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O despertar da solidariedade

O despertar da solidariedade



As razões culturais, religiosas e científicas que explicam por que o ser humano se sensibiliza e estende a mão a quem precisa de ajuda


Por Rodrigo Cardoso, Carina Rabelo e Renata Cabral


No Tibete do Dalai-lama, reconhecidamente uma das figuras mais solidárias do planeta, há um ditado segundo o qual ninguém está isento de ser sensibilizado pela dor alheia. Talvez porque seja assim mesmo que aconteça na vida real – não somente na província asiática. Mesmo o mais cínico dos mortais fica incomodado e vira o rosto ao presenciar o sofrimento de alguém estirado no chão. Esse exercício de se colocar na pele do outro, conhecido como compaixão, é natural do ser humano. E está em alta, segundo a percepção de especialistas no assunto. Grandes corporações têm adotado o discurso da sensibilidade social para agregar valor às suas marcas porque perceberam que a sociedade considera isso cada vez mais importante. A recente enchente em Santa Catarina, que matou 127 pessoas e desalojou 27 mil, comprovou o fato ao colocar sob o holofote, além da tragédia, um outro dado: a generosidade do povo brasileiro.


Seis mil pessoas, aproximadamente, abandonaram seus afazeres em diversas partes do Brasil e desembarcaram em Santa Catarina para oferecer auxílio. A mobilização foi tanta que a Defesa Civil do Estado chegou a pedir para que a população parasse momentaneamente de fazer doações, porque os estoques já não comportavam a quantidade de objetos que chegavam. Ao todo, foram arrecadados R$ 25 milhões, 4,3 milhões de quilos de alimentos, 2,5 milhões de litros de água, um milhão de quilos de roupa, além de brinquedos, materiais de higiene pessoal e outros utensílios. “Foi impressionante o desprendimento das pessoas. Havia milhares delas dispostas a dedicar seu tempo, e até correr riscos, pelos outros”, avalia Márcio Luiz Alves, diretor da Defesa Civil do Estado. No meio dessa mobilização exemplar, porém, descobriu-se ovelhas negras furtando as doações.


O analista de sistemas carioca Brunno Pessoa pediu férias da multinacional em que trabalha para prestar socorro em Santa Catarina. Aos 27 anos, ele decidiu se engajar em projetos sociais no meio do ano, depois de sofrer com a falta de solidariedade das pessoas que o cercavam no momento em que descobriu uma doença neurológica. “Esta será a primeira de muitas empreitadas”, conta ele, que descarregou caminhões e fez a triagem de alimentos que chegavam a Blumenau. Brunno está pagando do próprio bolso a estadia, o transporte e a alimentação no Sul.


Ajudar pessoas cujos destinos não afetariam a vida de quem estende a mão a elas, como faz Brunno, é ser solidário pelo apelo ético. Trata-se de um processo que demanda aprendizagem, uma vez que a tendência do ser humano é ser egocêntrico – somos acostumados a ser generosos apenas com a nossa rede de convivência. Há ainda um outro conceito de solidariedade presente no mundo moderno e que nasce da interdependência. A idéia básica é “cuide do terreno do lado porque, se ele ficar sujo, sua casa se desvaloriza”.


O humanismo aflora quando percebemos que o que acontece com os outros nos afeta. Nesse caso, a solidariedade abrange a idéia de cuidar para garantir o próprio futuro – discurso comum dos ecologistas. “Mas preocupar-se com quem não vai devolver nada imediatamente, que é a generosidade além do cálculo, nasce com a compaixão”, explica o coordenador de pós-graduação em ciência da religião da Universidade Metodista de São Paulo Jung Mo Sung, autor de Competência e sensibilidade solidária: educar para a esperança.



Escolha de vida


Somente a compaixão é capaz de transformar a comoção diante de uma tragédia em altruísmo contínuo. Muita gente faz o bem e esquece. A solidariedade, no entanto, é um modo de ver e viver. É mais do que uma ação de caridade. “Escolhi ser médica para ajudar os mais pobres”, conta a catarinense Zilda Arns, 74 anos, que fundou a Pastoral da Criança há 25 anos. Como ela, a socialite carioca Gisella Amaral, 68 anos, formou-se em enfermagem, depois de já ter o título de jornalista, por achar que com a segunda carreira seria mais útil.


Graças a sua rede de relacionamentos, Gisella auxilia 39 instituições a captar recursos por meio de eventos beneficentes. “Meu trabalho são as obras sociais. Sempre me fez muito bem”, diz. Premiada pelo Unicef, pela Unesco e indicada ao Nobel da Paz em quatro ocasiões, Zilda, hoje, auxilia dois milhões de gestantes e crianças menores de seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres por meio de 270 mil voluntários distribuídos em 17 países. “Minha família inteira sempre esteve envolvida com atividades solidárias. Então, era natural que eu me envolvesse também”, afirma.


