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No caminho do bem

No caminho do bem



A exploração sexual de crianças e jovens é um problema grave nas estradas brasileiras. Saiba como uma ONG usa os caminhoneiros para combater esse mal


Margarida Telles


Depois de dirigir o dia todo nas estradas do sul da Bahia, temendo assaltos e desviando de buracos na pista, o caminhoneiro S.S. pára em um posto de gasolina na beira da estrada e só pensa em descansar. No entanto, não raro é acordado ao longo da noite com sucessivas batidas na porta da cabine de seu caminhão. “Quase todo posto tem meninas, muitas vezes ainda crianças, oferecendo programa”, afirma. Atualmente, ele só dirige em rodovias baianas, mas nos 22 anos em que percorreu as estradas de todo o país presenciou inúmeros casos de colegas que se envolveram com a prostituição de meninos e meninas. “Eu não sei entender por que isso ocorre tanto”.


A exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil é um problema que chamou a atenção até da rainha Sílvia, da Suécia, filha de mãe brasileira e pai alemão, que morou no país durante muitos anos de sua infância. Sempre que falava sobre o problema, ela sentia que as pessoas ficavam constrangidas ou se omitiam. A rainha decidiu que era hora de agir e criou, em 1999, a World Childhood Foundation, uma instituição cujo objetivo é defender os direitos de crianças e adolescentes em situação de risco, sobretudo quando se trata de violência sexual. O Brasil, onde há cerca de 100 mil crianças e adolescentes vítimas da exploração, tornou-se prioridade, com a fundação da Childhood Brasil.


Foi a partir dessa indignação da rainha que a ONG criou o Programa Na Mão Certa, iniciado em 2006 e voltado para o combate à exploração infanto-juvenil nas estradas. A idéia do projeto é usar os caminhoneiros, justamente a categoria mais exposta a esse “mercado” da prostituição, como agentes de proteção de crianças e adolescentes. Para conseguir isso, a ONG capacita, por meio de workshops, funcionários de transportadoras ou empresas com grande operação de logística. Chamados de multiplicadores, são eles que terão a responsabilidade de conversar diretamente com os caminhoneiros sobre os males da rede de prostituição infantil.


Desde o ano passado, o Na Mão Certa conta com o apoio de uma figura muito popular entre os caminhoneiros. É o radialista Pedro da Silva Lopes, o Pedro Trucão, de 55 anos, que comanda diariamente o programa Globo Estrada, na Rádio Globo. “O diferencial dessa iniciativa é ver o caminhoneiro não como um usuário da prostituição, mas sim como um agente no combate a um crime”, afirma Trucão, que tem uma audiência de 110 mil ouvintes por minuto em todo o Brasil. Vindo de uma família de classe média de Osasco, na Grande São Paulo, ele nunca subiu numa boléia para transportar uma carga. Sua paixão por caminhões começou na infância, quando costumava acompanhar o dono de um armazém do bairro onde vivia nas entregas a bordo de um Chevrolet Brasil. “A importância do caminhoneiro é pouco discutida pela sociedade, e eu queria mudar isso”, diz. Na rádio, Trucão incentiva o “profissional da estrada” a denunciar, por meio do Disque 100, a exploração sexual infanto-juvenil.


Com a ajuda do radialista, a Childhood Brasil espera, até 2010, sensibilizar 75% da categoria – estimada entre 1,5 milhão e 2 milhões de motoristas – e capacitar 20% dela por meio dos multiplicadores. Até hoje, 128 funcionários de 70 empresas já foram orientados pelo projeto, que receberá um investimento de R$ 700 mil neste ano. A meta é chegar a 500 companhias parceiras da iniciativa em dois anos.


O empregado que participa das palestras do Na Mão Certa, geralmente do setor de recursos humanos, recebe apostilas com informações sobre como abordar o caminhoneiro, deixando claro que ele não está sendo questionado sobre se já explorou sexualmente crianças ou jovens. Elder Cerqueira, psicólogo responsável pelas oficinas de treinamento, diz que o multiplicador costuma conversar com o motorista na hora da contratação. “Mas, no caso de empresas pequenas, que não possuem curso de formação para novos funcionários, o contato pode ser feito aos poucos, de modo mais pessoal”.


Em alguns casos, o multiplicador é um caminhoneiro mesmo, como Ilário Francisco Nascimento, de 65 anos, há 40 anos nas estradas – 23 deles numa transportadora de São Paulo. “Sento com o pessoal e explico o problema. Devagarzinho, a gente vai fazendo a cabeça da rapaziada”.


