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Com a mãe Terra

Com a mãe Terra



Susan Andrews*


Este ano de 2007 é um marco na história humana. De acordo com as Nações Unidas, pela primeira vez em nossa trajetória, a maioria dos seres humanos neste planeta estará vivendo em extensas áreas urbanas, muitos em megacidades e subúrbios com cerca de 10 milhões de pessoas ou mais. Como o economista americano Jeremy Rifkin aponta em seu instigante artigo intitulado "Os riscos de cidades demais", "nos tornamos homo urbanus".


Há alguns séculos, uma pessoa poderia encontrar cerca de 200 a 300 pessoas durante toda sua vida. Atualmente, um habitante de Tóquio, Nova York ou São Paulo pode viver e trabalhar em meio a 220 mil pessoas num raio de dez minutos de sua casa ou do escritório. Certamente, isso está causando um efeito nos ecossistemas planetários, conforme Rifkin afirma. Mas também está causando efeito em nossos ecossistemas internos. O biólogo Edward O. Wilson, de Harvard, diz: "As pessoas podem crescer com a aparência externa de normalidade num ambiente largamente despido de plantas e animais. Mas, mesmo assim, algo de vital importância está faltando, não meramente conhecimento e prazer, mas um amplo espectro de experiências que o cérebro humano está peculiarmente equipado para receber".


Wilson é o autor da muito discutida "hipótese da biofilia" (do grego, "o amor à vida"): a convicção de que os humanos têm uma necessidade biológica de se relacionar com a natureza, que por sua vez é parte de nossa herança evolutiva enquanto espécie. Por mais de 99,997% da história humana, nos lembra Wilson, as pessoas viveram intimamente envolvidas com o mundo natural a sua volta. Essa conexão é parte integrante de nosso desenvolvimento e essencial para a saúde e o crescimento físico e mental.


Foi ao redor dessa idéia seminal que emergiu toda uma nova disciplina, chamada "ecopsicologia". Ela parte do pressuposto de que em seu âmago a psique humana permanece simpaticamente ligada à Terra. A dissociação entre a moderna civilização e o anima mundi, a "alma do mundo", debilita nosso espírito e é uma das causas de enfermidades físicas e mentais. "A repressão de nosso 'inconsciente ecológico'", afirma o historiador Theodore Roszak, é a "causa mais profunda da insanidade coletiva que assola a sociedade industrial."


Contudo, até mesmo o mais tênue fio de seda que nos reconecte à teia da vida da qual somos parte integral pode nos acalmar, nos equilibrar e até nos curar. Pesquisas têm demonstrado que pacientes em estágio pós-operatório se recuperam muito mais rapidamente, com menos analgésicos e complicações, quando as janelas de seus quartos dão para árvores em vez de muros de tijolos. Prisioneiros cujas celas têm vista para o campo ou uma floresta sofrem menos doenças. A recuperação do estresse é mais rápida quando simplesmente fitamos a pintura de uma paisagem natural na parede. E apenas olhar um aquário nas salas de espera de dentistas baixa a pressão sanguínea e reduz a ansiedade e o desconforto durante o tratamento. (Médicos e dentistas, tomem nota!)


Muitos de nós estão saindo de férias nesta época. Como uma amiga me escreveu antes de viajar para o campo: "É lá o lugar do meu encontro com a natureza e comigo mesma. Lá, posso, ao quebrar os galhos secos das árvores, entrar em contato com a rigidez da minha alma, e assim vou burilando as arestas que ainda carrego dentro de mim. Lá, posso respirar ar puro, sentir o perfume das flores do campo e louvar a Mãe Natureza, que não cobra cachê pelos serviços essenciais colocados a nossa disposição".


Em nossos dias longe do zunido da cidade, que possamos testar a "hipótese da biofilia", quando sentirmos os ritmos de nosso cérebro pulsando com as ondas do mar... quando trocarmos nossa inspiração com a expiração das plantas... quando afagarmos a textura da terra à qual algum dia devemos voltar. Boas férias no colo da Grande Mãe.


*Susan Andrews é psicóloga e monja iogue. Autora do livro Stress a Seu Favor, ela coordena a ecovila Parque Ecológico Visão Futuro (www.visaofuturo.com.br).


Matéria publicada na Revista Época, em 05 de fevereiro de 2007.