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Há 150 anos, a Revista Espírita

Há 150 anos, a Revista Espírita



Sônia Zaghetto


Imagine uma publicação em que os acontecimentos são analisados à luz da realidade do Espírito. Rainhas orgulhosas, criminosos, suicidas, amorosos missionários e filhos ingratos vêm falar de sua experiência após a morte. Indiferentes e solidários – todos têm lugar para expressar seus aprendizados, vitórias e arrependimentos. Tudo comentado com bom senso, serenidade e pura caridade. As novidades da ciência são analisadas, as críticas são respondidas com elegância, a polêmica é saudável e o estudo é prioritário. Parece impossível? Mas houve algo assim em nosso mundo. Esse foi o tom que regeu a primeira e mais importante publicação espírita já editada em todo o mundo: La Revue Spirite (A Revista Espírita). Era ela que Kardec trazia nas mãos quando tombou, vítima de um aneurisma, no dia 31 de março de 1869.


Kardec faleceu ali mesmo, na rue Sainte-Anne, em Paris, mas, nos anos que se seguiram, a Revista continuou pelo esforço de diversos membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Entre eles Camille Flammarion, Léon Denis e, principalmente, o casal Pierre-Gaëtan e Marina Leymarie. Todos buscaram manter as diretrizes de Kardec, mas houve percalços: enganado por um charlatão, Leymarie passou dois anos na prisão e madame Amélie Boudet, viúva de Allan Kardec, foi humilhada publicamente durante o julgamento. Nada disso foi capaz de parar a Revista. Somente as duas guerras mundiais que atingiram duramente a Europa interromperam a trajetória da publicação francesa fundada pelo Codificador do Espiritismo.


Tudo começou em 15 de novembro de 1857, na casa do Sr. Dufaux, em Paris. Apenas seis meses haviam se passado desde a publicação de O Livro dos Espíritos. O sucesso estrondoso do livro encorajara Allan Kardec. Novos planos surgiam na mente do Codificador, que sonhava com uma divulgação mais ampla.


Pela mediunidade da adolescente Ermance Dufaux, Kardec ouviu dos Espíritos uma série de respostas às suas indagações. Desejava publicar um jornal espírita e pediu orientação espiritual. As respostas dadas naquele dia resultaram na criação da Revista Espírita e deram partida à comunicação social espírita.


A pergunta inicial de Kardec sobre a intenção de publicar um jornal espírita é revestida de humildade (“Acreditais que chegarei a fazê-lo? E me aconselhais a isso?”) a que os espíritos garantem que o objetivo será alcançado com perseverança, essencial na comunicação social.


Depois de observarem que a idéia era boa, os Espíritos recomendaram amadurecer a proposta, apressar-se na medida certa e organizar-se quanto ao tempo.


Kardec pensava em fazer um número como experiência e depois retomar a publicação, mas os Espíritos o encorajaram a fazer uma publicação regular: “Um primeiro número não bastará; no entanto, é útil e mesmo necessário naquilo que abrirá o caminho ao resto”. E completaram a frase com um conselho para o sucesso duradouro. Uma sugestão que Kardec seguiria à risca durante os onze anos seguintes: “É necessário satisfazer à curiosidade; deve encerrar, ao mesmo tempo, o sério e o agradável. O sério que atrairá os homens de ciência, e o agradável que divertirá o vulgo. Esta parte é essencial, mas a outra é a mais importante, porque sem ela o jornal não teria fundamento sólido. Em uma palavra, é preciso evitar a monotonia pela variedade, reunir a instrução sólida ao interesse, e isso será, para todos os trabalhos posteriores, um poderoso auxiliar”.


Em nota no fim da página (mais tarde publicada em Obras Póstumas), Kardec afirma que apressou-se em redigir o primeiro número e o publicou em 1 de janeiro de 1858.


O codificador não adiantou seus planos a ninguém. Lançou a Revista sem um único assinante ou sócio capitalista. “Fi-lo, pois, inteiramente aos meus riscos e perigos, e não ocorreu de me arrepender disso, porque o sucesso excedeu a minha expectativa. A partir de 1º de janeiro, os números se sucederam sem interrupção, e, como o Espírito previra, esse jornal se me tornou um poderoso auxiliar”, escreveu o professor Rivail.


Mais tarde, Kardec reconheceu que estava feliz por não ter um sócio capitalista. Ele estava inteiramente livre para dar à Revista sua própria orientação. “Um estranho teria podido querer me impor suas idéias e sua vontade, e entravar a minha caminhada. Sozinho, eu não tinha que dar contas a ninguém, por mais pesada que fosse a minha tarefa”, observou o codificador.


E assim surgiu a Revista Espírita. Nas suas páginas é possível encontrar um Allan Kardec bem além da imagem a que nos habituamos. Além das já conhecidas virtudes de sabedoria, prudência e bom senso, é na Revista que se aprende a conhecer o Kardec do dia-a-dia: sensível e generoso, um homem bom. Em todas as suas múltiplas tarefas - de homem do mundo, dirigente e espírita – ele surge respondendo a críticas, elogiando, destacando trabalhadores e obras, posicionando-se perante os ataques à Doutrina, prestando contas de cada centavo recebido como doação.


