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"O principal desafio é aceitar que as coisas são imperfeitas"

"O principal desafio é aceitar que as coisas são imperfeitas"



O especialista Gordon Flett afirma que o perfeccionismo exagerado pode criar até problemas de saúde


Thiago Cid


"Faça sempre o melhor e nunca desista". "Acredite em você". Chavões motivacionais como esses bombardeiam as pessoas de todas as formas. Estão na TV, nas letras de música, nas palavras dos professores. O efeito deveria ser positivo, mas quase sempre não é. A sociedade contemporânea parece impor uma ditadura do desempenho perfeito e o resultado é uma legião de pessoas insatisfeitas. Para o psicólogo Gordon Flett, da cátedra de Psicologia e Saúde da Universidade de York, no Canadá, o que esses indivíduos ainda não identificaram é que o seu mal pode ser a própria busca pela perfeição. Em entrevista a ÉPOCA, Flett destaca os efeitos maléficos dos altos padrões de exigência e fala das possíveis origens desse comportamento.


ÉPOCA - Quem é o perfeccionista?
Gordon Flett - É aquela pessoa que deseja tudo absolutamente correto e não admite um único erro. É uma pessoa que se sente extremamente frustrada quando algo sai do planejado. Podem ser pessoas centradas no trabalho, em exames... Ou, em muitos casos, pessoas voltadas ao aperfeiçoamento pessoal.


ÉPOCA - Mas isso é necessariamente ruim?
Flett
- É uma pergunta que me fazem freqüentemente. Da forma como avalio, pode ser recompensador em determinadas circunstâncias. Quando falamos de perfeccionistas, devemos distinguir aqueles que o querem ser em situações particulares, como um cirurgião ou editor que desejam atingir um nível excepcional, e aqueles que querem ser perfeitos em tudo: perfeitos em casa, aparência perfeita, filhos perfeitos. Torna-se um problema quando isso começa a consumir os relacionamentos, quando se usam estes altos padrões para avaliar aqueles com quem se convive. E claro, quando a busca excessiva pela perfeição transforma-se em problemas de saúde.


ÉPOCA - Então há diferentes tipos de perfeccionistas?
Flett
- Sim. Há o auto-motivado, pessoas que agem assim por sua própria conduta para manter as altas exigências que eles mesmo se impõem. Esses dizem: "é importante para mim ser perfeito em tudo que faço". O segundo tipo é aquele que impõe o perfeccionismo a outras pessoas. Eles são muito exigentes com os outros e sua crítica causa problemas de relacionamento. E há o terceiro tipo de perfeccionismo, também chamado de socialmente imposto, que é a percepção de que os outros exigem a perfeição. Esses pensam que somente serão aceitos se forem os melhores. Daí a tristeza e o sentimento de que nunca agradarão ninguém porque as expectativas não param de crescer.


ÉPOCA - Qual o mais comum?
Flett
- O auto-motivado é o mais distinguível por pessoas comuns. É a definição popular. Mas o perfeccionismo imposto socialmente é muito evidente também. O exemplo são relatos do tipo: "eu não quero ser perfeito por mim mesmo, mas os outros me impelem a ser". É um mundo que nos exige a perfeição, seja no trabalho, nos esportes, na aparência. É o mais destrutível e creio que seja tão freqüente quanto o primeiro.


ÉPOCA - E qual a incidência na população?
Flett
- Nunca ninguém fez um estudo a respeito, mas, em termos gerais, está aparentemente crescendo. Pode-se dizer que é proporcional ao interesse crescente pelo tema. Um motiva o outro. É difícil dizer o quão comum é. Entre os universitários, é muito freqüente, e alguns estudos sugerem que entre este grupo de estudantes é tão comum quanto os não-perfeccionistas. Isso faz sentido para áreas que exigem altas perfomances. Está muito relacionado às conquistas individuais. Nunca fiz um estudo entre várias culturas, mas vejo que é recorrente em sociedades muito individualistas.


ÉPOCA - É um problema das sociedades modernas, então?
Flett
- Você pode encontrar exemplos na história. Leonardo Da Vinci não terminava seus projetos e era rigoroso em tudo que fazia. No fim do século 19, a teoria clássica do perfeccionismo foi criada por Alfred Adler, que a desenvolveu depois ao longo da década de 1910 e 1920. Ele já refletia sobre a necessidade de alguns de compensar seus sentimentos de inferioridade tentando ser perfeitos. Na Era Vitoriana existia a imposição de um perfeccionismo moral. De você não era esperada outra coisa senão ser impecável em público. Podemos pensar que essa é a raiz de tudo: fazer as coisas certas em público.


