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A era do bem-estar

A era do bem-estar



Nos próximos anos, o cotidiano será marcado por atitudes e serviços que proporcionarão o equilíbrio entre o corpo e a mente


Cilene Pereira


No final da década passada, você provavelmente se deparou com várias reportagens anunciando o século XXI como a era do bem-estar individual. Então, agora que vai começar o décimo ano do novo milênio, muita gente ainda pode se perguntar: Cadê essa revolução? Pois saiba que nos próximos cinco anos será impossível escapar dela. Mas ela não chegou como uma revolução, e sim de forma tão suave quanto definitiva. Para mergulhar neste novo mundo é preciso se desfazer dos preconceitos - a mudança nada tem a ver com algo místico ou impossível de ser atingido por quem não é um monge tibetano ou um guru indiano. Trata-se de uma construção que depende de atitudes simples a serem adotadas dentro da sua rotina e cujo objetivo é o alcance de uma boa saúde, uma mente equilibrada e a satisfação com a aparência do próprio corpo.



DE BEM COM A ALMA


O brasileiro valoriza cada vez mais alguns aspectos importantes da vida. Entre eles, o cuidado com as emoções


Essa realização será facilitada a cada ano com o surgimento ou o aperfeiçoamento de diversos serviços que fazem parte de uma ciência do bem-estar. Não se espante, por exemplo, se dentro de um ano ou dois seu personal trainner passar a ostentar o título de consultor de bem-estar. A formação desse novo profissional começará a ser feita a partir de março, no primeiro curso de Pós-Graduação em Bem-Estar do País. Aprovado pelo Ministério da Educação e organizado pelo Instituto Fitness Brasil, ele terá duração de 13 meses e é dirigido a professores de educação física, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas - muitas das disciplinas estão relacionadas a estas áreas. Dessa maneira, espera-se que o indivíduo saia capacitado a fornecer aos clientes recomendações sobre a melhor alimentação ou o exercício mais adequado para combater o stress cotidiano. "Ele será uma espécie de coaching (treinador, em inglês) de vida", explica Waldyr Soares, presidente do Instituto Fitness Brasil. "Ajudará as pessoas a ter um cotidiano mais sadio em todos os sentidos." A personal trainer paulistana Elaine Cruz, 27 anos, foi uma das primeiras a se matricular. "Hoje os alunos não querem mais somente um passador de exercícios. Desejam alguém que os ajude a manter o organismo e a mente equilibrados", afirma.


As academias de ginástica também estão mudando. O espaço que dedicam para atividades que integram corpo e mente, como ioga e Pilates, será ainda maior. Além disso, a academia que quiser se destacar no futuro terá necessariamente de incluir nas suas instalações centros dedicados ao bem-estar, locais onde os alunos poderão usufruir de serviços como massagens, banhos de ofurô, banheiras de hidromassagem, tudo planejado para que ele combine músculos enrijecidos e alma distendida. Redes de academia como a Runner e a Triatlhon, em São Paulo, acabam de inaugurar áreas do gênero. "Vivemos um momento de mudanças", explica Patrícia Pirozzi, diretora executiva da Triatlhon. "Nitidamente os indivíduos estão precisando mais da subjetividade e do afeto."


De fato, é cada vez maior o número de pessoas que não estão dispostas a abrir mão da sua qualidade de vida em troca do sucesso profissional a qualquer custo nem a fim de fazer todos os sacrifícios para chegar ao corpo escultural. "As pessoas estão percebendo que não basta preencher suas necessidades materiais", afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira do Institute of Stress Management Association - Isma, entidade internacional dedicada à prevenção e ao tratamento do stress. "O brasileiro valoriza outros aspectos importantes na vida, como o cuidado com as emoções e com um corpo saudável." Esse anseio alimenta um mercado mais pujante a cada ano do novo milênio. Pelas contas do economista americano Paul Zane Pilzer, autor do livro The wellness revolution (A revolução do bem-estar), essa indústria movimentará até 2010 nada menos do que US$ 1 trilhão em todo o mundo. Além dos serviços de bem-estar, como spas e academias, estão incluídos nesta conta segmentos como o de alimentos e bebidas considerados saudáveis e produtos orgânicos.


Essa mudança na maneira de enxergar a vida fará com que você altere também a forma como cuida da beleza. Hoje o hábito é uma rotina na vida de praticamente todos nós - em uma pesquisa com 23 mil mulheres do mundo todo, a empresa Avon descobriu que 93% fazem alguma coisa para melhorar a aparência -, mas nos próximos anos ele será mais pautado pela preocupação em unir boa aparência à saúde. Afinal, está claro que começamos a vincular beleza, saúde e bem-estar como partes de uma coisa única - como realmente são. O resultado dessa nova concepção é uma moderna geração de cosméticos enriquecidos com vitaminas e substâncias extraídas de plantas - fortalecendo a idéia da beleza de dentro para fora.


Além disso, o filtro solar entrará definitivamente no dia-a-dia, amparado pela conscientização maior em relação ao seu papel protetor contra o câncer de pele e o envelhecimento precoce da cútis. "O consumo no Brasil já aumenta", informa o dermatologista Marcelo Bellini, de São Paulo. Prova do que diz o especialista é uma investigação realizada há dois anos pela fabricante de cosméticos L’Oréal com 2,4 mil mulheres. O trabalho revelou que 57% usavam o filtro diariamente. Em 2003, estudo semelhante apontara índice de adesão de 38%.


