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O atalho do cérebro

O atalho do cérebro



Informação demais atrapalha. Por isso, quem dá ouvidos à intuição pode ser mais feliz. Conheça essas e outras idéias do pesquisador alemão Gerd Gigerenzer, que estuda as estratégias do inconsciente.


Texto: Marcio Damasceno, de Berlim



Muitas vezes, insistimos em tomar decisões guiados pela intuição, mesmo que elas contrariem as regras do bom senso. “Não interessa”, retrucamos, “é isso o que eu quero e pronto!” No fim das contas, não dá outra: você age no impulso e acaba acertando na mosca.


A tendência de priorizar o instinto no lugar da razão é vista como natural pelo psicólogo e pesquisador alemão Gerd Gigerenzer. Ele afirma que a intuição é mais potente do que se pensa e que muita gente poderia ser mais feliz se a seguisse com mais freqüência. Diretor do Departamento de Desenvolvimento Humano do Instituto Max Planck, em Berlim, Alemanha, ele é um dos mais respeitados especialistas em heurística do mundo. Essa disciplina, cujo nome soa tão estranho, investiga as estratégias que adotamos ao tomar decisões e resolver problemas.


Em seu mais recente livro, Gut Feelings – The Intelligence of the Unconscious (Sentimentos do Instinto – a Inteligência do Inconsciente, em tradução livre), a ser lançado no Brasil pela editora Record em agosto de 2008, o estudioso explica como e por que decisões baseadas em pouquíssimos dados e guiadas por certo sexto sentido acabam sendo freqüentemente mais acertadas do que as precedidas por longa e cuidadosa reflexão. Depois de analisar diversos experimentos comportamentais, ele conclui que, muitas vezes, informação demais atrapalha.


“O coração tem razões que a própria razão desconhece”, escreveu o filósofo francês Pascal. Gerd Gigerenzer foi atrás das razões do coração e descobriu que elas nada mais são que decisões tomadas por nosso inconsciente antes de nós mesmos, usando poucas, mas importantes, informações-chave. O instinto é uma espécie de atalho tomado pelo cérebro sem que a gente perceba. O psicólogo vê na intuição um mecanismo tão importante quanto o pensamento analítico. Segundo ele, se exercitarmos nossos instintos, podemos nos dar conta de que o caminho mais curto e simples, em muitas situações, também é o melhor.


Bons Fluidos – O que são decisões instintivas?


Gerd Gigerenzer – São as baseadas na intuição, que é definida por três características: vem rapidamente à consciência, não entendemos por que surge e é forte o suficiente para nos fazer agir. Sejam intuições sobre amigos ou que nos guiam quando praticamos esportes, escolhemos uma pasta de dentes ou nos apaixonamos – mas não sabemos o porquê. Sentimentos instintivos dirigem muitas de nossas decisões. Sem eles, na verdade, tomaríamos poucas decisões. Porque muitas delas são inconscientes.


BF – No livro, o senhor usa muito o termo heurística. O que é isso?


GG – É uma regra geral. É uma estratégia de decisões que utiliza poucas informações. O que se sabe há muito tempo é que as decisões humanas freqüentemente se baseiam num único motivo, que não é consciente, é intuitivo. E pode ser o motivo pelo qual o adolescente só usa tênis de uma marca específica – não por causa de sua qualidade, mas porque seus amigos também usam. Ou o que justifica a fama de um astro pop, cuja música não é especialmente boa, mas todo mundo conhece. Muitas de nossas decisões são baseadas numa cota surpreendentemente pequena de análises. E às vezes isso é uma vantagem.


BF – Qual a novidade nas descobertas recentes sobre o tema?


GG – O que a psicologia acreditava até há pouco tempo é que essas decisões intuitivas, baseadas em poucas informações eram, na maioria das vezes, falsas. E que as pessoas têm mais chances de acertar quando pesam todos os prós e contras antes de decidir. É o modelo clássico de tomar decisões. Acho que nós fomos os primeiros aqui, em Berlim, a mostrar que, em determinadas ocasiões, acertamos mais quando decidimos baseados num único e bom motivo do que quando pesamos prós e contras. E isso foi uma grande surpresa. É importante que consigamos mostrar isso analiticamente, que esse tipo de intuição pode, sim, ser melhor do que o pensamento racional.


BF – Existe contradição entre lógica e intuição?


GG – Não. Acho que precisamos de ambas. É um erro tachar a intuição de instrumento de segunda classe. Assim como é um erro dizer que a pessoa só deve acreditar em seus instintos e jamais pensar muito antes de agir. São posições extremas e não muito adequadas. O interessante é entender que refletimos, conversamos conscientemente e temos, ao mesmo tempo, um sentimento pelo próximo que é inconsciente. E as duas coisas são importantes, existem, mas muitas vezes não conseguimos definir o que se passa. Como quando uma pessoa me agrada e eu não sei bem por quê. Especialistas sabem disso muito bem, assim como jogadores de futebol e beisebol, pianistas, maestros. Eles sabem que podem fazer algo muito bem, mas não conseguem dizer o porquê. Eles simplesmente podem.


BF – Muitas vezes a intuição é mais eficiente?


