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Clérigo egípcio pede que fiéis rezem menos e trabalhem mais

Clérigo egípcio pede que fiéis rezem menos e trabalhem mais



Rodrigo Durão Coelho
Da BBC Brasil no Cairo


A preocupação com excessos na expressão de religiosidade por parte da população egípcia - que estaria afetando a produtividade do país - levou um importante clérigo a recomendar que as pessoas rezem menos e trabalhem mais.


“Rezar é algo bom... 10 minutos devem ser suficientes”, diz a fatwa, ou decreto religioso, de Sheik Yusuf Qaradawi, publicado em sua página na internet.


Apesar de parecer uma contradição – um religioso mandando seus fiéis rezar menos – a fatwa de Qaradawi foi elogiada por outros religiosos, que disseram que o Islã não se opõe à produtividade.


Um estudo do governo concluiu que os 6 milhões de trabalhadores estatais trabalham, de fato, apenas 27 minutos por dia.



"Se Deus quiser..."


A influência de hábitos ligados a prática da religião sobre a produtividade é perceptível no cotidiano.


Muçulmanos devotos rezam cinco vezes por dia, duas delas durante o horário comercial diurno. E nos últimos anos, o número de pessoas que abraçam a fé com maior devoção tem aumentado.


Um dos motivos apontados são as cada vez mais numerosas escolas religiosas (ou madrassas) abertas com dinheiro saudita, que ensinam uma vertente mais radical do islamismo sunita, o wahabbi.


Além disso, em um país que vive sob o comando do mesmo presidente há 27 anos - em um regime secular com leis de emergência que restringem a atuação política -, muitos consideram que a religião é uma forma de expressar oposição e descontentamento para boa parte da população.


A crise econômica que atravessa o país é ainda outro fator apontado por aproximar as pessoas da religião.


Em anos recentes, locais de trabalho e mesmo estabelecimentos comerciais passaram a disponibilizar espaços apropriados para as pessoas ajoelharem e rezar. Quanto maior a devoção, maior o status social da pessoa.


O problema é que muita gente está gastando um tempo cada vez maior nesse ritual, que inclui a lavagem dos pés, mãos, braços, cabeça e rosto.


E, se, durante a oração propriamente dita, a pessoa resolver recitar um dos versos maiores do Alcorão (o livro sagrado dos muçulanos), a interrupção pode chegar a meia hora por vez.


É comum perguntar quanto tempo vai demorar tal serviço e escutar a resposta seguida de Inshallah (por exemplo, "duas horas... se Deus quiser").


O problema é que se o serviço levar oito horas, a pessoa está eximida de responsabilidade porque se assume que ‘Deus não quis’.


Muitos consideram a expressão Inshallah, que se tornou um maneirismo lingüístico, um símbolo da crescente religiosidade do país.


“Não se falava tanto Inshallah há 20 anos. Hoje muita gente coloca a expressão no final de qualquer frase, sem necessariamente um sentido além de demonstrar que se trata de uma pessoa pura, religiosa”, diz o comerciante Saed.


Outro símbolo de devoção que vem ganhando prestígio, além do véu para as mulheres e o Inshallah, é a zebiba, ou ferida na testa das pessoas, sinal de que ela se curvou a ponto de tocar o chão por várias vezes.


“Antes apenas pessoas mais velhas tinham a zebiba, depois de rezar por vários anos, mas agora muita gente tem”, diz a estudante Muna.


“Meu pai rezou a vida inteira e não tem marca”, diz ela, que é uma das várias pessoas que dizem acreditar que a zebiba, por ser desejável, pode ser fabricada artificialmente, por vezes usando um ferro quente.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 26 de junho de 2008.



José Antonio M. Pereira* comenta


A Doutrina Espírita, compreendendo o estudo do mundo espiritual e suas relações com o mundo material, bem como suas conseqüências ético-morais, nos mostra a inutilidade de determinadas práticas religiosas que a humanidade adotou tradicionalmente através dos séculos. Embora respeitando quem quer que seja adepto dessas práticas, o estudo do Espiritismo termina por combater a ignorância relativa às coisas espirituais. E quem o estuda seriamente tem uma grande oportunidade de  mudar seus hábitos.


Isso não significa que para o espírita a oração é inútil, muito pelo contrário. A oração, sendo o nosso meio de comunicação com Deus e os Espíritos superiores que obedecem aos seus desígnios, nos permite pedir, agradecer, enfim, conversar com o Pai. E estabelecendo este canal com o alto, nos tornamos mais aptos a receber as melhores intuições, ajudar melhor a todos que nos cercam e a nós mesmos, melhorando nossa proteção espiritual.


Podemos orar nos momentos próprios em voz alta, ou a qualquer momento em silêncio sem que isso interfira em nossas tarefas diárias. No entanto, a melhor oração é a própria prática do bem. E praticar o bem não significa apenas a beneficência - ajudar ao necessitado -, mas também cumprir nossos deveres no trabalho, na escola, no lar e aqueles relativos a nós mesmos, como estudar, ir ao médico, ter bons hábitos de higiene, e ainda mais: cuidar da nossa saúde psicológica e espiritual.


Assim, na prática espírita não cabe o profissionalismo religioso, nem ritualísticas, nem deixar de lado nossas obrigações com o mundo. Só há espaço para o estudo esclarecedor, o passe que nos permite a transfusão de energias com a ajuda dos Espíritos, a comunicação com eles através da mediunidade bem aplicada, a caridade em todas as suas expressões, e a prece sincera.


Em todas as escolas religiosas há homens de boa vontade, por isso esperamos que Sheik Yusuf consiga combater os excessos. E quem sabe isto não seja importante para impedir, no futuro, o crescimento do fanatismo e da intolerância.


* José Antonio M. Pereira trabalhou principalmente na área de evangelização espírita juvenil e atualmente é médium da Casa de Emmanuel e integrante da Caravana Fraterna Irmã Scheilla, no Rio de Janeiro. Também é colaborador da equipe do Serviço de Perguntas e Respostas do Espiritismo.net.