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Moça, escreve para mim?

Moça, escreve para mim?



O Brasil tem mais de 48 milhões de iletrados e deficientes visuais. Como é o dia-a-dia dos voluntários que escrevem cartas por eles – e os ajudam a se inserir na sociedade


Solange Azevedo


O passatempo favorito do massoterapeuta Petrúcio Ramos da Silva, de 64 anos, é enviar cartas – mesmo sem poder escrevê-las. Nascido em Garanhuns, Pernambuco, ele é deficiente visual desde a adolescência. Vivendo em São Paulo há quatro décadas, acumulou mais de cem correspondentes espalhados pelo Brasil, Portugal e Angola. “Só não trato de política, religião e futebol”, diz. Para tratar de todo o resto, e enviar notícias a familiares e amigos, Petrúcio toma emprestadas as mãos de parentes e até de desconhecidos. Estes, Petrúcio encontra no Escreve Cartas – uma iniciativa do governo paulista que funciona nos postos do Poupatempo de Itaquera, na zona leste da capital, e de Santo Amaro, na zona sul.


O Poupatempo é uma espécie de “agência de despachos” oficial que agiliza o atendimento a quem precisa se acertar com a burocracia do Estado, como tirar carteira de identidade ou de trabalho. Nos postos onde funciona o Escreve Cartas, cerca de cem voluntários atendem a pedidos que, além das missivas, incluem o preenchimento de formulários e a elaboração de currículos. O serviço é gratuito.


De acordo com a Organização Mundial da Saúde, há no Brasil cerca de 550 mil cegos no Brasil e 3,1 milhões de pessoas com limitações severas na visão. Os números do IBGE revelam que 14,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais são analfabetos. A eles somam-se os analfabetos funcionais, com menos de quatro anos de estudo. No total, o país tem 45 milhões de iletrados. Para eles, as palavras são uma barreira da vida social. “Vivemos numa sociedade em que ler e escrever são condições básicas de cidadania”, afirma Bruno Dallari, professor de Lingüística da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Quem não lê e não escreve fica à margem”.


Nem todos que procuram o Escreve Cartas são analfabetos ou deficientes visuais. No início de setembro, uma senhora de 83 anos foi ao posto de Santo Amaro pedir que preenchessem a ficha de solicitação de seu primeiro CPF. Minutos depois, uma menina de 14 anos pediu o mesmo tipo de ajuda. Muitas pessoas têm sérias dificuldades para preencher formulários quadriculados com letra de forma. Outras não conseguem botar suas idéias no papel de maneira clara para redigir uma carta. Envergonhadas, raramente assumem suas limitações. Costumam dizer: “Você escreve para mim? Esqueci de trazer os meus óculos”. Ou: “A minha letra é muito feia”.


Em quase sete anos, os voluntários do Escreve Cartas atenderam a mais de 192 mil pedidos. O projeto foi inspirado no premiado filme Central do Brasil (1998). Na história, levada ao cinema por Walter Salles, a protagonista, Dora, interpretada por Fernanda Montenegro, ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na principal estação de trens do Rio de Janeiro. Dora cobrava pelo serviço, mas nem sempre colocava as cartas no correio. Na vida real, todas são postadas. “Logo que me tornei voluntária, muita gente brincava: ‘Você não vai fazer como a Fernanda Montenegro, né?’”, diz a dona de casa Aparecida Pinheiro dos Santos, de 75 anos. Aparecida já escreveu cartas ditadas pelo pernambucano Petrúcio. Uma delas comunicando a morte de um parente a uma prima dele, moradora de Propiá, Sergipe.


O projeto do governo paulista não é o único em funcionamento no país. Há voluntários que escrevem cartas também na Estação Central do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, e na Rodoviária Nova, na capital de Sergipe. “É bom existir um lugar assim, onde a gente conversa. Hoje em dia as pessoas não querem mais ouvir as outras”, diz a alagoana Esabete Alves dos Santos Silva, de 57 anos. No dia em que esteve em Itaquera, Esabete mandou duas cartas. Uma, para a irmã Ivonete. “Quero que saiba que amo vocês. Estou com saudade. Quero notícias suas e de seu filho que não estava bem. Beijos de sua irmã, Beta”. A outra, para o Palácio da Alvorada. No primeiro parágrafo, um pedido: “Excelentíssimo senhor presidente Lula, quero fazer parte de algum projeto do governo. Tenho oito filhos. Não tenho marido. Não recebo aposentadoria e nem pensão”. Algumas linhas adiante, um agradecimento: “Nunca na história vi tanta gente entrando na faculdade. Obrigado, o meu filho conseguiu uma vaga de graça”. Além de Lula, outros políticos costumam ser alvo dos missivistas. O governador de São Paulo, José Serra, e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, estão entre os destinatários com mais remetentes desse serviço.


