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O caos chamado Paquistão

O caos chamado Paquistão



Duda Teixeira e Fábio Portela


Às portas da II Guerra Mundial, o estadista inglês Winston Churchill descreveu a União Soviética como "uma charada envolta em um mistério dentro de um enigma". Com suas lutas intestinas violentas, uma ditadura militar infiltrada por extremistas islâmicos e ogivas nucleares prontas para ser disparadas, o Paquistão oferece o mesmo grau de dificuldade para ser decifrado – com a agravante de que o pavio está aceso. O retorno da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto ao país, em outubro, para concorrer às próximas eleições parlamentares, sinalizava a possibilidade de o país vir a ter um respiro democrático, capaz de se contrapor ao crescente fanatismo religioso. A esperança acabou abruptamente no fim da tarde da última quinta-feira, dia 27. Depois de participar de um comício em um parque da cidade de Rawalpindi, vizinha à capital Islamabad, Benazir, de 54 anos, deixava o local quando um desconhecido se aproximou. Ele sacou um revólver e disparou dois tiros contra a ex-primeira-ministra, que acenava para a multidão do alto do teto solar do carro. Segundo um segurança, uma bala atingiu o pescoço e outra o peito de Benazir. Em seguida, o atirador detonou uma bomba que trazia junto ao corpo, matando a si e a outras vinte pessoas. Benazir foi levada ao hospital da cidade, onde médicos tentaram reanimá-la por 35 minutos, sem sucesso. Às 18h16 do horário local, os médicos declararam sua morte. O Paquistão foi parar mais uma vez à beira do caos.


O atentado à personalidade mais popular do país, líder do único partido de alcance nacional do Paquistão, já havia sido anunciado por grupos islâmicos radicais ligados ao Talibã. São eles os principais suspeitos de sua morte. Quando Benazir comunicou sua volta após oito anos de exílio em Dubai e em Londres, muitos de seus partidários a desaconselharam a fazê-lo, alegando absoluta falta de segurança, mas ela não cedeu da decisão. Logo no dia de sua chegada, quando se preparava para fazer uma carreata pelas ruas de Karachi, a maior cidade paquistanesa, foi impedida por um ataque terrorista. Uma explosão matou cerca de 150 pessoas. Benazir, que estava em um caminhão blindado, saiu ilesa. A ambição de tornar-se pela terceira vez primeira-ministra também não agradava ao presidente Pervez Musharraf, a quem dirigia críticas constantes. O general, que tomou o poder em um golpe de estado em 1999, comanda o país com mão-de-ferro. Em outubro, tornou-se presidente em eleições fraudulentas e, por causa das pressões americanas, permitiu que Benazir voltasse do exterior. Um mês depois, porém, Musharraf decretou estado de emergência. Tirou canais de televisão do ar e manteve a candidata presa em sua própria casa por uma semana. Só recuou após receber novas pressões dos Estados Unidos.
 
A vida de Benazir está intimamente atrelada à história de seu país. Seu pai, Zulfikar Ali Bhutto, foi um dos políticos mais populares de sua geração. Na década de 70, chegou a ser presidente e primeiro-ministro. Muito ligado ao Ocidente, representou o Paquistão nas Nações Unidas e também ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores. Educado e entusiasta da democracia, fundou o Partido Popular do Paquistão, o PPP. Organizou um governo nacionalista, em que os militares não exerciam influência. Nesse período, Benazir estudou nas universidades Harvard e Oxford, onde aprendeu filosofia, ciências políticas e economia. Em 1977, ano em que obteve sua segunda graduação, o Exército rebelou-se e depôs seu pai. Zulfikar foi preso, acusado de encomendar o assassinato de um adversário político. Acabou condenado à morte dois anos mais tarde. Herdeira do legado político do pai, em 1979, Benazir tornou-se líder do PPP, atualmente o maior grupo de oposição. Anos depois, em 1988, ela passou a ser a primeira mulher na história moderna a comandar uma nação islâmica.