GG – Sim. Como no exemplo que uso em meu livro, em que o desempenho de jogadores de beisebol experientes cai quando passam a calcular racionalmente o trajeto que têm de percorrer para atingir a bola. Descobrimos, então, que não é certa a teoria de que fornecer às pessoas mais tempo e mais informações para resolver um problema traz a melhoria de resultados. No caso do jogador iniciante, essa estratégia funciona, mas para o experiente, não. Então, temos que entender que muito do que sabemos está no inconsciente – assim como as estratégias para decidir várias coisas. E que isso não é necessariamente um dom de segunda categoria. Em muitas ocasiões, é um mecanismo mais efetivo que a decisão consciente. Temos que aprender a reconhecer o momento em que a reflexão consciente é vantajosa e quando é melhor confiar no instinto. Nenhum deles é melhor que o outro. Quero trazer a intuição de volta ao patamar de importância que tinha antigamente, quando era tão valiosa quanto a reflexão.


BF – O senhor escreve que a intuição é considerada uma característica feminina – o que tem a ver com a depreciação vigente em nossa sociedade tanto em relação à mulher como em relação à intuição.


GG – Antigamente, a intuição era a melhor maneira de chegar ao conhecimento. Não tinha nada a ver com mulheres, mas com anjos e seres sobrenaturais. E, até há pouco tempo, muitos filósofos pensavam poder enxergar a verdade na matemática e nas questões morais de modo simples e direto, através da intuição. E, então, temos essa história de que a intuição é associada à mulher e, ao mesmo tempo, tida como algo menor. Por muitos séculos, a ratio, razão, tem sido considerada superior à intuição. O pensamento está acima da intuição, o homem está acima da mulher. É por isso que as mulheres pensam que têm melhor intuição que os homens e os homens acham que as mulheres têm melhor intuição. Mas a intuição permanece uma coisa de segunda categoria, percebe? E isso é lamentável.


BF – Mas as mulheres são ou não são mais intuitivas?


GG – Experimentos que realizamos indicam que a intuição das mulheres é melhor que a dos homens, mas, numa grande sondagem que fizemos na Alemanha, ficou claro que a maioria das mulheres acha que os homens têm uma melhor intuição sobre ações da bolsa de valores, e a maioria dos homens também pensa ter melhor intuição que as mulheres nessa área. Mas não há evidência alguma disso. Trata-se da velha história de associar a mulher a seu papel no lar e não fora de casa, como acontece ainda em muitas culturas. As mulheres pensam que são muito melhores em tudo o que está relacionado a situações interpessoais e os homens em tudo o que tem a ver com ciência, dinheiro. Essa percepção está na cabeça das pessoas – e é importante quebrar isso. Porque a verdade é que os homens podem ter boas intuições e as mulheres podem pensar com bastante clareza. Às vezes, muito melhor que os homens.


BF – Até que ponto informação demais atrapalha e traz insatisfação?


GG – Há indícios de que as pessoas mais satisfeitas com as próprias decisões são as que usam mais a intuição. Decidem com base em um primeiro motivo ou opção que pareçam bons o suficiente para elas – em vez de esperar ter todas as opções antes de escolher a melhor. É a mesma lógica de quando procuro um programa na TV. Passo por todos os canais e não consigo encontrar nada. Quando me decido, o programa que escolhi já acabou. Eu nunca consigo me satisfazer se tenho sempre essa mentalidade. Então, se eu encontrar algo que me agrade, prefiro me dar por satisfeito, em vez de ficar eternamente com medo de ter perdido algo melhor. Muitas intuições são baseadas neste princípio: escolher uma coisa que acho boa o suficiente para mim. E assim podemos exercitar um pouco de filosofia de vida. Não podemos ter tudo, não podemos sempre ter o melhor. Temos que treinar isso.


BF – De que maneira?


GG – Um exercício simples é ir ao restaurante e escolher uma das primeiras opções do cardápio, sem procurar demais. É um exercício difícil para muitas pessoas. Porque sempre se pensa que se está perdendo algo que poderia ser melhor. Mas isso conseguimos aprender. O mesmo se aplica à escolha do parceiro. Há muitos homens e muitas mulheres que nunca estão satisfeitos com seus parceiros porque nunca estão certos se não haveria alguém melhor ainda. Claro que sempre existe alguém melhor. Mas, por outro lado, todos têm seus altos e baixos e, em princípio, podemos nos dar por satisfeitos se a pessoa de quem gostamos é alguém que nos agrada, que nos ama, alguém em quem podemos confiar.


BF – Então, quem leva uma vida mais simples tende a ser mais feliz?


GG – Pode ser, dependendo do que você quer dizer com “ser mais feliz”. Aqueles que não têm tantas opções, que não são socializados dessa forma – de buscar sempre o melhor em tudo –, são mais felizes com as decisões que tomam e com as coisas que têm.


BF – Que truques o senhor usa em sua vida pessoal para decidir mais facilmente, sem levar em conta informações demais e sem cair no medo de errar?


GG – Quando vou a um restaurante, nem abro o cardápio. Pergunto ao garçom o que ele comeria, e não o que me recomendaria – que é diferente. Ou, quando estou viajando, peço o mesmo prato que meu cicerone porque, se fosse perguntar o que me recomendaria, ele começaria a pensar demais e indicaria algo que acha que um alemão deve gostar. Existem muitas maneiras de chegar rapidamente a boas decisões sem ter que analisar tudo. Em inúmeras situações. Muitas vezes, as mulheres levam um tempo enorme para decidir que roupa vestir. É só olhar o armário e pegar a primeira coisa que parece ser boa o suficiente para aquele momento – outra hora ela pode escolher outra roupa. E, ao fazer esses exercícios, vamos perdendo o eterno medo de ter deixado passar algo que poderia ser ainda melhor.


Matéria publicada na Revista Bons Fluidos, edição de dezembro de 2007.