ÉPOCA - O perfeccionismo é uma disfunção?
Flett
- Ele está relacionado a muitas disfunções, como as alimentares - anorexia, bulimia -, ansiedade, depressão... Em níveis extremos, o perfeccionismo em si pode ser considerado uma disfunção. A pergunta é: quando isso se torna uma disfunção. Para mim, a resposta é clara. Quando interfere na satisfação pessoal ou das pessoas à volta. Ou quando impede que as pessoas avancem em seus objetivos. Um exemplo comum é uma pessoa com um projeto profissional que nunca o termina por achar que ele ainda não está bom o suficiente. É patológico quando torna difícil para alguém finalizar suas obrigações. Pode beirar a obsessão.


ÉPOCA - Então está relacionada a outras disfunções também?
Flett
- Sim, está ligada a uma grande variedade de desordens, como ansiedade e depressão. Um caso típico é a depressão infantil, muito ligada à pressão imposta pelos pais para um desempenho sempre impecável. Causa disfunções alimentares e outros problemas de saúde, como estresse crônico. Perfeccionismo é um dos grandes causadores de estresse. E o estresse é sabidamente causador de vários problemas de saúde, como problemas de coração e imunidade baixa.


ÉPOCA - Em casos extremos, isso pode levar ao suicídio?
Flett
- Temos vários casos confirmando essa conexão, especialmente naqueles em que o perfeccionismo é imposto socialmente. Existem muitos exemplos de perfeccionistas famosos que chegaram a este extremo. O número um é a escritora americana Sylvia Plath. Um outro exemplo é o chefe francês Bernard Loiseau. Sua história está contada em um livro chamado O perfeccionista.


ÉPOCA - E como um perfeccionista se vê?
Flett
- Alguns possuem senso crítico e conseguem perceber que a imposição de desafios - o que é saudável - há muito se tornou contraproducente. Na América do Sul temos a cantora Shakira. Você pode ler na internet muitos relatos dela sobre seus problemas de relacionamento com as pessoas com quem trabalha. Mas uma grande parte dos perfeccionistas, aqueles narcisistas que pensam que são muito especiais, não têm o auto-criticismo e a sensibilidade para perceber que o "defeito"está neles. Mas geralmente os perfeccionistas tendem a ser muito auto-críticos. Eles sabem que estão exigindo muito e que ninguém pode ser perfeito, mas o controle disso escapa de suas mãos.


ÉPOCA - Mas que dizer uma confiança alta ou baixa em si?
Flett
- Geralmente os perfeccionistas têm baixa auto-estima e pouca confiança. Eles se sentem incapazes e se esforçam muito para evitar o fracasso. Mas perder faz parte da vida. Exigências inatingíveis só geram frustração. Isso é o principal desafio para estas pessoas: aceitar que as coisas são imperfeitas, estranhas.


ÉPOCA - Mas o senso comum diz que os perfeccionistas são pessoas orgulhosas e arrogantes...
Flett
- Você pode encontrar alguns que parecem não estar conscientes de suas atitudes e do impacto delas nas pessoas ao redor. Parecem querer irradiar perfeição. Nos EUA, acho que o melhor exemplo disso é a Martha Stewart. Seu lema é: "todos deveriam tentar ser perfeitos". Pessoas assim, competitivas, têm uma resposta muito negativa de seus interlocutores.


ÉPOCA - Há algum tratamento para o perfeccionismo que chega a níveis neuróticos?
Flett
- Não sou um clínico, mas já fiz muitos trabalhos a respeito. Sidney Blatt, da Universidade de Yale, fez um estudo indicando que perfeccionistas precisam de um tratamento a longo prazo caso cheguem a um nível neurótico. Vêm de um estilo de personalidade - formada na infância - que levam a distorções de identidade. A pessoa se vê disforme, incompleta, inferior. Nesses casos, é preciso que a pessoa consiga se dar conta de que é preciso baixar os padrões. A chave é proporcionar às pessoas uma forma de responder criticamente às situações que independam da vontade. Precisa ensinar como reagir, por exemplo, quando um erro é cometido. É um aprendizado sobre como viver... Ensinar as pessoas como relaxar, já que o perfeccionismo tem uma ligação simbiótica com a ansiedade. Ensinar as pessoas a ficarem conscientes das suas ações e pensamentos, sem julgamentos, mas percebendo as oscilações de espírito, de ânimo. O problema é que se trata de pessoas muito independentes. A dificuldade é fazê-los enxergar que precisam de ajuda. Para aqueles que realmente precisam de ajuda, não buscar pode ser perigoso.


