Espiritismo .NET

Criatividade que faz dinheiro e gera solidariedade

Criatividade que faz dinheiro e gera solidariedade



Comunidades de várias partes do Brasil estão aprendendo a driblar a falta de dinheiro. Criaram um dinheiro novo. É a moeda social.


Marcos Uchôa


Comunidades de várias partes do Brasil estão aprendendo a driblar a falta de dinheiro - o dinheiro real, que compra qualquer coisa, em qualquer lugar. Criaram um dinheiro novo. É a moeda social.


São notas variadas e parecem uma coleção de dinheiro de mentirinha, mas, na verdade, isso é a moeda social, uma experiência que está se espalhando por vários lugares do Brasil. Em alguns, já está firmemente instalada.


É o caso do bairro de Palmeiras, em Fortaleza, no Ceará, onde o dinheiro que se chama “palmas” circula por toda parte, e é aceito normalmente. Trata-se de uma população pobre, com uma regra clara: a moeda só vale ali. Toda negociação tem que ser local. Isso fortaleceu o comércio na área em quase 40%.


“O efeito prático é que você acaba fomentando os negócios e empregos nessa comunidade. Como o dinheiro só pode ser usado na comunidade, então, precisa desenvolver produtos e serviços para serem consumidos. Isso acaba gerando emprego e renda. Esse é o grande efeito das moedas sociais”, elogia Paulo Okamoto, do Sebrae.


Em Valença, no interior do estado do Rio de Janeiro, a arquitetura da cidade coloriu uma nova moeda: o “coroado”. A freguesa troca seus reais pelas notas e vai às compras, e o que ela encontra?


Não são pequenos produtores, são pequeninos. É gente que não teria como negociar os frutos do trabalho deles de outra forma. Eles vendem, normalmente, para quem passa. Mas, muitas vezes, tudo é feito de forma ainda mais simples. Cristiane troca as cenouras que cultiva pelo doce de leite de Lucia. Francisco aprecia os biscoitos de Ana, que trocou pelos palmitos que planta.


Esse é um sistema em que o dinheiro, que é o que mais falta para essa gente, se torna dispensável. Mas, quando é preciso, o “coroado“ é usado como troco. Assim, se faz quase qualquer negócio.


“Quando o pobre chega no mercadinho solidário, funciona assim: a pessoa chega com um potinho de doce de leite, que ela faz com um pouquinho de leite e açúcar, mas ela precisa do macarrão. No local, ela chega e troca o doce de leite pelo macarrão que ela precisa. Isso é o que ela pode fazer e é a possibilidade que ela tem de se sustentar com o que ela produz”, explica a voluntária Clara Pentagna.


Do outro lado da rua, um minimercado, que eles organizaram, oferece mesmo o mínimo para a sobrevivência: aquilo que nenhum deles produz, como sabão em pó, café, sal, arroz e entre outros produtos. Toda transação é anotada tintim por tintim. A contabilidade é simples, mas necessária em um sistema em que todos saem ganhando. O objetivo é avançar ainda mais nessa participação, porque fazer algo por alguém, além de um favor, pode ter um valor.


“Por exemplo, médicos e dentistas são profissionais que geralmente vão para as comunidades doar esses serviços, mas isso tudo podia ser à base de troca solidária. Fortaleceria o serviço do médico, cada vez mais reconhecido, porque não é uma coisa dada. Ainda fortaleceria a comunidade, porque ali poderia estar circulando outros serviços em troca com esse médico”, sugere o coordenador de projetos Robson de Souza.


Esses mercados têm uma dimensão diferente. Eles geram coisas muito valiosas para o ser humano. Primeiro, dignidade. Segundo, relações não só comerciais, mas de solidariedade, entre pessoas que compartilham das mesmas dificuldades.


Tudo acaba sendo um investimento em gente, o que traz vários tipos de lucro.


“Levanta a auto-estima, muda a imagem e o modo de se vestir. Antes, ela vinha descuidada. Agora não, a pessoa se apronta para sair, e isso vale ouro. Não há dinheiro no mundo que pague isso”, diz a voluntária Ana Cabral.


A ideia das moedas sociais é essa mesma: mostrar que amizade e união fazem economia. Trocar o “cada um por si” do mundo real e dos reais, por um lugar onde todo mundo tem valor.


Notícia publicada no site do Bom Dia Brasil, em 12 de novembro de 2008.



Jorge Hessen* comenta


Comunidades de várias regiões brasileiras estão aprendendo a enfrentar a falta de dinheiro [aquele que compra qualquer coisa, em qualquer lugar]. Adotaram um dinheiro novo. É a moeda social. Moeda Social Local Circulante, também chamada de circulante local, complementar ao Real (Moeda Brasileira - R$), criada pelo Banco Comunitário. Historicamente, a proposta de se criar alternativas dessa espécie veio à tona durante os anos 1980, numa vila próxima à cidade de Vancouver, no Canadá. Michael Linton, um analista de sistemas, colocou em vigor o Lets (Local exchange trading system), quando o poder aquisitivo local decaiu em razão da recessão econômica advinda com a crise na indústria madeireira e a transferência de uma base aérea dos EUA para outra província. O Lets se configura como um clube de troca, onde o dinheiro oficial é substituído por uma moeda própria.


