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Os ônibus ateus de Londres

Os ônibus ateus de Londres



Britânica arrecada o equivalente a 375 mil reais em doações para uma campanha que questiona a existência de Deus. Com o dinheiro, o transporte público na capital inglesa ganhará propagandas ateístas


Andres Vera


"Quando o filho Dele vier, ele encontrará fé na Terra?". Essa foi a mensagem religiosa que despertou a ira da jornalista inglesa Ariane Sherine, de 28 anos. Ela caminhava pelas ruas de Londres quando reparou em dois ônibus que circulavam com o slogan. A publicidade ainda trazia um endereço na internet. Sherine não acredita em Deus e não tinha por que buscar respostas divinas para seus problemas com o transporte londrino. Mas sua desconfiança virou curiosidade. Ela visitou o site religioso e leu a seguinte ameaça: “Você será condenada a separar-se de Deus e passará a eternidade em tormento no inferno”. Sherine não achou aquilo nada engraçado, e pensou numa provocação a altura para estampar os mesmos ônibus vermelhos de sua cidade. "Provavelmente, Deus não existe. Agora, pare de se preocupar e curta a vida". A guerra santa estava comprada.


Sherine então ligou para a agência que regulamenta a publicidade no Reino Unido, a Advertising Standards Authority, para se queixar do anúncio que a mandara ao inferno. A funcionária disse que aquela propaganda havia recebido outras duas reclamações, mas que a agência nada podia fazer. A frase que condenava os ateus estava escrita num site, e não num ônibus. Sherine ficou irritada. Lembrou-se de uma propaganda da cerveja Carlsberg: "Provavelmente a melhor cerveja do mundo", dizia o slogan de um publicitário inspirado pela falsa modéstia. Quantas pessoas haviam reclamado daquilo? A funcionária da agência consultou seus arquivos. "Nós não recebemos nenhuma reclamação contra eles", disse. A fabricante de cervejas havia incluído a palavra "provavelmente" para não ter problemas na Justiça. A solução da Carlsberg inspirou Sherine. A partir daquele momento, Deus provavelmente deixou de existir. Ela contou a história em um artigo escrito no mês de junho no jornal britânico The Guardian. "Se 4680 ateus lerem isso, e todos nós contribuirmos com 5 libras cada, é possível financiar um ônibus ateu em Londres", escreveu a jornalista.


Sherine e seus colaboradores pretendiam inicialmente colocar pôsteres em 60 ônibus durante um período de quatro semanas. Precisavam de 5500 libras (o equivalente a cerca de R$ 18 mil). Mas a idéia cresceu. A campanha ganhou o apoio da British Humanist Association, um grupo que promove causas ateístas no Reino Unido, e do acadêmico britânico Richard Dawkins, autor do livro Deus, um delírio. Apenas Dawkins, ferrenho crítico do papel de todas as religiões, doou 5500 libras. A repercussão foi imediata. Em uma semana de arrecadações, a campanha recebeu mais de 110 mil libras (R$ 375 mil), cerca de 20 vezes o valor esperado. Com os bolsos cheios, a campanha poderá ganhar ainda mais espaço na paisagem londrina.


Colaboradores de Sherine já manipularam imagens digitalmente para ver a mensagem ateísta na fachada de shoppings e outros prédios comerciais. Os ônibus, principais personagens da guerra santa de Sherine, deverão circular com o slogan a partir de janeiro de 2009.


Alguns setores da Igreja receberam a idéia com diplomacia. “Essa campanha será boa se fizer as pessoas pensarem nas questões mais profundas da vida”, disse um reverendo da Igreja Metodista. O grupo de discussão religiosa Theos, fundado pelo arcebispo de Canterbury, doou 50 libras. Os críticos da campanha dizem, no entanto, que o dinheiro arrecadado poderia ter outro destino. Polêmica à parte, a idéia de Sherine é – provavelmente – o melhor slogan ateu da história da propaganda.


Matéria publicada na Revista Época, em 29 de outubro de 2008.



Carlos Miguel Pereira* comenta


O fato de vivermos em liberdade e num estado democrático, uma conquista que os nossos antepassados obtiveram à custa de enormes lutas e dificuldades, implica estarmos dispostos a aprender a conviver com a enorme diversidade de opiniões e estilos de vida que existem. Para isso, necessitamos de aceitar a realidade tal e qual ela se apresenta, mesmo quando outras pessoas discordam e criticam as nossas crenças e ideais mais íntimos. Respeito para com os direitos alheios, não procurando choques e afrontamentos fúteis e desnecessários, compreendendo que a liberdade de expressão pode produzir excessos naturais, mas é um direito de todos que não podemos prescindir, seguindo o caminho que escolhemos de forma tranquila e segura, esse é o verdadeiro testemunho de tolerância. A intolerância perante as diferenças é um dos obstáculos que é premente superar para que possamos criar uma sociedade onde todos se sintam bem, independentemente da sua raça, orientação sexual, condição social, religião ou de serem crentes, ou não, em Deus. Para tal, precisamos ultrapassar os nossos melindres, a ideia que os assuntos religiosos não devem ser debatidos com argumentos racionais, a arrogância de pensar que somos donos da verdade e a noção que qualquer opinião divergente nesta área religiosa é um insulto grosseiro à nossa fé que urge rebater de qualquer forma.


Durante séculos, as questões religiosas foram motivo para guerras brutais e massacres sangrentos, justificados pela fé e praticadas em nome de Deus. Ainda hoje, neste planeta com 4,5 bilhões de anos, existem povos que, em nome do seu próprio Deus, matam e propagam terror, convencidos que é essa a vontade de Deus. Isso aconteceu e acontece porque o conceito de Deus foi deturpado em várias religiões, inserindo-lhe uma componente mística, antropomórfica e material. Foi criado pelo homem um Deus à sua imagem e semelhança: vingativo, imponente, prepotente e intransigente, que castiga quem não cumpre as suas leis e é implacável para quem não o segue.


Para a Doutrina Espírita, esse Deus que diz "você será condenada a separar-se de Deus e passará a eternidade em tormento no inferno" não existe. Esse Deus que privilegia quem acredita nEle em detrimento dos que não acreditam não existe. Esse Deus, que só protege os adeptos das respectivas religiões e persegue os que não as aceitem, não existe. Para a Doutrina Espírita, Deus não é uma divindade pessoal e antropomórfica, mas a inteligência suprema, a consciência cósmica, o agente supremo estruturador, a mais sublime manifestação do amor e da justiça, cuja essência e manifestação se estendem em todas as dimensões do Universo e não um ser exclusivamente preocupado com o homem e com este insignificante planeta do Sistema Solar.


O que alguns daqueles que negam a existência de Deus ignoram, estando isso explícito nos cartazes que irão ser colocados nos transportes públicos ingleses, é que, para muitos, acreditar e viver em Deus não é ter-lhe temor, mas sim apreciar e dar valor à vida, encantar-se pela sua incrível beleza e complexidade, aproveitar da melhor forma esta enorme oportunidade que nos foi concedida, encontrando nesse fato um sentido para a nossa existência. Isso significa entender que o Universo de que fazemos parte e a própria Vida, não são uma conjugação casual de umas quaisquer partículas materiais, mas sim um processo dinâmico e teleológico, onde se trabalha a evolução da consciência e do Espírito imortal, e em que o esforço e dedicação individual e coletiva são fundamentais para podermos atingir níveis cada vez mais elevados de progresso cultural, moral e social, caminhando para níveis crescentes de felicidade individual e coletiva.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.