Esse é um processo de conscientização que contagia com mais facilidade as novas gerações. Produtos para a pele, especialmente os hidratantes, são os preferidos das adolescentes - segundo a empresa Nívea, garotas de 14 anos já fazem uso diário deles. Os homens fortalecerão o movimento e irão aderir aos cosméticos e tratamentos em grande número, alimentando um mercado de vaidade masculina que só nos últimos cinco anos avançou mais de 200%. De olho nesse potencial, as empresas se preparam para lançar boas alternativas. A Vichy, por exemplo, trouxe ao País a primeira linha de dermocosméticos (produtos com ação mais potente) masculinos.


E, como manda a nova era, as intervenções estéticas estão ganhando o toque da delicadeza, com incisões e tratamentos bem menos agressivos.


"Os pacientes querem resultados mais naturais", explica José Tariki, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Isso significa que ninguém mais quer ficar com cara de "acabei de fazer plástica". Simultaneamente, aumentarão os procedimentos sem bisturi, como a aplicação de botox, preenchimentos (colocação de substâncias para atenuar sulcos) e tratamentos a laser - este último a grande aposta dos dermatologistas. Além dos bons resultados na regeneração da pele, eles permitem que o paciente mantenha sua rotina. "Isto tem sido um fator importante para as pessoas. Elas desejam maior praticidade nos tratamentos", explica a dermatologista Bruna Bravo, do Rio de Janeiro. Este modelo de cuidados realmente atende às necessidades de pessoas como a advogada carioca Rebecca Campbell. Ela escolheu métodos como o botox, laser e preenchimento. "O efeito é muito bom, discreto, e o cotidiano não é alterado", diz.



ESTRATÉGIA


A prevenção de doenças será um dos principais focos da medicina. Está provado que a medida poupa vidas e dinheiro


No gerenciamento da saúde, a palavra de ordem será a prevenção. "A ênfase em evitar que as doenças se instalem é muito grande", afirma José Antonio Maluf, coordenador do Centro de Medicina Preventiva do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. "É uma questão estratégica. Sabemos que isso poupa vidas e também dinheiro, que deixa de ser gasto com internações que poderiam ser evitadas." Um item importante dessa área, o check-up, ganhará novos formatos. Ele será elaborado de acordo com perfis de pacientes - afinal, os riscos variam de acordo com a idade, o sexo e o biotipo. Se você quiser aprimorar a prática da atividade física, por exemplo, poderá submeter-se a uma bateria de exames só para avaliar se está apto para tal. Ou, se fizer parte de determinado grupo étnico, como os japoneses, terá um check-up desenhado especialmente para você, como já existe na rede Fleury Medicina e Saúde, de São Paulo. É mais uma particularidade do futuro: o bem-estar lapidado sob medida para cada um.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 23 de dezembro de 2008.



Sergio Rodrigues* comenta


No item 11 do, capítulo XVII, de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec traz uma mensagem do espírito Jorge, que se denominou um Espírito Protetor, datada de 1863, em que fala da necessidade de se cuidar do corpo e do espírito, para se atingir a perfeição moral. Orienta a cuidarmos dos dois, pois é equivocado cuidar-se apenas de um deles, esclarecendo que o estado do corpo físico influi de maneira muito importante sobre o espírito, que precisa de um corpo são para poder realizar suas conquistas. Ambos, espírito e corpo físico, são mutuamente dependentes, importando que se dedique aos dois os mesmos cuidados. Desatender às necessidades de um deles é contrariar as leis naturais.


Muito antes da medicina terrena, o Espiritismo já ensinava a interdependência entre o estado psíquico da pessoa, aí incluídas as variantes que alteram o equilíbrio emocional e o corpo material. Interagindo permanentemente, psiquismo e corpo físico refletem-se reciprocamente, um influenciando o estado do outro. A notícia em questão nos dá conta da importância crescente que vem sendo atribuída pela ciência terrena à harmonia que deve nortear a relação entre estes dois entes. Ressalta que, a cada dia, mais o brasileiro valoriza a forma como dar tratos às suas emoções. Técnicas menos agressivas ao organismo físico vão aparecendo, como as utilizadas para os cuidados com a pele do corpo. Essa questão, aparentemente insignificante, sinaliza que as pessoas estão imprimindo uma nova direção para as suas prioridades. Em vez da exclusividade do culto à estética, a prevalência do bem-estar interior. Os profissionais que se dedicam aos cuidados do corpo terão que se adaptar a essa nova filosofia de vida, pois as pessoas estão mais exigentes, não aceitando mais aquele profissional dissociado dos valores do emocional.


É claro que aqueles que sentem a necessidade de preservarem a estética do corpo físico ainda continuarão existindo e isto não é, de modo algum, reprovável. Se o objetivo é proporcionar uma convivência mais harmoniosa do espírito com o corpo, embelezando-o e fazendo com que a pessoa se sinta melhor, aumentando a sua auto-estima, não há o que deva ser reprovável. O importante é que não se descuide do campo emocional, que deve igualmente ser embelezado, o que o brasileiro vem aprendendo a praticar, conforme nos conta a notícia comentada.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.