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Aborto é rejeitado

Aborto é rejeitado



Carlos Alberto Di Franco*


Pesquisa Datafolha divulgada no final do ano passado constatou um expressivo aumento da rejeição ao aborto no Brasil. Para 87% dos entrevistados, fazer um aborto é algo moralmente errado.


A maioria declara que daria apoio a um filho ou filha no caso de uma gravidez na adolescência, e rejeita a prática do aborto.


Ao considerar a hipótese de ter uma filha que ficasse grávida ainda adolescente, 82% a apoiariam para que tivesse o filho em qualquer situação. Dariam seu apoio para que ela levasse a gravidez adiante.


Apenas 1% dos entrevistados aconselharia o aborto em qualquer situação.


Não chegam a 1% os que a aconselhariam a fazer um aborto, caso o pai da criança não quisesse assumir o filho.


Se fosse um filho a engravidar uma menina, 71% o apoiariam para que ele tivesse o filho em qualquer situação.


Os que aconselhariam um aborto em qualquer situação não somam 1%, e o mesmo acontece com os que seriam favoráveis à interrupção da gravidez por achar o rapaz muito novo para ser pai.


O resultado da pesquisa é uma ducha de água fria na estratégia pró-aborto do ministro Temporão e confirma uma tendência flagrada em pesquisas anteriores.


As campanhas do governo estão de costas para o Brasil real.


Vale acrescentar que, se o projeto do Conselho Federal de Jornalismo estivesse vigorando, caro leitor, hoje certamente eu não estaria escrevendo este artigo.


Mas, como a imprensa brasileira é pluralista e defensora da liberdade de expressão, posso, sem nenhum constrangimento, defender meu ponto de vista, que talvez não esteja, necessariamente, em sintonia com a linha editorial de alguns jornais diários.


Os jornais não amordaçam. Felizmente. Mas os governos, freqüentemente, gostam de ouvir Samba de Uma Nota Só.


Por isso, devemos, todos nós, defender a liberdade de imprensa e de expressão com vigor e coragem moral.


A legalização do aborto, independentemente dos eufemismos de alguns e da ambigüidade do presidente da República, é prioridade do governo Lula.


A opinião pública assiste, atônita, a uma articulada campanha que pretende impor contra a vontade expressa da sociedade, e em nome da ´democracia´, a eliminação do primeiro direito humano fundamental: o direito à vida.


Agora, no entanto, o que se pretende é o aborto amplo e irrestrito. A legalização do aborto, estou certo, é o primeiro elo da imensa cadeia da cultura da morte.


Após a implantação do aborto descendente (a eliminação do feto), virão inúmeras manifestações do aborto ascendente (supressão da vida do doente) - a eutanásia já está sendo incorporada ao sistema legal de alguns países -, do idoso e, quem sabe, de todos os que constituem as classes passivas e indesejadas da sociedade.


O brasileiro é contra o aborto. Não se trata apenas de uma opinião, mas de um fato medido em pesquisa de opinião. Por isso o governo precisa ir devagar com o andor.


A legalização do aborto seria, hoje e agora, uma ação nitidamente antidemocrática. Ademais, existe a questão dos princípios.


A democracia é o regime que mais genuinamente respeita a dignidade da pessoa humana. Qualquer construção democrática, autêntica e não apenas de fachada, reclama os alicerces dos valores éticos fundamentais.


Por isso, não obstante a força do marketing emocional que apóia as campanhas pró-aborto, é preocupante o veneno antidemocrático que está no fundo dos slogans abortistas.


Não se compreende de que modo obteremos uma sociedade mais justa e digna para seres humanos (os adultos) por meio da morte de outros (as crianças não nascidas).


Há um elo indissolúvel entre a prática do aborto, o massacre do Carandiru, a chacina da Candelária e outras agressões à vida: o ser humano é encarado como objeto descartável.


A violência contra a infância abandonada, o surpreendente crescimento da violência infanto-juvenil, o clima de insegurança que se respira nos grandes centros urbanos são a conseqüência lógica da cultura da morte.


É inútil enclausurar-se em condomínios fechados, multiplicar guaritas, erguer muros cada vez mais altos.


A humanidade humanicida não pode esperar sensibilidade da geração que deu à luz, porque os filhos não costumam ser mais generosos e dedicados que seus pais.


Publicado em O Diário do Nordeste, em 20 de janeiro de 2008.


*Consultor, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra.