação entre as proporções do rosto do jogador e a quantidade de faltas cometidas por ele.


Os resultados foram publicados na revista acadêmica Proceedings of the Royal Society: Biological Sciences.


O formato do rosto foi determinado ao medir a distância entre as ossos acima das bochechas e dividindo essa medida pela distância entre as sobrancelhas e o lábio superior.


Pelo estudo, quanto maior a proporção entre a largura e o comprimento do rosto, mais agressivo o jogador era.


Uma fase anterior do estudo já havia demonstrado uma diferença no formato dos rostos de homens e mulheres, com homens tendo geralmente rostos mais arredondados do que as mulheres.


Essa diferenciação no formato dos rostos de homens e mulheres acontece geralmente na puberdade, segundo os pesquisadores, devido a um aumento dos hormônios sexuais, principalmente a testosterona nos meninos.


"Nós sugerimos que os traços que se tornam evidentes durante a puberdade são resultado de diferentes níveis de testosterona e a testosterona pode ser responsável por determinar a relação entre a largura e o comprimento do rosto", disse Justin Carre, da Brock University, em Ontário.


Por isso, é possível que o nível de testosterona influencie as tendências agressivas, segundo os cientistas.


Os pesquisadores não verificaram a mesma relação entre o formato do rosto e agressividade nas mulheres.


Os pesquisadores afirmam ter escolhido jogadores de hóquei no gelo para a análise porque, segundo eles, há muito comportamento agressivo nesse esporte e esse comportamento é normalmente considerado aceitável.


Os resultados sugerem que o formato do rosto pode ter sido moldado pela evolução como uma marca da propensão à agressão.


O próximo passo será analisar se as pessoas podem julgar, pelo formato do rosto, a personalidade de outros seres humanos.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 20 de agosto de 2008.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Não é a primeira vez na história que se tenta relacionar a aparência física com o caráter do indivíduo. A teoria é antiga e se chama fisiognomia. Teve sua origem na índia, onde se fazia a leitura das rugas e sinais do corpo e acreditava-se poder chegar a um diagnóstico da saúde do indivíduo. Mais tarde foi levada para a China e também estava relacionada com uma leitura, sobretudo da face, onde se interpretavam sinais que permitiam diagnosticar a saúde do indivíduo. Somente mais tarde passou-se a acreditar que se podia ler o caráter pelos traços da face. Muitos fisiognomistas europeus chegaram a traçar complexos compêndios relacionando medidas do rosto e do crânio com a inteligência e caráter do indivíduo. A teoria foi também usada por nazistas, para fundamentar outra teoria chamada eugenia, que defendia uma segregação racial e a superioridade física da raça Ariana. Qual não foi a surpresa de Hitler ao presenciar nas Olimpíadas de Berlim em 1936 o velocista americano negro Jesse Owen ganhar quatro medalhas!


Entre os fisiognomistas famosos destaco Cesare Lombroso (1835-1909), perito em antropologia criminal, que passou a estudar fenômenos mediúnicos, tornando-se espírita convicto. Porém, a teoria da fisiognomia não manteve sustentação científica após o século 19. As relações feitas entre medidas do crânio e traços da face com o caráter do indivíduo não eram conclusivas, ainda mais quando consideradas outras etnias além dos europeus. Por tudo isso, as teorias que tentam fazer este tipo de relação devem ser vistas com muita reserva e verificadas quanto a sua universalidade, ou seja, se tais princípios são válidos quando aplicados a outros povos de outras partes da Terra.


Mais importante que isso, é perguntar: Qual o objetivo implícito nesta pesquisa? Quais as motivações ocultas e consequências de tais teorias? Elas são mais válidas e úteis do que prejudiciais e perigosas? Quais as consequências da ciência emitir normas para julgar os indivíduos pela aparência? Essa me parece uma daquelas pesquisas que tenta relacionar características morais e intelectuais com o sexo ou a raça. Sim, a testosterona influi sobre a formação do corpo e da face, mas ter muita testosterona não significa necessariamente ser agressivo e ter pouca testosterona não significa obrigatoriamente um caráter dócil. A questão hormonal influi, mas não determina o comportamento de forma absoluta.


Mas será que não há nenhum fundamento nestas teorias? Fundamentos que possam ser universalizados como uma regra absoluta, não! É outro assunto perceber no semblante de alguém o seu caráter de maneira intuitiva, o que é possível, mas também não é uma regra absoluta. A questão 217 de O Livro dos Espíritos trata deste assunto:


217. E do caráter físico de suas existências pretéritas conserva o Espírito traços nas suas existências posteriores?


“O novo corpo que ele toma nenhuma relação tem com o que foi anteriormente destruído. Entretanto, o Espírito se reflete no corpo. Sem dúvida que este é unicamente matéria, porém, nada obstante, se modela pelas capacidades do Espírito, que lhe imprime certo cunho, sobretudo ao rosto, pelo que é verdadeiro dizer-se que os olhos são o espelho da alma, isto é, que o semblante do indivíduo lhe reflete de modo particular a alma. Assim é que uma pessoa excessivamente feia, quando nela habita um Espírito bom, criterioso, humanitário, tem qualquer coisa que agrada, ao passo que há rostos belíssimos que nenhuma impressão te causam, que até chegam a inspirar-te repulsão. Poderias supor que somente corpos bem moldados servem de envoltório aos mais perfeitos Espíritos, quando o certo é que todos os dias deparas com homens de bem, sob um exterior disforme. Sem que haja pronunciada parecença, a semelhança dos gostos e das inclinações pode, portanto, dar lugar ao que se chama “um ar de família.”


Na colocação dos Espíritos, fica clara que a percepção do caráter pelo semblante do indivíduo não é física. Além disso, estamos sujeitos as influências dos nossos preconceitos. Minha mãe costuma dizer que conhece qualquer um de cara. Ela é mesmo boa, mas de vez em quando se engana, afinal, vale mesmo o velho ditado da sabedoria popular: “As aparências enganam”.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.