As moedas sociais asseguram o desenvolvimento ao favorecer que a riqueza gerada no local circule na própria comunidade. O dinheiro é um instrumento da circulação de mercadorias - o valor de troca dos produtos no sistema capitalista é expresso em moedas, através dos preços. Serve como unidade de medida para se efetuar essas trocas. A moeda social surge na economia solidária como alternativa ao escambo, e possui características próprias. Porém, na prática, o mercadinho solidário funciona como escambo da seguinte forma: a pessoa chega com um potinho de doce de leite, que ela faz com um pouquinho de leite e açúcar, mas ela precisa do macarrão. No local, ela chega e troca o doce de leite pelo macarrão que precisa. Isso é o que ela pode fazer e é a possibilidade que tem de se sustentar com o que produz. A ideia das moedas sociais é essa mesma: mostrar que amizade e união fazem economia. Substituir o "cada um por si" do mundo real e dos reais, por um lugar onde "todos são por um e um por todos".


Em verdade, o dinheiro é neutro – nem é bom, nem é mau em si. Utilizado para o bem, dinheiro é instrumento de Deus. Porém, cobiçado, ou se dele fizermos mau uso, dinheiro é instrumento de infelicidade. Na parábola dos talentos, Jesus mostra que lucro, longe de ser mau, é o alvo de trabalho e investimentos. Ao mesmo tempo, nos ensina que o que se ganha deve ser usado para os propósitos do bem. Na parábola, a condenação cai sobre o homem que não usa sua oportunidade - dinheiro é para usar, não para esconder ou guardar. É como o sangue que precisa circular no organismo social. Se ficar estagnado, provoca a "trombose" na sociedade. Logo, o dinheiro que ganhamos deve ser usado nesta ordem: assistência social, compra do mês, contas e prestações, outras necessidades, poupança, lazer e compras avulsas.


Um dos pontos cruciais da tese epicurista é que, se temos dinheiro e não temos amigos, nada temos. Jamais seremos livres, e nunca nos iremos sentir verdadeiramente felizes se não optarmos por uma vida baseada na reflexão. Por que, então, escolhemos coisas caras se elas não podem nos trazer alegria extraordinária? De acordo com Epicuro, somos influenciados por "opiniões vãs", que não refletem a hierarquia natural de nossas necessidades, enfatizando o luxo e a riqueza, e raramente a amizade, a liberdade e a reflexão. Para muitos fanáticos pelo dinheiro, o Ter é mais importante que o Ser. "Nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores."(1)


Não estamos tratando, aqui, de exploração comercial do dinheiro. Porém, de uma nova maneira de promover a integração das pessoas ao mercado de trabalho. Valorização do ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica. O circulante local tem lastro no Real (R$), ou seja, para cada moeda emitida, existe, no banco comunitário, um correspondente em Real.(2) Como experiência, a Alemanha se tornou um verdadeiro laboratório de projetos de moedas sociais desde 2003, e há mais de 50 projetos em desenvolvimento.


Não podemos dizer que o dinheiro é instrumento do mal, muito pelo contrário, pois o dinheiro é suor convertido em cifrão. É urgente que lhe demos funções nobres, lembrando que a moeda no bem faz prodígios de amor. Porém, vale refletir o preceito de Paulo, acima, qual seja: "tendo sustento e com o que nos cobrirmos, estejamos, com isso, contentes". Essa lição deve ser sempre ponderada quando nos faltam recursos financeiros. A circulação do dinheiro é uma condição importante para que a prosperidade apareça. Porém, raros são os indivíduos que mantêm uma relação equilibrada com o dinheiro, sem traumas, sem culpas, sem excessos de qualquer natureza.


Dinheiro e avareza não se deveriam misturar, pois os avarentos não gostam de "meter a mão no bolso" e, quase sempre, deixam de colaborar, financeiramente, com as obras sociais. Há muitos confrades, ativos participantes nos trabalhos das inúmeras Instituições Espíritas, espalhadas pelo nosso País, que mudam de assunto, tão logo o apelo, que lhes são dirigidos, implique na emissão de um cheque ou na entrega de algumas cédulas para socorrer os mais necessitados. É comum observarmos companheiros nossos, apresentando claros sinais de uma vida confortável, portando-se como se não tivessem a mínima condição de ajudar o próximo através de um serviço de assistência social espírita.


Sempre que nos fixarmos a atenção no dinheiro, reflitamos nas aflições que ele pode suprimir. Meditemos em nosso saldo financeiro, ainda que mínimo, transformado em socorro a um enfermo ou em alegria de uma criança. "Frequentemente, a quantia que julgamos modesta e sem qualquer significação, uma vez aplicada em benefício de outrem, pode ser transubstanciada no reconforto e na benção de muitos."(3) Com o passar do tempo, "observaremos a importância do dinheiro, à margem das próprias necessidades, por instrumento potencial de trabalho e educação, progresso e beneficência, à espera de nossas resoluções para construir e servir."(4)



Referências:


1) Cf. 1 Timóteo 6:6-10;


2) As moedas são produzidas com componentes de segurança (papel moeda, marca d’água, código de barra, número serial) para evitar falsificação. Disponível no site http://www.bancopalmas.org.br/oktiva.net/1235/secao/10043>, acessado em 10/04/2009;


3) Xavier, Francisco Cândido. Rumo Certo, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1971;


4) Idem.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.