Os voluntários convivem com pedidos esdrúxulos. Alguns, eles deixam passar. Outros, não. Um homem insistiu para que escrevessem uma carta para o presidente americano, George W. Bush. O problema é que ele queria assinar como Ayrton Senna. Outro pretendia avisar a mulher sobre o dia e o horário em que iria assassiná-la. Depois de muita conversa, desistiu da carta – e, aparentemente, do crime.


Algumas das histórias contadas pelos que procuram o serviço se tornam marcantes. “Há uns cinco anos, escrevi uma carta a pedido de um rapaz que tinha aids”, afirma a voluntária Aparecida. “O balcão estava cheio de gente. Ele ditava baixinho para que ninguém escutasse. Queria a ajuda de um programa de televisão para conseguir um tratamento. Os filhos não sabiam da doença e viviam perguntando por que ele tomava tantos remédios. Até hoje fico pensando: o que será que aconteceu com aquele rapaz?” Um homem de uns 50 ou 60 anos, bem vestido e com aparência de advogado, chegou a Santo Amaro questionando: “Quem de vocês tem pai vivo?”. Apenas um voluntário levantou a mão. “Então, quero que você escreva uma carta para o seu pai. Mas eu vou ditar.” A correspondência foi redigida e colocada no correio. Até hoje, ninguém sabe se o tal homem tinha perdido o pai ou se não tinha coragem de dizer a ele o que mandou o voluntário escrever. O conteúdo da correspondência também se manteve secreto.


Manter os voluntários na ativa é uma tarefa árdua. “Muitos são imediatistas. Vêm participar da seleção e querem começar a trabalhar no dia seguinte, sem passar pelo processo de capacitação”, diz a pedagoga Suely Calasans, de 61 anos, coordenadora do Escreve Cartas de Santo Amaro. Outros acham que não terão de assumir um “compromisso”. E que, como não vão receber um centavo pelo trabalho, podem aparecer quando quiserem. Grande engano. Desde o início da década, o voluntariado já não é encarado como uma tarefa amadora nem como uma ação de caridade. “Hoje, buscamos voluntários mais qualificados e que ajam de forma profissional”, afirma Suely.


Cerca de 90% dos voluntários do Escreve Cartas são mulheres. Mais da metade tem entre 40 e 55 anos. São donas de casa, professoras, advogadas. A aposentada Clarisse Mendonça Aun, uma senhora de 83 anos, elegante e de fala mansa, foi secretária de um ex-prefeito. Durante 30 anos, Clarisse atuou como voluntária na Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Viúva, ela venceu um AVC e passou por cirurgia de cataratas, mas não deixou o Escreve Cartas. “Quando entrei no projeto, achava que no século XXI ninguém mais ia querer escrever cartas. Mas me enganei. Fico triste ao ver que, ainda hoje, muita gente é analfabeta ou tem tanta dificuldade com a escrita”, diz.


Matéria publicada na Revista Época, em 19 de setembro de 2008.



Sergio Rodrigues* comenta


Este é um exemplo da prática da caridade em sua verdadeira expressão. Somente quem vivencia na realidade o problema, pode avaliar o quanto é sofrido querer se comunicar e não reunir condições para tanto. Esses voluntários, que doam parte do seu tempo, de sua inteligência e do seu amor para atender aqueles que procuram o serviço, estão, sem dúvida, praticando um gesto nobre e digno de ser seguido. Estão fazendo o bem sem ostentação, o que o torna ainda mais meritório.


Muitos confundem a caridade com a beneficência envolvendo coisas materiais. Mas, como ensinam os Espíritos, a verdadeira caridade é sempre bondosa e benévola, sem levar em consideração valores materiais. É claro que a doação de coisas materiais não é reprovável. O que não é caridoso é a maneira como habitualmente faz-se a doação de algo a quem precisa: mecanicamente, sem amor, como que para se livrar do pedinte. Esse trabalho voluntário, ao contrário, exige algo além da doação material. Exige paciência, compreensão para com as dificuldades das pessoas que buscam ajuda e que, muitas das vezes, não conseguem expressar de modo claro o que desejam, conforme relata a matéria. Exige amor no trato, para que as pessoas não se sintam humilhadas. Em resumo, é um gesto de amor ao próximo.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.