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Tragédia na virtude

Tragédia na virtude



A morte de um operário japonês por excesso de trabalho expõe um problema nacional


Roberta Abreu de Lima


Em fevereiro de 2002, o japonês Kenichi Uchino ocupava o cargo de gerente de controle de qualidade numa fábrica de automóveis da Toyota, na província de Aichi, quando caiu fulminado em pleno expediente, às 4 horas da manhã. Tinha apenas 30 anos. A causa da morte foi ataque cardíaco decorrente de excesso de trabalho. Apenas naquele mês ele havia cumprido 106 horas extras. Passara todo o semestre anterior trabalhando, pelo menos, oitenta horas a mais por mês. A maior parte dessas horas extras não era remunerada. A empresa as considerava "trabalho voluntário". Alguns dias antes de morrer, ele disse à mulher, Hiroko: "O momento em que mais me sinto feliz é quando estou dormindo". O caso de Uchino não é um acontecimento isolado no Japão. A morte por sobrecarga de trabalho, um problema reconhecido pelo governo japonês desde a década de 80, é tão comum que há um vocábulo para defini-la: karoshi. A viúva de Uchino passou quase seis anos brigando na Justiça por uma indenização para ela e seus dois filhos. No mês passado, conseguiu que as horas que o marido trabalhou sem remuneração fossem consideradas parte integral do salário dele.


A sobrecarga de trabalho se institucionalizou no Japão durante a reconstrução do país após a II Guerra. Nos anos 90, depois de uma série de ações judiciais movidas por famílias de vítimas de karoshi, o governo criou leis impondo penalidades às empresas que expunham seus funcionários a jornadas excessivas. As companhias, então, reduziram as jornadas que constavam nos contratos de trabalho, mas passaram a obrigar os empregados a trabalhar horas a mais sem remuneração. Era isso ou perder o emprego. A prática se disseminou, combinada à cultura japonesa de sacrifício da vida pessoal em nome do país ou da empresa.


Segundo um levantamento do Ministério da Saúde, do Bem-Estar e do Trabalho do Japão, 355 trabalhadores adoeceram gravemente por sobrecarga de trabalho em 2006 e cerca de 150 morreram. O karoshi, que atingia trabalhadores na faixa entre 50 e 60 anos, agora freqüentemente colhe vítimas na faixa de 20 a 30. As indenizações do governo para os parentes de uma vítima de karoshi podem chegar a 20.000 dólares por ano. Por parte da companhia, a compensação pode ser superior a 1 milhão de dólares. Em sua última semana de vida, Uchino trabalhava no departamento responsável pela construção do Prius, o carro verde de enorme sucesso da Toyota.


1/3 dos japoneses trabalha mais de 12 horas por dia, parte desse período sem remuneração.


Matéria publicada em Veja.com, em 9 de janeiro de 2008.



Bianca Cirilo* comenta


Qual é o nosso limite?


Vivemos um tipo de cultura íntima, própria do Espírito, onde o excesso ainda faz parte de nossas escolhas inconseqüentes.  Genericamente, o ser humano ainda não quer aprender a lidar com a Lei de Deus tal como ela se apresenta em sua característica essencial: mediadora entre o que convém e o que não convém ao nosso equilíbrio espiritual.


Deus estabeleceu suas Leis com a finalidade de educar o Espírito em desenvolvimento, nos diferentes setores da vida humana, a fim de que ele pudesse aprender, gradativamente, a decidir pela sua felicidade, inicialmente relativa, até que se completasse o ciclo das encarnações necessárias e a alma alçasse vôos mais altos, progredindo em outra escala.


Por que será que ainda é tão complicado, para muitos de nós, aceitar o limite como organizador da nossa vida exterior e interior e não algo que nos tolhe, nos priva? O limite é considerado por uma grande maioria de pessoas como um fator que cria barreiras, impõe privações, retirando o prazer das coisas. Daí, queremos nos “esbaldar” como se não pudéssemos perder nada, como se aproveitar as diferentes situações e oportunidades representasse fazer tudo ao mesmo tempo até morrer, sem ter, na verdade, a oportunidade de sentir o que fazemos, de perceber o sabor de nossas ações.


Vejamos a proposta de “O Livro dos Espíritos” quanto a Lei do Trabalho. 674: A necessidade do trabalho é lei da natureza? “O trabalho é lei da Natureza, por isso mesmo que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.”


Destacamos o final da resposta dos Espíritos - nos obrigamos a trabalhar mais do que o necessário porque aumentamos necessidades.


É interessante analisar, portanto, a questão da necessidade, a partir da questão 716 de “O Livro do Espíritos” que traz o seguinte: Mediante a organização que nos deu, não traçou a Natureza o limite das nossas necessidades? “Sem dúvida, mas o homem é insaciável. Por meio da organização que lhe deu, a Natureza lhe traçou o limite das necessidades; porém, os vícios lhe alteraram a constituição e lhe criaram necessidades que não são reais.”


Observamos aspectos importantíssimos dessa questão que aborda a Lei de Conservação, mas que guarda estreita relação com a questão do trabalho que está sendo analisado na reportagem japonesa.