ÉPOCA - As famílias devem estar alertas para o problema?
Flett
- Sei que a maioria dos perfeccionistas está sofrendo em silêncio. Quando uma pessoa se isola de outras e começam a surgir problemas de relacionamento, pode ser uma depressão qualquer. Mas se você analisar essa depressão, ela advém de um sentimento de inferioridade. Sinal de perfeccionismo. Às vezes, o que esta pessoa precisa é de uma mensagem: você não precisa ser perfeito. Uma coisa que pode indicar o problema e que é muito freqüente são poemas de pessoas que aparentemente não escreviam mas vêem naquilo uma forma de extravasar a angústia.


ÉPOCA - Um elogio pode ser poderoso então...
Flett
- Com certeza. Alguém que tem um trabalho e precisa atingir padrões elevados de rendimentos pode desenvolver angústias por não ter uma recompensa merecida. É a exigência da perfeição sem retribuições. E isso é muito comum em um ambiente de trabalho. Barbara Streisand passou anos longe dos holofotes por causa de seu "medo de palco". O que é isso? A necessidade do elogio, embora muitas vezes os elogios existam em monte. Brian Wilson, dos Beach Boys, extremamente talentoso e bem sucedido, teve a mesma coisa. As pessoas pensam que precisam atingir o mais alto nível, e mesmo quando o atingem, aquilo não é suficiente.


ÉPOCA - Então o medo de palco é um sintoma de perfeccionismo?
Flett
- Quem tem esse problema está tão focado nos possíveis erros que pode cometer que prefere evitar qualquer possibilidade. Muitas vezes as pessoas ficam tão abaladas que não conseguem ir para o palco, fisicamente.


ÉPOCA - Há medicamentos para o tratamento, como acontece nos casos de depressão?
Flett
- Em termos de remédios, não existem tratamentos. Alguns psiquiatras crêem que remédios para ansiedade, com o intuito de proporcionar maior concentração, podem ser utilizados. Mas é algo indireto.


ÉPOCA - Qual a origem do perfeccionismo?
Flett
- É um tipo de personalidade desenvolvida desde os primeiros anos. Fizemos um estudo com crianças de quatro anos e fomos capazes de perceber sinais de perfeccionismo. Pergunte a um perfeccionista desde quando ele o é e a resposta será: desde sempre, pelo que me lembro.


ÉPOCA - Mas é algo biológico, cultural ou ligado à criação?
Flett
- É determinado por muitas coisas. Publiquei um artigo no American Psychological Association, em 2002, chamado Teoria Perfeccionista e Pesquisas para o Tratamento. Neste estudo desenvolvemos um capítulo sobre como as pessoas se tornam perfeccionistas. Elas podem chegar ao mesmo ponto por diferentes caminhos. Com certeza a família exerce um papel decisivo na formação da personalidade perfeccionista. Pressões impostas às crianças, comparações, tudo isso marca. Alguns estudos sugerem que pode haver um fundo genético, um componente hereditário, uma espécie de temperamento herdado.


ÉPOCA - O que o senhor está estudando agora?
Flett
- Estou escrevendo um artigo para a próxima conferência da American Psychological Association sobre perfeccionismo em estudantes universitários, que são pessoas expostas a um ambiente propício para o agravamento dos sintomas. Também estou realizando estudos ligando o perfeccionismo a problemas de saúde, especialmente em pacientes cardíacos. Uma das coisas que afirmamos é que o perfeccionismo pode ter um papel no adoecimento das pessoas. Quando alguém realmente tem uma doença, o perfeccionismo pode piorar tudo. O sistema imunológico despenca. Por exemplo, uma pessoa competitiva, quando fica doente e não pode exercer seu trabalho, precisa de repouso. A vida desta pessoa está baseada em trabalhar duro, alcançar resultados. Ver-se privado disto é extremamente frustrante e pode agravar a própria doença. Se você é um perfeccionista e tudo vai bem em sua vida, isso não é tão ruim. Mas isso não é uma constante na vida.


