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Gravidez na adolescência não é só drama de novela

Gravidez na adolescência não é só drama de novela



Recentemente, na novela A Favorita, Mariana, personagem de Clarice Falcão, descobriu uma gravidez inesperada em plena adolescência e deixou desesperada sua mãe Catarina, vivida por Lilia Cabral. Os noveleiros de plantão sabem muito bem: o assunto não é novidade nos roteiros, mas sempre ganha pontos no ibope.


Afinal, não é só na ficção que as famílias passam por esse drama. Que o diga Sarah Palin, governadora do Alasca e candidata à vice-presidente dos Estados Unidos, ao lado do republicano John McCain. Com ideais conservadores e de uma família evangélica que prega a abstinência sexual, Sarah descobriu recentemente que sua filha, Bristol, de 17 anos, está grávida.


Os números mostram friamente uma realidade vivida por famílias de todas as classes sociais. A proporção de nascimentos de filhos de mães menores de 20 anos no Brasil caiu de 20,8%, em 2003, para 20,6%, em 2004, segundo a pesquisa Estatísticas do Registro Civil, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no ano passado. Este é o menor percentual desde 1997, quando a proporção havia sido de 20,4%.


Aumentando a escala da pesquisa para um prazo de 10 anos, porém, verifica-se uma elevação no número de gravidez na adolescência. Entre 1994 e 2004, os percentuais cresceram mais nas regiões Nordeste (18,4% para 23,9%), Norte (20,8% para 25,4%), Sul (17,8% para 19,1%) e Sudeste (17,0% para 17,7%) e caiu apenas na região Centro-Oeste (22,7% para 22,1%).


Em plena era da Internet e da comunicação instantânea, não se pode creditar esse aumento da gravidez indesejada simplesmente à falta de informação. Segundo o obstetra Antônio Júlio Barbosa, do Hospital Santa Catarina, são vários os fatores envolvidos. "A permissividade dos pais e o típico pensamento mágico adolescente ‘isso nunca vai acontecer comigo’, por exemplo, contribuem muito para a ocorrência de casos, independentemente do ambiente familiar, da cultura e da classe socioeconômica", explica Barbosa.



Gravidez de risco


Para os pais de filhos adolescentes que pensam em ser mais autoritários e fazer os jovens acordarem de vez para a vida, vale um alerta dos especialistas. O caminho para prevenir a gravidez indesejada ainda é o diálogo e o investimento na educação. A saída não é apenas repreender, mas apontar para os jovens todos os riscos associados - desde a relação sem preservativos até as complicações durante a gestação. "É preciso alertar sobre as chances de se contrair uma doença sexualmente transmissível", diz Yong Joo, ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade São Camilo.


Muitas grávidas até escondem a barriga da família durante meses, por exemplo, ficando desprotegidas sem as avaliações e exames obrigatórios durante o período pré-natal. "Mães prematuras costumam ter um comprometimento menor com seus bebês", garante o obstetra Antônio Julio Barbosa. Além disso, ainda de acordo com o médico do Hospital Santa Catarina, o corpo feminino só está maduro para uma gravidez a partir dos 18 anos.



Maturidade antecipada


"Uma gravidez na adolescência está sempre atrelada a problemas emocionais: uma garota sem a companhia do parceiro ou sem o apoio da família", explica o médico Antônio Julio.


Com o bebê no colo, não tem jeito, as responsabilidades irão brotar e nessa fase uma grande mudança ocorre no comportamento da jovem família. "A transição para a vida adulta ocorre muito mais rapidamente. E depois vem a sensação de não ter aproveitado tudo o que poderia na adolescência", relata Talita Biason, hebiatra (a profissional especialista em adolescentes) do Hospital Santa Catarina.


De acordo com a médica Talita, a maioria dos pais adolescentes abandona os estudos - mesmo que temporariamente - e tende a se inserir no mercado de trabalho mais cedo. "Há estudos, principalmente norte-americanos, que dizem que pais adolescentes ganham menos que outros profissionais. E, a longo prazo, tem um perda maior da renda", diz a hebiatra. "Isso é um reflexo da falta de preparo, provocada pelo abandono da escola", completa.


Talita concorda que dificilmente uma pessoa com menos de 18 anos irá pensar nessas conseqüências. No entanto, é necessário que pais e professores alertem para as mudanças provocadas por uma gravidez antes que ela aconteça. "É preciso ajudar o jovem a planejar melhor sua vida", reitera.



Força-tarefa


Todos sabem que o nascimento de um bebê acarreta, entre outras coisas, um custo financeiro que não é dos menores. Mesmo que o jovem pai ou a mãe decida trabalhar, dificilmente o salário será suficiente para sustentar uma família. É nesse momento que entram em cena os avós.


"Os avós devem ajudar nos cuidados práticos, no suporte emocional e até mesmo financeiramente. Mas é preciso ter o cuidado para não assumirem a tarefa de pais. A responsabilidade é dos adolescentes: são eles que devem aprender a trocar as fraldas, a levar o bebê ao pediatra, e assim por diante", alerta Talita. Dessa forma, os pais adolescentes se comprometem mais com o filho e melhoram a relação familiar.


Matéria publicada no Portal Terra.



Claudia Cardamone* comenta


No jornal Folha de S. Paulo, de 22 de setembro de 1987, foi publicado um artigo intitulado "Sexualidade e Gravidez na Adolescência", onde já se notava grande crescimento no número de adolescentes que ficavam grávidas, e parte disto, acusa o artigo, está na ignorância e no preconceito, e também no fato da educação sexual não acompanhar a liberdade sexual. Na década de 90, registrou-se uma tendência a aumentar a incidência da gravidez na adolescência, e vale lembrar que naquela época referia-se a uma faixa etária de 14 a 18 anos, que foi por muito tempo considerada a etapa ideal para a mulher ter filhos.


Mais de 21 anos se passaram, surgiram novos meios de comunicação, como a internet, a educação sexual alcançou um crescimento enorme, diversas campanhas de esclarecimento foram feitas, diversas instituições de apoio à gestante adolescente foram criadas, mas os índices de gravidez na adolescência não diminuíram, demonstram até um crescimento constante. Mesmo com acesso a todo tipo de informação e a variados métodos anticoncepcionais, as jovens continuam engravidando muito cedo.


Talvez este tipo de experiência ainda sejam provas necessárias ao progresso do ser humano. Seria esta gravidez apenas a conseqüência do acaso pela irresponsabilidade de dois jovens apaixonados ou simplesmente seduzidos pelo prazer? Se realmente as coisas se desenvolvessem dessa forma, um número enorme de reencarnações ocorreriam sem uma mínima forma de planejamento pretérito, e no momento da concepção simplesmente atraíram o espírito que estava mais perto.


Durante todos estes anos, mudaram as sociedades, as pessoas recriaram aspectos e valores culturais, evoluíram intelectual e moralmente, mas estes comportamentos, apesar de terem algumas causas distintas, permaneceram os mesmos. No momento que a evolução espiritual dos espíritos que encarnam neste orbe não mais necessitar passar por este tipo de prova, estes comportamentos não mais existirão.


Isto não quer dizer que a gravidez na adolescência é normal e deve ser aceita. Nesta etapa da vida, o corpo feminino ainda não está pronto para a maternidade, nem fisicamente nem emocionalmente. Mas somente com educação, com tolerância e com um diálogo fraterno e sincero, pode-se alertar dos reais perigos de uma atividade sexual irresponsável e descontrolada.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.