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Gravidez fora do útero tem sucesso e bebê nasce saudável no ES

Gravidez fora do útero tem sucesso e bebê nasce saudável no ES



FLÁVIA MANTOVANI
da Folha de S.Paulo


Tinha tudo para dar errado. Por algum motivo desconhecido, o óvulo fecundado, que normalmente é levado pelos cílios da tuba uterina até o útero, tomou o caminho contrário e se instalou na cavidade abdominal, perto do intestino.


A placenta, que em geral se adere à parede interna do útero para obter nutrientes que alimentam o bebê, ficou do lado de fora e poderia ter deixado o feto sem nutrição ou se descolado a qualquer momento, gerando uma hemorragia fatal para mãe e filho.


E a escassez de líquido amniótico (causada pelo funcionamento incompleto da placenta), em geral, deixa a criança sem espaço para se desenvolver e leva a más-formações de membros e órgãos.


Foi assim, contrariando uma sucessão de prováveis fracassos, que a gravidez da dona de casa Izabel Aparecida Rodrigues, 32, vingou. A placenta encontrou um jeito de nutrir o feto, expandindo-se mais do que o normal em busca de vasos sanguíneos por fora do útero. Durante a gestação, o órgão sofreu pequenos descolamentos que geraram hemorragias, mas elas puderam ser controladas com transfusões.


Izabel sentiu muita dor e teve que ser internada para receber sangue e repousar quase todo mês. Mas a barriga foi crescendo - inclinada para a esquerda, é verdade - e, no dia 12 de fevereiro deste ano, na 36ª semana de gestação, nasceu o bebê, uma menina de 2,2 quilos, chorando e saudável.


Natural de Cachoeiro do Itapemirim (ES) e mãe de mais três filhos, de 14, dez e nove anos, Izabel procurou um médico aos dois meses de gestação, queixando-se de dor e sangramento. As duas notícias, sobre a gravidez e o local inusitado onde o feto havia se instalado, vieram juntas.


"Fiz um ultrassom e vi que o bebê estava fora do útero. Pensei que poderia estar dentro da trompa, mas não parecia. Pedi que outro médico olhasse, fizemos uma ressonância magnética e confirmamos a gravidez abdominal", conta seu obstetra, Roberto Bastos, da Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro do Itapemirim.


A reação, segundo Izabel, foi um misto de alegria e tristeza. Ela tinha o direito de abortar, pois estava com a vida em risco. Mas, quando perguntou ao obstetra se havia chance de a gestação ir adiante e ele disse que sim, apesar de remota, ela preferiu confiar. "Decidi deixar ir para a frente. Confiava sempre em Deus e no médico", diz.


A gravidez era acompanhada com ultrassom no mínimo a cada 15 dias associado a um doppler, que mostrava se a circulação da placenta estava funcionando. Todo mês, a dona de casa ficava internada por cerca de uma semana para receber sangue e repousar. Acabou tendo que abandonar um emprego que tinha conseguido dois meses antes, como doméstica.


O marido e amigos, ao vê-la passando tanto mal, chegaram a sugerir que ela abortasse, mas Izabel diz que essa hipótese não passou por sua cabeça.


Quando completou 36 semanas, o médico decidiu fazer uma cesárea, pois temia que a falta de líquido amniótico causasse sequelas. A incisão, geralmente transversal e acima do púbis, foi longitudinal e do lado esquerdo do umbigo. "Tivemos que descobrir o melhor local para tirar o bebê. Nossa preocupação era que o intestino estivesse na frente, pois não queríamos mexer nele", diz Bastos.


A placenta, que nos partos vaginais é expelida e nas cesáreas é retirada pelo médico, teve que ficar - e está até hoje no organismo de Izabel. "Como a placenta dela ficou ligada a vasos importantes, não podemos tirá-la sob o risco de causar hemorragia. É preciso esperar que ela seja reabsorvida naturalmente", diz Bastos, que acredita que o processo demorará dois ou três meses.


"Me senti muito feliz quando ouvi o choro. Foi nessa hora que fiquei sabendo que era uma menina", lembra Izabel. Ela não teve dúvidas: chamou a filha de Maria Vitória.


A recém-nascida foi levada para a UTI neonatal porque teve uma ligeira dificuldade respiratória, típica de prematuros. Mas, cinco dias depois, mãe e filha tiveram alta. Segundo Izabel, Maria Vitória é agitada, mas não dá muito trabalho. "Ela é espertinha e vive virando na cama e se mexendo, mas não é de chorar muito, não."



Caso raríssimo


A gravidez abdominal é muito rara. Segundo estudos, sua incidência varia de 1 para cada 10 mil a 1 para cada 64 mil partos. Mesmo entre as gestações ectópicas (fora do útero), trata-se de um caso incomum, pois, quase sempre, o embrião se instala na tuba, onde não se desenvolve por falta de espaço.


Mais raro ainda é esse tipo de gravidez ir adiante. A chance de sobrevivência neonatal é de no máximo 20%. "A gente estuda na faculdade que isso pode acontecer, mas eu estou formado há 22 anos e nunca tinha visto", conta Bastos.


O médico procurou referências na literatura científica e só encontrou um artigo no Brasil que reportasse uma gestação abdominal em que o bebê nasceu vivo, em 1999, em Recife (PE). O texto cita outros dois casos relatados em Fortaleza (CE) e em João Pessoa (PB). Bastos, agora, escreve um artigo sobre o caso de Izabel.


Notícia publicada na Folha Online, em 30 de março de 2009.



Claudia Cardamone* comenta


Esta notícia nos remete quase imediatamente à questão 359 de O Livro dos Espíritos:


"359. No caso em que a vida da mãe estivesse em perigo pelo nascimento da criança, haveria crime em sacrificar a criança para salvar a mãe?


- É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe."


Esta é uma prova complexa e difícil. Nem o Espiritismo condenaria um aborto nestas condições. Quantas pessoas que se dizem espíritas, que dizem estudar e compreender a doutrina espírita, seriam capazes de racionalmente e ponderadamente colocar a sua vida em risco eminente por alguém que ainda fisicamente não se conhece? Não é um acidente, onde você vê alguém em perigo de morte e arrisca sua vida para salvá-lo.


A izabel demonstrou ser mais espírita do que muitos que eu conheço, demonstrou resignação e coragem e acreditou na sua fé e na ciência. Ela sabia o que era certo ser feito e se manteve neste caminho.


Que este caso inspire muitas outras pessoas a terem a coragem de fazer o que é certo, lembrando sempre que a verdadeira e eterna vida é a espiritual.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.