ÉPOCA - O que é a pior coisa para um perfeccionista?
Flett
- Uma humilhação pública, uma simples falha que pode ser superestimada. A relação entre perfeccionismo e vergonha é direta, especialmente para aquela pessoa muito voltada às pessoas ao redor.


ÉPOCA - Não somos todos um pouco perfeccionistas?
Flett
- Creio que todos podemos ser, em determinados momentos. O ponto é saber distinguir as pessoas que o são em determinadas situações e as pessoas que o são em todas as circunstâncias da vida, nos hobbies, nas relações pessoais. A diferença está na sutileza entre as duas: gostaria de ser perfeito e tenho de ser perfeito.


ÉPOCA - O que o senhor aconselha a um perfeccionista?
Flett
- As pessoas têm de se dar conta que talvez tenham um problema, que elas devem se abrir com alguém. Elas podem ficar surpresas com o benefício que um desabafo pode fazer, e com o número de pessoas que sentem as mesmas coisas que ela. Os perfeccionistas são muito mais propensos a buscar um livro de auto-ajuda do que auxílio profissional. Não ser perfeito é normal. Ser perfeito é anormal. Para as pessoas que acham que o perfeccionismo é saudável para eles, tenho duas perguntas: como estão os relacionamentos e como está a saúde? Não deve estar tão bem assim. E vocês vão ficar espantados ao perceber que a vida continua mesmo se algo não sair como planejado.


ÉPOCA - Sobre os livros de auto-ajuda, eles ajudam ou prejudicam?
Flett
- O que percebemos é que os perfeccionistas são buscadores vorazes de informação. Eles preferem ler um livro e achar as respostas do que falar com alguém. Um livro pode ser útil para deixá-los mais conscientes dos problemas. Mas se eles não estiverem motivados a mudar, não ajuda. De qualquer forma, é bom ter informações em livros. O problema é saber em qual livro está esta informação válida.


Matéria publicada na Revista Época, em 11 de janeiro de 2008.



André Luiz Rodrigues dos Santos* comenta


Em “O Livro dos Espíritos”, capítulo X (Da Lei de Liberdade – Fatalidade), questões 862 e 863, Allan Kardec busca respostas junto aos Espíritos para entender situações vividas por cada indivíduo, especialmente aquelas, cujos efeitos conseqüentes do uso do livre-arbítrio, geram dores morais aparentemente irremediáveis.


Nas questões citadas, observa-se que a causa das frustrações íntimas vêm da não aceitação de si mesmo ou da má absorção do impacto provocado pela rejeição social sofrida por não ser capaz de acompanhar as regras ou os ritmos impostos pelo grupo com quem vive.


Sendo base do instinto de preservação, o homem procura desenvolver à sua volta e dentro de si mesmo os meios para sobreviver, aprimorar-se, satisfazer seus desejos e ansiedades e, acima de tudo, ser aceito. Essas necessidades globais, sendo primárias, fazem parte dos atributos instintivos de que Deus dotou suas criaturas visando seu aperfeiçoamento. Entretanto, em busca da auto-realização, começa a estabelecer metas a serem atingidas, e que muitas vezes superam seus próprios limites.


A sociedade, sendo um organismo vivo e pulsante, conduz seus valores, tendências e modismos por si mesma, sendo movida pela força das unidades que a compõe. A partir daí, impõe-se a força da maioria, incrementada pelo fator intelecto/moral dos indivíduos que, por ainda manter-se em níveis inferiores, naturalmente esses atributos se refletirão no conjunto social.


Segundo análises sobre a causa do comportamento perfeccionista que todos, em maior ou menor grau, apresentam, o orgulho mostra-se como sendo o agente causador desses traumas que, invariavelmente, quando atingindo os graus mais altos desse desequilíbrio, incapacita seu portador para uma vida saudável. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o estado pleno de saúde abrange o bem-estar físico, mental e social. O Espiritismo, sendo uma doutrina fundamentada em ensinamentos de origem extra-física, acrescenta que a saúde espiritual tem importância equivalente às conhecidas, pois, como espírito, é necessário que o indivíduo se relacione de forma harmoniosa com o mundo e com os seres desse plano invisível.