Os Espíritos Superiores apontam o problema do homem insaciável; aspecto fundamental para compreensão das relações sócio-econômicas na atualidade. É próprio da cultura capitalista não satisfazer propositalmente, a fim de garantir a circulação de mais uma versão da falta de limite, expressa pela criação de “necessidades desnecessárias”.


O processo de condicionamento a esses valores materiais, onde consumir tornou-se um automatismo impensado, faz com que as diferentes empresas obriguem-se a produzir mais, explorar mais seus funcionários, atender mais e mais a um desejo que não se satisfaz devido a grande competitividade. E é isso que faz o esquema funcionar – cria-se a necessidade em cima daquilo que o consumidor desejaria, mas que, no fundo, ele só deseja porque alguém passou a apresentar essa coisa como indispensável. Será que todos os bens de consumo que são fabricados pelo homem são, de fato, essenciais? A que? A quem?


O que é perigoso e até perverso no sentido de maldoso é justamente a produção de um tipo de desejo insaciável, onde o homem passa a se tornar refém de si mesmo. Como se fosse uma máquina, ele passa a funcionar como produtor de algo que, muitas vezes, nem ele mesmo pode usufruir, ou porque não detém condições financeiras que possibilitem a aquisição daquele bem ou porque se aliena a tal ponto de não questionar quais são os bens fundamentais ao seu bem-estar.


O funcionário em questão talvez não teve a chance de sequer analisar sua relação com o trabalho. Surge então, uma reflexão: Será que sabemos o que é o trabalho, sua função, seu valor, seu objetivo? Será que ainda vemos trabalho como uma mera atividade remunerada que acaba sendo exaustiva, quando, na verdade, o trabalho não está vinculado a uma condição de escravidão, ele pode e deve ser prazeroso, satisfazer não só a organização física, mas também a psicológica?
 
Segundo a questão 675 e 676 de “O Livro dos Espíritos”, o trabalho é “toda ocupação útil” e além disso, ele é um “meio de aperfeiçoamento da inteligência.” Seria então, útil e inteligente trabalhar até morrer? Seria inteligente e útil esgotar as próprias forças sem poder saborear o fruto desse esforço devido ao cansaço? O que será que estamos fazendo das Leis Perfeitas e Harmoniosas que Nosso Criador nos disponibiliza para sermos felizes?


Vale ressaltar que para isso, é preciso que o homem resgate a idéia de que o trabalho constitui também a identidade espiritual do Ser. Trabalho é um valor, sem o qual o Espírito perde sua função principal de construtor de seu destino. O trabalho remunerado é apenas uma das facetas mais básicas dessa potencialidade que é a capacidade de produzir, presente na Natureza como Lei Divina. Tudo em a Natureza trabalha para organizar, para transformar, para progredir e não para se exaurir inutilmente, se esgotar inconseqüentemente, mas sim crescer.


Quando nos alienamos na nossa identidade transitória – o ego – nos relacionamos com nossa atividade profissional tal qual este funcionário japonês, sem medir a distância entre o EU, a CULTURA e a PROFISSÃO. Se considerarmos que trabalhar é para o país apenas, onde eu sou somente um fazedor de coisas, um reprodutor inconsciente de valores coletivos autorizados por mim pelos vícios dos excessos de outrora, pela ganância, pelo medo da guerra, enfim, eu vou esquecer que sou um ser humano separado da minha ocupação, que tem outras necessidades essenciais ligadas à afetividade, à família, a mim mesmo, ao lazer, etc.


Daí, o problema do trabalho escravo, que não respeita as próprias forças, pois o respeito dessa condição humana depende do entendimento do que é ser humano, quais são as reais necessidades, o que é indispensável o que não é, etc.


Há outras questões de “O Livro dos Espíritos” que nos dizem assim:


683. Qual o limite do trabalho? “O das forças. Em suma, a esse respeito Deus deixa inteiramente livre o homem.”


684. Que se deve pensar dos que abusam de sua autoridade, impondo a seus inferiores excessivo trabalho? “Isso é uma das piores ações. Todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores, porquanto, assim, fazendo, transgride a lei de Deus”.


Vemos por fim, com esta reportagem, que, infelizmente, em plena Era do Espírito, ainda assistimos empresas como esta que ainda invertem cruelmente o valor do trabalho. É nobre lutar pela Nação, auxiliar com a própria contribuição pessoal o crescimento do nosso país, entretanto, trabalhar como forma de reação a um fantasma, no caso, da sociedade japonesa, o fantasma da guerra, parece complicado. Com todo respeito ao sofrimento de nossos irmãos japoneses, sabemos que a forma como eles encaram a atividade profissional ainda é fruto dessa dor.


Vale deixar uma última reflexão: Até quando vamos subverter a ordem divina? Até quando vamos fingir que não sabemos qual é a ordem?


*Bianca Cirilo é psicóloga há 14 anos, estudiosa da Terapia de Vida Passada e funcionária pública com experiência em grupos. Atua como médium do Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro/RJ, na área de divulgação doutrinária.