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Palmada educa?

Palmada educa?



Bater para educar. Muitos pais ainda adotam a prática, antiga e criticada. A palmadinha ensina alguma coisa? A coluna Coisas do Gênero ouviu especialistas. Descobriu que pais perdem a paciência, educadores condenam, e a estratégia nem sempre dá certo.


"Ele começou a fazer uma pirraça, não queria me obedecer. O clima foi esquentando. Chega uma hora que, realmente, você perde a paciência", conta uma mãe.


Paciência - o pai de Luíza, o roteirista e cartunista Zé da Silva, sabe: é virtude para quem educa. Mas, e quando ela acaba? O que fazer?


"Todo mundo passou o dia fora trabalhando, então, você vai chegar em casa e ainda vai dar uns tapas na criança? Meio maluquice, né?", comenta o roteirista e cartunista Zé da Silva.


"Eu converso, às vezes coloco para pensar e, quando necessário, e em última consequência leva uma palmadinha de vez em quando”, aponta a dona de casa Marluce Ramos do Vale.


O velho dilema disciplina-castigo ainda divide os pais. Há poucos meses, o Uruguai aprovou uma lei que proíbe a palmada e se tornou o primeiro país da América Latina a ter esse tipo de infração. Da teoria à prática vai uma longa história.


A ideia de castigar fisicamente as crianças veio de fora. Foram os padres jesuítas, no século 16, que trouxeram essa prática para o Brasil. Horrorizaram os índios, que não tinham o hábito de bater para educar. Com o tempo, os instrumentos de castigo foram variando: chicotinho, cordinha, varinha, cinto, ajoelhar no milho, a famosa palmatória - que por incrível que pareça, até meados da década de 1940, ainda era usada em escolas brasileiras. Hoje, a mão aberta costuma ser a mais usada para as palmadas ditas inocentes, educativas.


Mas será que a palmadinha ajuda a educar?


"Não educa, mas faz a criança perceber que está errando", defende a dona de casa Marluce Ramos do Vale.


“O que educa é conversar, combinar, fazer as coisas”, opina um pai.


“Obviamente que você não quer agredir, machucar, você quer mostrar para a criança que ela ultrapassou um limite”, completa outro pai.


Muitos educadores não pensam assim.


"Não existe palmadinha, ou palmada, ou uma batidinha leve, diferente de espancar. É tudo agressão física. Como não existe roubar R$ 5 ou roubar R$ 1 milhão. É roubar", diz a orientadora pedagógica Patrícia Lins.


Para eles, o tapinha parece resolver a pirraça na hora, mas pode deixar sequelas: dificuldade de se relacionar, insegurança, apatia, baixa auto-estima. Ao bater em uma criança, os pais mostram que o uso da força física é uma maneira legítima de se conseguir o que quer.


"Muitas vezes, a palmada é dada não como educativa, mas como liberação de estresse por eles estarem cansados, estressados, de pavio curto", argumenta a terapeuta Maria Teresa Maldonado.


"O pai também está aprendendo a ser pai. Então, muitas vezes, eu vejo gente que bateu no filho e logo depois, a pessoa fica amargurada. O que é que eu fiz?", conta o roteirista e cartunista Zé da Silva.


Os especialistas têm algumas respostas para quem não quer recorrer à pedagogia do tapa.



Coerência


"Um dia pode, outro dia não pode. Um dia é uma coisa, outro dia é outra. Quando não há consistência e coerência nos limites, a primeira coisa que perde a credibilidade é a palavra", diz a terapeuta Maria Teresa Maldonado.



Limites claros


“Muitos pais vão negociando indefinidamente, muitas vezes confundem diálogo com deixa acontecer", afirma a terapeuta Maria Teresa Maldonado.


E ter a certeza de que nunca é tarde para aprender.


"Eu diria aos pais para pensarem que tipo de relação mantêm com o filho. Eu quero que ele seja um cidadão, que respeite os outros, que não bata em ninguém, que não mate ninguém, que se incomoda com a fragilidade dos outros, é esse ser humano que queremos criar”, aconselha a terapeuta Maria Teresa Maldonado.