Apesar de se identificar com valores seculares e ocidentais, Benazir casou-se com Asif Ali Zardari, numa união arranjada pela mãe dela. Benazir dizia que isso era absolutamente normal para uma paquistanesa, ainda que moderna e bem instruída como ela. Sua carreira política exibia manchas. Nas duas vezes em que foi eleita primeira-ministra, Benazir teve de sair do poder, acusada de corrupção e desvio de dinheiro. A figura mais controversa de sua equipe ministerial era seu próprio marido. Amante do pólo, ele é um bon vivant que mantém casas em Londres, Nova York e Dubai, onde passa a maior parte do tempo. No segundo governo de Benazir, Zardari foi ministro dos investimentos. Credita-se a ele o desvio de 1,5 bilhão de dólares dos cofres públicos, com a cumplicidade de sua mulher. A acusação rendeu dezoito processos judiciais ao casal. Zardari passou oito anos preso.


Com a morte de Benazir, abre-se um vácuo em um país carente de lideranças. Dois de cada três paquistaneses desejam a renúncia imediata do presidente Musharraf. Entre os fatores que contribuem para sua impopularidade, estão o aumento no preço dos alimentos e a impotência em conter o fanatismo islâmico. Desde os atentados em Nova York, em 2001, Musharraf atua de forma dúbia. Ao mesmo tempo que colabora com os Estados Unidos na identificação de terroristas, é negligente no controle do território paquistanês. Nas áreas próximas ao Afeganistão, grupos muçulmanos radicais ligados à Al Qaeda e ao Talibã agem livremente e planejam ataques em outros países.


"Com a morte de Benazir, o Paquistão torna-se ainda mais perigoso que o Irã", disse a VEJA o israelense Ely Karmon, do Instituto de Contraterrorismo de Herzlia, em Israel. "É um país fora de controle e, pior, com um arsenal atômico." Os Estados Unidos, que apoiavam um acordo entre Benazir e Musharraf na esperança de contar com um aliado menos fragmentado na região, serão obrigados a refazer sua estratégia. As eleições que estavam agendadas para o próximo dia 8 correm o risco de ser adiadas. O outro candidato de oposição, Nawaz Sharif, já disse que seu partido vai boicotar o pleito caso Musharraf não renuncie. Em diversos pontos de Karachi, uma centena de carros foi incendiada e catorze pessoas morreram nos conflitos. O atentado da última quinta-feira tornou explosiva uma situação instável. O que vai ocorrer agora? Essa é uma charada atômica envolta em um mistério dentro de um enigma.


Notícia publicada em Veja.com, em 29 de dezembro de 2007.



José Antonio M. Pereira** comenta


(07.01.08)


Desde novembro último, o mundo ficou perplexo com a situação política no Paquistão. O ditador Pervez Musharraf havia imposto o estado de exceção sob a alegação de que a Corte Suprema não estava colaborando no combate ao terrorismo. A decisão gerou uma onda de protestos violentos, mas o país mergulhou num caos ainda maior na quinta-feira, 27 de dezembro último, com o assassinato de Benazir Bhutto. Candidata às próximas eleições parlamentares e principal opositora de Musharraf, Benazir havia sido por duas vezes primeira-ministra e estava há oito anos exilada. Retornou ao Paquistão graças à pressão dos Estados Unidos, que injeta milhões de dólares no país para o combate ao terror.


O mundo passou então da perplexidade ao choque. Ainda mais chocante, do ponto de vista da fraternidade cristã, é que algumas horas antes, cerca de 30 pessoas morreram em conflitos próximos ao Afeganistão, outras 20 durante o atentado que tirou a vida de Benazir, e daí até o dia seguinte, ao menos 23 pessoas também foram mortas em conseqüência do assassinato. Muitas vidas perdidas, interrompendo o curso do aprendizado na escola da reencarnação, causando mais complicações e dores, dificultando desnecessariamente o progresso dessas almas. Sabemos que Deus aproveita esses episódios para o nosso próprio crescimento, fazendo assim com que o mal momentâneo contribua para a nossa felicidade futura. E parece não haver nada que possamos fazer a não ser orar pela paz, não só lá, como aqui. Mas tentaremos analisar melhor esses fatos dos pontos de vista sócio-político e espiritual e pensar no que podemos fazer por nossa vez.