A generosidade pura está em ações como as de Zilda e Gisella, não em doações que garantam abatimento no Imposto de Renda. Quem também se vale do discurso de “dar aos pobres é emprestar a Deus para garantir um pedaço no céu” igualmente não está sendo solidário. “Isso é investimento, caderneta de poupança”, critica o teólogo Fernando Altemeyer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), que tratou do tema compaixão em sua tese de doutorado em ciências sociais. Mais: vai contra a teologia cristã, que prega que Deus não precisa de barganha para salvar alguém.



Empresários do bem


O empresário João Doria Jr., que na semana passada organizou em São Paulo o evento beneficente Natal do Bem, não faz distinção quando o assunto é generosidade. “A pessoa que oferece sua contribuição em forma de tempo, talento, nome ou dinheiro é generosa, independentemente da contrapartida, que pode ser melhorar sua imagem pessoal, marketing ou desconto no imposto”, diz.


Com o Natal do Bem, João Doria e outros empresários arrecadaram em uma noite R$ 3,7 milhões em prol de oito entidades carentes. Para participar da sexta edição do evento, o interessado tinha de desembolsar entre R$ 20 mil e R$ 250 mil por uma mesa que lhe dava o direito de desfrutar de um jantar e um show de Ivete Sangalo. De abastados como Ivan Zurita, presidente da Nestlé, que contribuiu com R$ 1 milhão, estiveram no hotel de luxo que sediou a ação cerca de mil pessoas, entre autoridades e celebridades.


Mas por que a generosidade muitas vezes traz consigo outras intenções? A explicação é cultural. Diferentemente da espécie animal, que socorre o outro por instinto, o ser humano segue um determinismo moral e não biológico na hora de estender a mão a quem precisa. Ou seja, podemos direcionar uma atitude nobre de forma egoísta ou egocêntrica, como, por exemplo, presentear a empregada doméstica no fim do ano com uma cesta de Natal para camuflar o salário pífio pago a ela durante o ano. Ser correto, no entanto, é prover a ela um ordenado justo.



Exercício de cidadania


Justiça, aliás, é a palavra que traduz em hebraico o ato de fazer caridade, vocábulo que não existe no dicionário judaico. “O bem tem de ser feito pelo bem em si, não contando com algo em troca”, diz o judeu Meyer Joseph Nigri, presidente do conselho da construtora Tecnisa, que pagou R$ 80 mil por uma mesa no Natal do Bem. “Muitos fazem uma boa ação achando que Deus vai ajudá-lo lá na frente. Eu penso diferente.” Nigri faz parte do conselho de uma dezena de instituições, das quais é presidente em quatro. A Tecnisa destina 0,1% das vendas para doações, o que se traduz, este ano, em R$ 1 milhão. Conta ainda com projetos sociais, como alfabetização em obras, por meio do qual cerca de 1.500 funcionários aprendem a ler e escrever em uma sala de aula improvisada no terreno da construção.


Presidente da empresa de contact center Avaya, o mineiro Cléber Morais também faz gestão imbuído do espírito de generosidade. Além de implantar um comitê voluntário no trabalho, ele espalhou pela empresa caixas para a arrecadação e seus funcionários podem passar um dia fora da sede, a cada três meses, oferecendo treinamento voluntário. Foram arrecadados na Avaya, até o momento, 3,4 toneladas de alimentos, centenas de livros, cobertores, leites e 400 brinquedos, que serão entregues em uma instituição de caridade por funcionários vestidos de Papai Noel. “Colocar o funcionário frente a frente com o semelhante necessitado é importante para que ele sinta o espírito da ação”, diz Morais. “A sensação de paz, o retorno espiritual que um ato desses dá é inexplicável.”


Há, porém, uma explicação médica. A moeda de troca emitida pelo corpo humano ante o stress verdadeiro de ajudar outra pessoa são neurohormônios como serotonina e dopamina, ligados à sensação de bem-estar. “Faz bem ser bom”, diz Ricardo Monezi, psicobiólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, estudos apontam que o exercício da cidadania promove ainda a produção de endorfina, que possui função analgésica. Daí decorrem o alívio e a leveza relatados. “Me sinto no paraíso quando consigo ajudar alguém”, afirma Vasti Gomes Macedo, 75 anos. Ex-bóia-fria que trabalhou como babá e empregada doméstica, ela sustenta hoje o Lar Beneficente de Vasti, uma creche comunitária que cuida de 112 crianças em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Faz isso com a renda que recebe da aposentadoria (R$ 830) e doações.