Matéria publicada no site do Bom Dia Brasil, em 8 de fevereiro de 2008.



Nara de Campos Coelho* comenta


A menininha estava ao telefone tagarelando com a tia. Desconhecia que o interurbano sairia caro. A mãe, a seu lado, pedia-lhe o fone. E ela, em altos papos, permanecia ignorando o pedido da mãe. Até que a tia ouviu-a dizer:


“Péra aí tia, que minha mãe está me tremendo”.


O riso foi largo, tanto da tia quanto da mãe. Esta não sendo obedecida, tratou de sacudir a menina pelo braço, fazendo-a “tremer”. Claro que este é um episódio que não preenche os requisitos da notícia em questão, mas já nos sugere a predisposição do adulto em usar a força sobre as crianças que estão sob sua tutela.


“Vou bater em você! Se não me obedecer, vai apanhar! Olhe o coro! Olhe o chinelo!” e por aí vão uma centena de jargões típicos de pais que, desde cedo, ensinam aos seus filhos as formas mais distintas de violência. E depois choram...


Com o Espiritismo, aprendemos que nossos filhos são espíritos, herança do Pai para que os eduquemos na nova romagem terrena. Espíritos reencarnados todos somos. Hoje pais, ontem filhos, amanhã filhos novamente, sempre seguindo a esteira da evolução. A cada reencarnação, uma nova oportunidade de aprendizado, nova chance de resgatar os erros do passado, reformulando conceitos, cicatrizando feridas, renovando laços, transformando-se moralmente, burilando as arestas da alma antiga. E tudo isto começa com os pais. Esta nova oportunidade é chance celeste delegada aos pais.


André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier nos ensina em  “Conduta Espírita” que devemos “ver no coração infantil o esboço da geração próxima, procurando ampará-lo em todas as direções. Orientação da infância, profilaxia do futuro.” Isto combina com tapas? Com agressão de qualquer natureza? E o que temos visto nesta nossa juventude, com exceções, claro, senão violência, desrespeito, drogas... Elas espelham uma infância desamparada, muitas vezes, do pai e da mãe que se deixam substituir pelos bens de consumo, que eles mesmos se esgotam por conquistar, explodindo no auge do cansaço numa sonora bofetada, quando bastaria apenas um pouco de atenção.


Diz um ditado popular que “tapa de amor não dói!” Ledo engano, pois a vivência tem nos ensinado que tapa dado por quem nos deveria amar dói muito e deforma o educando, pois demonstra àquele espírito ansioso por limites e amparo que o seu legado é a dor e o medo que ela provoca. E ele revidará, assim que puder.


Pais espíritas sabem que precisam ser para os filhos exemplos sadios e geradores de força moral para que, por meio de diálogos (e não monólogos), de conversa amiga (e não de ditadura familiar) sejam estabelecidos os limites indispensáveis para que princípios sólidos lhes desenhem os caracteres, apertando os laços de amor e desvendando para todos um futuro de expectativas feitas de esperança e sonhos realizáveis. Ah! e lutarão pela paciência, que uma vez conquistada eles nunca a perderão. E ela é a indispensável aliada do amor na sublime batalha da educação.


Munidos desta convicção, os pais espíritas se empenharão em formar seus filhos pelo método do amor e do respeito, considerando-os, tais como a si mesmos, espíritos em evolução, em alguns casos, até mais evoluídos... E, a par da instrução formal, lhes darão a educação moral e a espiritual, completada pelo estudo do evangelho no lar e pela Escola de Evangelização.


Filhos assim concebidos e criados, vivendo num meio saudável e fraterno, jamais precisarão de tapas ou de gritos, pois desde cedo aprenderão a respeitar a vida em todas as suas manifestações, inteirando-se aos poucos das realidades da encarnação.


Foi por isto que Jesus nos deixou a lição “Deixai vir a mim os pequeninos, e não os impeçais, porque deles é o Reino de Deus.” (Lucas, 18:16.)


* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e site de diversas regiões do país.