É na Revista que se vê surgir um Kardec jornalista por excelência, capaz de dar títulos curiosos, engraçados, provocativos. Um pesquisador que não se esquiva de analisar as gentes e os fatos de seu tempo. Sabia o peso da experiência de cada espírito para o aprendizado coletivo. Tinha uma curiosidade infindável, uma sede de descobertas, uma vontade imensa de desvendar o mundo e de compartilhar tudo com seus irmãos de caminhada.


E justamente nas páginas da Revista podemos comprovar que cada sílaba escrita por ele no texto “O Homem de Bem” (em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo “Sede Perfeitos”) é tradução dos sentimentos que guardava no peito. Não são palavras vãs. São, sim, a expressão viva de um coração que muito amava.


Sim, Kardec muito amou. Amou a tarefa que lhe foi confiada. Amou os espíritas cuja fragilidade adivinhava e socorria. Amou a Doutrina – tradução da Lei Eterna – e amou cada dia de sua vida dedicada à grande Causa a quem doou noites sem fim, dias laboriosos, horas e lágrimas.


Alimentava-se das cartas que lhe chegavam de todas as partes do mundo, vibrava com o avanço do Espiritismo, descobria a universalidade das verdades que ajudara a trazer ao conhecimento do mundo. Desse amor – bem como de seus sorrisos e de suas dores – a leitura da Revista nos traz notícias sempre novas. Passam-se os dias e esse retrato da alma de Kardec permanece entre nós. Resta-nos a tarefa simples de abrir suas páginas para aprofundar nossa percepção sobre o Espiritismo e descobrir o lado afetuoso do homem cujo trabalho nos trouxe a Doutrina que tanto amamos.


 


Leia abaixo a íntegra do diálogo entre Kardec e os Espíritos, contido no livro “Obras Póstumas”


15 DE NOVEMBRO DE 1857
(Em casa do sr. Dufaux, méd. senhora E. Dufaux.)



Pergunta. Tenho a intenção de publicar um jornal espírita, pensais que chegarei a fazê-lo, e me aconselhais a isso? A pessoa à qual me dirigi, o Sr. Tiedeman, parece-me decidido a dar o seu apoio pecuniário.
Resp. Sim, isso conseguirás com a perseverança. A idéia é boa, é preciso amadurecê-la antes.
 
Perg. Temo que outros me antecedam.
Resp. É necessário apressar-se.


Perg. É o meu desejo, mas o tempo me falta. Tenho dois empregos que me são necessários, vós o sabeis; gostaria de poder a isso renunciar, a fim de consagrar-me inteiramente à coisa, sem preocupações estranhas.
Resp. Não é preciso nada abandonar no momento; sempre se acha tempo para tudo; movimenta-te e conseguirás.


Perg. Devo agir sem o concurso do Sr. Tiedeman?
Resp. Agi com ou sem seu concurso; não te inquietes com ele, podes por isso passar.


Perg. Tinha a intenção de fazer um primeiro número de experiência, a fim de colocar o jornal e fixar-lhe data, salvo continuar mais tarde, se for o caso; que pensais disso?
Resp. A idéia é boa, mas um primeiro número não bastará; no entanto, é útil e mesmo necessário naquilo que abrirá o caminho ao resto. Nisso será preciso levar muito cuidado, de maneira a lançar as bases de um sucesso durável; se for defeituoso, mais valeria nada, porque a primeira impressão pode decidir seu futuro. É necessário se ligar, começando, sobretudo a satisfazer à curiosidade. Deve oferecer, ao mesmo tempo, o sério e o agradável; o sério que atrairá os homens de ciência, e o agradável que divertirá o vulgo. Esta parte é essencial, mas a outra é a mais importante, porque sem ela o jornal não teria fundamento sólido. Em uma palavra, é preciso evitar a monotonia pela variedade, reunir a instrução sólida ao interesse, e isso será, para todos os trabalhos posteriores, um poderoso auxiliar.


Nota. Apressei-me em redigir o primeiro número, e fi-lo aparecer em janeiro de 1858, sem disso nada ter dito a ninguém. Não tinha um único assinante e nenhum sócio capitalista. Fi-lo, pois, inteiramente aos meus riscos e perigos, e não ocorreu de me arrepender disso, porque o sucesso excedeu a minha expectativa. A partir de 1º de janeiro, os números se sucederam sem interrupção, e, como o Espírito previra, esse jornal se me tornou um poderoso auxiliar. Reconheci mais tarde que estava feliz por não ter um sócio capitalista, porque estava mais livre, ao passo que um estranho teria podido querer me impor suas idéias e sua vontade, e entravar a minha caminhada; sozinho, eu não tinha que dar contas a ninguém, por mais pesada que fosse a minha tarefa.