Apesar da atenção dada pela imprensa mundial nesse momento, na verdade a região é marcada há muito tempo pela violência em atentados, rebeliões, massacres. Isso tudo, paradoxalmente, ao lado da religiosidade de um povo oriundo da Índia que abraçara a fé cristã através do Islamismo. O Paquistão nasceu em 15 de agosto de 1947, após a divisão da Índia em duas nações de coloridos culturais e religiosos bem distintos. Após uma longa campanha de sucesso, liderada por Mahatma Gandhi, que culminou com a libertação da Índia do domínio britânico, seus compatriotas exigiram a separação, idéia contra a qual ele lutou inutilmente. Desejava que os muçulmanos continuassem convivendo como irmãos com os hindus. No entanto, a paz só existia porque o governo era neutro na questão religiosa. Deixando de ser governados pelos ingleses, os hindus não aceitariam ser comandados por um adepto do Islamismo, e esses também não se curvariam a um poder nas mãos de um hindu. A solução foi a criação do Paquistão para os indianos muçulmanos e uma nova Índia para os indianos hindus. Gandhi sabia que mesmo assim haveria um banho de sangue, o que foi inevitável. Firme no princípio da não-violência, deu início então a uma greve de fome que cessou somente com o fim dos conflitos.


A razão de tanto ódio possui raízes profundas*. A tradicional divisão de classes, chamadas castas, é extremamente rígida e não permite ascensão social. Quem nasce numa casta inferior não pode buscar um meio mais rentável para sobreviver, porque isto é privilégio das castas superiores. Com a invasão dos hunos, séculos antes, veio o Islamismo, e as castas mais baixas encontraram uma saída para a estagnação econômica, convertendo-se à nova opção religiosa. Com o tempo a Índia tornou-se uma nação dividida, um barril de pólvora pronto para explodir. E foi o que ocorreu com a criação do Paquistão. Naturalmente, a situação local estabilizou-se novamente, mas ocorrem até hoje episódios de violência, principalmente na Caxemira, uma das regiões mais ricas e cobiçadas, partilhada pelos dois países. Esse espírito de guerra parece ter se perpetuado para ocupar as primeiras páginas dos jornais.


Quando vemos estas notícias, ficamos apreensivos, meditando sobre o porquê ainda ocorrem, e até quando... Sabemos que, em geral, reencarnamos muitas vezes na mesma família, no mesmo lugar ou grupo, a fim de repetir lições e reparar erros. As lições, por vezes duras, transformarão as gerações. Veremos um dia a paz reinar naquelas terras, berço de sabedorias milenares plantadas silenciosamente sob a orientação de Jesus, governador do planeta. Mas nosso desejo e orações não são os únicos recursos de que dispomos para colaborar positivamente num caso como este. Nós aqui, muitos quilômetros distantes, também estamos vivenciando a repetição de lições e experiências. Podemos fazer a nossa parte dissolvendo ódios de outras eras. Podemos deixar de ser os tiranos domésticos que criariam as guerras de amanhã. E nunca devemos permitir que nossa fé, por ser raciocinada, se abale nestas horas, porque assim como o sol brilha após a tempestade, a Terra será um dia um planeta onde a violência só existirá nos livros de história.


* Esta Noite a Liberdade, Dominique Lapierre e Larry Collins. Ed. DIFEL - Difusão Editorial, SP.


** José Antonio M. Pereira é espírita há 28 anos, tendo atuado principalmente na área de evangelização juvenil. Atualmente, é integrante da Casa de Emmanuel, no Rio de Janeiro, e da equipe do Serviço de Perguntas e Respostas do Espiritismo.net.