Individualmente, quando o Espírito exige um padrão de excelência de si mesmo para cumprir aquilo a que se propôs fazer para ser feliz, vê-se que o instinto de conservação está agindo silenciosamente. Não há dúvida de que realizar um trabalho de forma eficiente, ser capaz de proporcionar alegria às pessoas, conquistar algo desejado e, da mesma forma, sentir-se integrado ao meio em que vive trazem satisfação pessoal. O orgulho também é um ingrediente que compõe o Espírito desde sua origem. Sem ele, não haveria forma desse ser se desenvolver por si mesmo valorizando-se em suas realizações e em sua própria constituição bio/psico/sócio/espiritual. Porém, como tudo o que diz respeito à natureza humana, os excessos sempre são prejudiciais, inclusive aquilo que não é palpável. Dizemos natureza humana porque nas esferas evolutivas inferiores somente o necessário basta. O ego ainda não despertou.


“O orgulho tem a tendência de criar em torno da criatura verdadeira prisão. Quando se faz manifesto num grupo, exalta-lhe o amor próprio a ponto de distorcer-lhe a razão e a capacidade de julgar o bem e o mal. Leva-o a fechar-se em si mesmo, valorizando-o em seu sentimento de importância. Afasta-o das pessoas comuns, pois para ele tudo que é simples é inferior.” 1


Já nas relações sociais, onde esse indivíduo potencialmente mais influente se desenvolve, através do intercâmbio contínuo com os seres de sua espécie, a falta de equilíbrio no trato com seus próprios padrões acaba interferindo inconscientemente no comportamento alheio. Em oposição, há também as situações em que se vê sendo afetado por investidas mais influentes, nos casos em que seus padrões estão aquém do estabelecido pelo grupo e que, pela sua personalidade ainda não solidificada, cede pela força das circunstâncias. Isso acontece nas diversas esferas de sua existência, seja profissional, familiar, afetiva e/ou acadêmica. É o que se classifica como sendo a “lei do mais forte”.


Joanna de Ângelis traz sua visão em diversos trabalhos tocando nos incontáveis conflitos existentes nos indivíduos gerados por sua insatisfação pessoal. Diz-nos: “Faltando valores morais para um enfrentamento lúcido com a realidade em que limita os movimentos, transfere o sentido de responsabilidade para o próximo, para a sociedade e descarrega a sua mágoa, rebelando-se, anulando-se.” 2


E como se não bastassem esses conflitos criados por eles mesmos, a sociedade decreta padrões de comportamento agravando os distúrbios já existentes. Surgem as ditaduras da beleza, do sucesso, das aquisições, do intelecto, da eficiência, etc, impondo uma filosofia sectária excluindo os “incapazes” ou “incompetentes”. A aceitação da realidade espiritual, já tida como sendo interpretação subjetiva, fica a critério de cada um valendo muito mais o ter que o ser; os valores morais, uma opção; a reflexão sobre si mesmo, uma interferência direta na busca desenfreada pelo prazer e pela perfeição.


Assim, assumindo que é um ser em processo de crescimento, que há desigualdades entre todos os seres, que somente através da atitude caridosa para consigo mesmo e para com seus semelhantes é que conseguirá caminhar rumo à felicidade, somente admitindo que a imperfeição está dentro da normalidade é que cada indivíduo conseguirá libertar-se das correntes que o prendem ao estado de perfeição imperfeita.


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895. Postos de lado os defeitos e os vícios acerca dos quais ninguém se pode equivocar, qual o sinal mais característico da imperfeição?
“O interesse pessoal. Freqüentemente, as qualidades morais são como, num objeto de cobre, a douradura que não resiste à pedra de toque. Pode um homem possuir qualidades reais, que levem o mundo a considerá-lo homem de bem. Mas, essas qualidades, conquanto assinalem um progresso, nem sempre suportam certas provas e às vezes basta que se fira a corda do interesse pessoal para que o fundo fique a descoberto. O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na Terra que, quando se patenteia todos o admiram como se fora um fenômeno.
“O apego às coisas materiais constitui sinal notório de inferioridade, porque, quanto mais se aferrar aos bens deste mundo, tanto menos compreende o homem o seu destino. Pelo desinteresse, ao contrário, demonstra que encara de um ponto mais elevado o futuro.”
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1- O orgulho e a Hipocrisia - José Queid Tufaile Huaixan
2- Joanna de Ângelis – Mensagem psicografada por Divaldo Pereira Franco em 05/03/98 – Salvador/Bahia
3- “O Livro dos Espíritos” – Cap. XII - da Perfeição Moral.


*André Luiz Rodrigues dos Santos é paulista, espírita desde 1991, militar e professor. É membro da Equipe Espiritismo.net, atuando nas áreas de Atendimento Fraterno, divulgação e estudos doutrinários no meio virtual.