Especialista em medicina comportamental, Monezi explica que todo ser humano é programado para se preocupar com o semelhante. Quando, então, ele presencia uma situação de adversidade, o cérebro elabora o sentimento da compaixão e ativa o sistema límbico cerebral, espécie de QG dos aspectos emocionais. Este, por sua vez, passa a funcionar como um centro de logística, distribuindo tarefas para diferentes partes do corpo, que se transformam em ações na prática. “A complacência com o próximo parte da molécula e vai até o divino”, reforça o teólogo Altemeyer.



A genética explica


Faz sentido, uma vez que para um ser estar vivo é necessário que dois tenham um vínculo sexual, amoroso, conjugal. Senhor do universo em termos de consciência, o homem, porém, é frágil: depois do nascimento, ele é totalmente dependente de outras pessoas por cerca de dois anos. Um animal, por sua vez, já é dotado de autonomia horas ou semanas depois de vir ao mundo. “Não dá para pensar ser humano sem vínculos. A solidariedade é o que nos define e distingue”, completa o filósofo Eulálio Figueira, da PUC.


Tão logo pôde fazer uma escolha na vida, o psiquiatra paulista Otávio Prado Alabarse, 32 anos, optou por ser solidário. Aos 16, distribuía alimentos, agasalhos e brinquedos, enquanto seus pais davam aulas em escolas públicas como voluntários. Aos 22, cursando medicina, passou nove semanas prestando atendimento e pesquisando doenças e infecções em Rondônia, no Vale do Ribeira, entre São Paulo e Paraná, e no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Após a conclusão do curso, inscreveu-se em um projeto da Marinha e, durante um ano, prestou serviços de vacinação e atendimento às comunidades ribeirinhas do rio Amazonas, de Belém à Colômbia.


No ano passado, formado psiquiatra, realizou o sonho de integrar o grupo Médicos Sem Fronteiras e passou cinco meses em uma missão no Iraque. Alabarse não se esquece do calor de 55ºC e de ataques a refugiados que deixaram 400 mortos e 650 feridos. No hospital para vítimas de guerra, atendeu pacientes em estado de choque que perderam parentes, mutilados e desfigurados pelo fogo das explosões. As tentativas de suicídio também eram comuns. Segundo ele, os iraquianos estavam acostumados a receber apenas atendimento de emergência e não tinham acesso à psicoterapia.


“Muitas mulheres não se curavam da depressão por não ter o direito de se expressar”, conta Alabarse, que, hoje, se dedica ao projeto de tirar os pacientes dos manicômios e integrá-los às famílias. “No Iraque, vivi a experiência mais marcante. É um exercício único a inserção no mundo deles.” Solidariedade é isso: reconhecer o valor do outro e arregaçar as mangas sempre.


Colaborou: João Loes


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 19 de dezembro de 2008.



José Antonio M. Pereira* comenta


Embora o destaque da reportagem seja sobre as explicações culturais, religiosas e científicas para a solidariedade, o que nos chama mais a atenção é o fato do assunto ter sido matéria de capa da Revista ISTOÉ. Ainda somos muito mais sensibilizados pelas notícias sobre a violência, acidentes, guerras, e por isso esses temas vendem muito mais. Parabéns à ISTOÉ por ter apostado em algo diferente.


Interessante também a constatação da compaixão estar em alta. Notamos que, se existe aumento da violência e dos problemas sociais, também as inciativas solidárias se multiplicaram de anos para cá. A matéria vem confirmar nossas observações.


Notável também a afirmativa do psicobiólogo, especialista em medicina comportamental, Ricardo Monezi: "Somos programados para nos preocuparmos com o semelhante." Mas se isto é verdade, como o mundo tem mostrado sempre mais fortemente, sua face cruel? É como se Deus nos criasse príncipes, e nós mesmos nos transformássemos em sapos.


Os Espíritos nos dizem que uma das Leis que regem nossa vida moral é a Lei do Progresso. O que nos leva à conclusão de que a humanidade irá melhorar, e melhora sempre num processo contínuo, ainda que lento. E dizem também que todas as Leis de Deus estão escritas em nossa própria consciência, ou seja, já sabemos o que é o bem. Não é, em outras palavas, o que o especialista afirma?


Por isso, é possível que estejamos assistindo a uma revolução silenciosa, sem tanto destaque na mídia. Talvez o beijo da crise de humanidade que vivemos há séculos esteja nos fazendo voltar a sermos príncipes.


* José Antonio M. Pereira trabalhou principalmente na área de evangelização espírita juvenil e atualmente é médium da Casa de Emmanuel e integrante da Caravana Fraterna Irmã Scheilla, no Rio de Janeiro. Também é colaborador da equipe do Serviço de Perguntas e Respostas do Espiritismo.net.