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A boa educação dos avós

A boa educação dos avós



Pesquisas mostram que participação ativa na criação dos netos torna as crianças mais ajustadas


CARINA RABELO


No livro Sítio do Pica-pau Amarelo, Monteiro Lobato apresenta a personagem Dona Benta como uma senhora de 60 anos, de cabelos brancos, que passa o dia na cadeira de balanço fazendo tricô ou na cozinha. A sua maior felicidade são seus dois netos, Pedrinho e Narizinho, para quem adora contar histórias. Símbolo das vovós, Dona Benta já não representa as avós de hoje, que são mais ativas e presentes na educação dos netos. “Todas as semanas cuido dos caçulas e freqüento aulas de jardinagem, dança e decoração enquanto eles estão com a mãe”, conta Estella Mirzeian Hajjar, 82 anos, orgulhosa de ter acompanhado de perto o crescimento de sete netos ao longo de 23 anos. “Eles ficavam comigo todos os fins de semana e no período das férias.” Na labuta semanal com os gêmeos Pedro e Valentina, três anos, ela troca fralda, faz comida, dá mamadeira e coloca os pequenos para dormir. Com os mais velhos, conversa todos os dias, nem que seja pela internet. “Um deles não queria fazer faculdade. Eu e o avô conversamos com ele e mostramos a importância do estudo. Hoje, formado e realizado na profissão, ele nos agradece”, conta.


A colaboração dos avós nas tarefas práticas da criação dos netos não é uma novidade, mas o suporte emocional, compreensão e disciplina são as principais contribuições dos mais modernos. “Eles dão conselhos, são carinhosos, estabelecem limites e participam das reuniões escolares”, afirma Jacqueline Marangoni, psicóloga pesquisadora da Universidade de Brasília, que realizou um estudo sobre a participação dos avós na vida de 74 jovens de 12 a 19 anos. Pesquisa semelhante realizada na Inglaterra pela Universidade de Oxford, que acompanhou 1,5 mil crianças e adolescentes, revela que eles crescem mais felizes e ajustados quando os avós assumem parte da educação delas.


O árbitro de futebol Antônio dos Santos, 61 anos, divide o seu tempo entre ensinar os netos, Luma, 18, e Victor, 11, a jogar bola e levá-los ao médico, à escola e ajudar nos exercícios de casa. “Procuro não ser um avô ranzinza. Quero que eles me vejam como um amigo com quem podem contar”, diz Antônio, que também adora pegar um cinema com eles no fim do dia. “Meu avô quebra aquela imagem do idoso que fica o dia todo em casa e só sai para jogar bingo. Ele é animado para tudo”, orgulha-se Luma.


O papel dos avós como autoridade na família é mais freqüente nas camadas mais populares, em que os pais nem sempre têm condições de assumir a criação dos filhos. Os irmãos Davis, 14 anos, e Débora, 15, moram desde que nasceram com a avó Francisca Inácio da Silva, 58. Por dificuldades financeiras, os pais transferiram a ela a responsabilidade sobre os filhos. “Sou eu quem decide tudo sobre a vida deles”, afirma. Eles não saem de casa sem avisar e são constantemente cobrados a ter um bom desempenho na escola. A avó, sempre alerta, observa com atenção o comportamento dos amigos dos netos e os sites que eles acessam. “Fui muito liberal com os meus filhos porque não tinha tempo para cobrar deles. Não deixei o mesmo acontecer com os meus netos, que são mais educados e obedientes”, avalia Francisca.


Nas classes média e alta, prevalece o aconselhamento e a amizade. “Meu avô me ensinou a lutar jiu-jítsu e minha avó, a cozinhar. A casa deles é um refúgio para mim”, diz Roberta Seixas, 19 anos, que desde a infância os visita todos os fins de semana. “A gente se diverte na cozinha, enquanto eu a ensino a preparar carne assada e bolo de chocolate. É preciso que a gente confie neles para que eles confiem na gente”, diz Venina Gomes da Silva, que aposta numa criação com liberdade e limites.


A boa convivência entre as gerações é uma iniciativa de institutos sociais em todo o País, como o programa Sesc Gerações, que promove cursos de música, teatro e dança com adolescentes e idosos na mesma turma. “Eles ficam apreensivos no início, mas, com a convivência, surgem grandes amizades”, diz o coordenador do programa, José Carlos Ferrigno. No Hiléa, centro de convivência em São Paulo que reúne cerca de 45 idosos, os jovens têm sido constantes nas reuniões familiares. “Os netos de hoje estão mais dispostos a se integrar ao mundo dos avós do que dez anos atrás”, acredita Cristiane D’Andrea, diretora do instituto. A psicoterapeuta Lídia Aratangy relaciona o fenômeno à mudança na qualidade de vida do idoso nos últimos anos, que levou a terceira idade a um dia-a-dia mais ativo. “Há mais semelhanças do que diferenças entre adolescentes e idosos nos dias de hoje, principalmente o tempo livre para fazer o que gostam e o interesse pela tecnologia”, afirma.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 23 de julho de 2008.



Claudia Cardamone* comenta


Os avós sempre foram personagens destacados na vida de uma criança. Por que ele são tão importantes na vida da criança? Porque eles são os pais, com quem não temos que conviver constantemente. Eles nos educam, mas nos mimam. Eles "normalmente" já estão aposentados, não trabalham mais, então possuem mais tempo para se relacionar com os netos, às vezes, por não terem tido tempo de se relacionarem com os filhos como desejavam.


Esta geração que alcança o status de avós, foram os jovens rebeldes, que lutaram por conquistar o seu espaço. Eles se aposentaram, mas não querem ficar parados, crêem que ainda existe um mundo enorme a ser descoberto, por isso as relações com os jovens têm se tornado mais estreitas.


Ser avó ou avô é ter uma nova oportunidade de compreender como se saiu na prova da maternidade e da paternidade e tentar fazer melhor. Por exemplo, se um pai não teve muito tempo para passear com o filho, devido ao excesso de trabalho necessário, agora percebendo a falha anterior, procura sair sempre que possível com o neto. E assim vai construindo a melhor forma de criar filhos e netos, na sua concepção.


Muitas vezes, os espíritos reencarnam numa determinada família porque são devedores ou cobradores de faltas pretéritas dos pais. Então a relação com os pais pode ser imcompreensivelmente tumultuada, mas até certo ponto mais tranqüila com os avós, a quem nada devem, nem cobram.


É muito bom ver que os nossos idosos querem continuar vivendo plenamente e que os jovens querem desfrutar cada vez mais desta companhia.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.