Além de conscientizar os caminhoneiros, a Childhood Brasil buscou parceiros para atuar nos locais onde costuma ocorrer esse tipo de crime. Com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Organização Internacional do Trabalho, a entidade fez o mapeamento dos 61.000 quilômetros de estradas federais e levantou 1.918 pontos vulneráveis à exploração. A situação mais grave é constatada nas rodovias da Região Norte, principalmente no Pará. Nesses lugares, geralmente postos de gasolina e paradas para descanso dos caminhoneiros, são distribuídos cartazes e um adesivo para colar no caminhão. Com os dizeres “Vamos acabar com a exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas”, já recebeu dos motoristas o sugestivo apelido de “espanta-cafetão”.


O coordenador de ensino da PRF, Ricardo de Oliveira Betar, diz que o combate à exploração na beira da estrada não é o suficiente.“Se não for feito um trabalho social fora das estradas, no local de onde saem essas crianças, acabamos só deslocando o problema”. Por isso, os policiais rodoviários que atuam nessas áreas recebem treinamento não só para tratar as vítimas de maneira apropriada, mas também para conscientizar as famílias de baixa renda, que muitas vezes consentem com a exploração de seus filhos para complementar a renda familiar.


O plano da Childhood Brasil é conduzir o Na Mão Certa até que a sociedade possa sustentá-lo por conta própria, por meio da fiscalização, do combate e da prevenção à exploração sexual nas rodovias. A missão não é simples e precisa ser reforçada constantemente. É o que faz o radialista Trucão, que encerra seus programas sempre com a seguinte mensagem: “Na estrada, use sempre o bom senso. Dê exemplo o tempo todo. Isso é muito importante. Tá na estrada? Boa viagem! Valeu!”.


Matéria publicada na Revista Época, em 26 de setembro de 2008.



Claudia Cardamone* comenta


Este projeto, de grande importância humanitária, vem demonstrar a forma adequada de produzir mudanças comportamentais numa sociedade, através do conhecimento e da educação.


A definição para educação é, pelo Dicionário Aurélio, "Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social". O processo de educação é o processo de desenvolvimento do ser humano, e o desenvolvimento intelectual e moral leva ao seu progresso espiritual.


Outra coisa que se destaca neste projeto é demonstrado nesta frase: O diferencial dessa iniciativa é ver o caminhoneiro não como um usuário da prostituição, mas sim como um agente no combate a um crime, é ter fé no ser humano, acreditar no seu potencial de crescimento e desenvolvimento, é acreditar que o mal não existe, que o que existe é a ignorância do bem. Demonstrar ao caminhoneiro e ensinar-lhe como fazer é uma forma de dar-lhe a oportunidade de caminhar no bem.


Neste planeta abençoado, muitos, infelizmente, cultivam o conceito do "ninguém se importa": Ninguém se importa comigo, ninguém se importa com o outro, Por que vou perder meu tempo me importando? Se não fizer por mim, ninguém o fará. Nós somos acomodados ao nosso bem estar material, não econômico propriamente, e como ainda temos a perseverança pouco desenvolvida, temos a vontade, mas preferimos aguardar que o outro tome a iniciativa.


Outra coisa, que é nossa característica, é a ansiedade. Nos esquecemos constantemente que somos espíritos eternos, que a vida existe e sua manifestação terrestre é uma gota num oceano inimaginável. Mas temos pressa! Queremos colher os frutos de nossas próprias sementes, porque somos egoístas, não queremos plantar para que outros saboreiem frutos saudáveis. Oramos a nosso anjo guardião que tenha paciência com nossas imperfeições, que se não der nesta vida, tentaremos corrigir na próxima, mas damos ao outro esta dádiva? De dar-lhe o tempo necessário para a mudança, sem pressão, com amor e caridade.


Hoje conseguimos conscientizar uma pessoa, amanhã serão duas a trabalhar e conscientizarão muito mais, e somando forças nos tornamos cada vez mais fortes e iluminados. Por que um espírito superior é sempre um ser iluminado? Não é porque sua luz brilhe, mas porque ele se dedica a desenvolver a luz que existe no outro, e o faz com tanto amor e dedicação, que estas luzes acabam por iluminá-lo. Sozinho, mesmo superior ele não brilha.


* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.