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Mulher escolhe adotar bebê com microcefalia vítima de maus-tratos

Depoimento a (...)
CLÁUDIA COLLUCCI
ENVIADA ESPECIAL AO RECIFE

RESUMO Para muitos, ter um bebê com microcefalia é fatalidade. Para Valéria Gomes Ribeiro, 46, de Paulista, a 15 km do Recife (PE), foi uma escolha, um "presente de Deus". Mãe adotiva de um rapaz de 19 anos, que tem deficiência mental, ela conseguiu a guarda provisória de João, de um ano e meio, que foi retirado da mãe biológica pelo Conselho Tutelar por maus-tratos. Ela acorda às 3h para levá-lo de ônibus a uma maratona de terapias e consultas. "Meu sonho é vê-lo andar, falar, me chamar de mamãe ou mainha."

Conheci João logo depois que ele nasceu, em 20 de agosto de 2015. Fui visitar a mãe biológica dele, que já tinha outros dez filhos antes de ter ele e a irmã gêmea.

Sabia que o João tinha algum problema, mas não sabia que era microcefalia. Como sou mãe de um rapaz de 19 anos, deficiente mental, expliquei para a mãe os cuidados que ela deveria ter com uma criança especial.

A partir daí, ela começou a mandar o João todos os dias para a minha casa. Ele vinha no colo das irmãs de oito e de nove anos. Chegava cedo, todo sujo, com os olhinhos remelentos e cheio de xixi. Tinha espasmos e chorava muito, sem parar. A mãe dizia que era susto, que ele não deixava ninguém dormir.

Comigo, ele ficava mais calmo. Parecia sentir o carinho e a atenção que não tinha em casa, onde era cuidado por crianças, jogado de um para outro. Ninguém tinha paciência para cuidar dele. Eu dava banho e comida e, à tarde, as crianças voltavam para buscá-lo.

Um dia tive que correr com ele para uma UPA porque teve uma crise convulsiva. Foi lá que descobri que ele tinha microcefalia. A mãe contou que teve zika na gravidez. Mas ela não entendia a gravidade do problema.

Com o diagnóstico, ajudei a mãe a ir atrás do benefício social [R$ 880] que João tem direito. Depois que ela conseguiu o benefício, acho que ficou com medo de perder a guarda do filho e deixou de mandá-lo para a minha casa.

O Conselho Tutelar estava de olho nela porque uma das filhas tinha engravidado com 11 anos, abortado e ido sozinha para o hospital. As outras crianças menores são cuidadas pela vizinhança. Um dá um prato de comida, outro, um banho.

Da irmã gêmea do João, que aparentemente não tem microcefalia, quem cuida é uma senhora ali da esquina. A mãe gosta de filho assim: que os outros cuidem de dia e mandem para ela alimentado e com banho tomado.

Numa das visitas, o Conselho Tutelar flagrou que o João estava sendo vítima de maus-tratos. Ele ia ser recolhido para o abrigo, quando uma senhora que me ajudava com doações me avisou. Eu consegui a guarda provisória dele em junho. Agora estou na luta para conseguir a definitiva. Não imagino mais minha vida sem o João.

Acordo às 3h e pego o primeiro ônibus às 4h20. Só volto pra casa às 20h. As consultas e terapias ficam em lugares diferentes do Recife. Pego uns oito, dez ônibus por dia.

Não posso chegar atrasada, senão já dão falta. Se ele tiver duas faltas, é cortado das instituições do SUS.

Os ônibus estão sempre lotados, as pessoas têm preconceitos, não são solidárias. Olham para ele como se fosse um bicho. Tenho que fingir de surda e muda para não criar confusão. São crianças que não pediram para vir ao mundo da forma que vieram. Elas têm que ter o amor e o carinho de nós que somos mães.

Sou mãe, me sinto mãe do João, quero proteger, cuidar, quero amar mais do que ele já é amado. Minha mãe é avó dele, minhas irmãs, as tias. Todos me ajudam como podem. Só de medicamentos, fraldas, leite especial e produtos de higiene gasto R$ 800 a R$ 1.000. O benefício dele ainda está com a mãe biológica, que não ajuda em nada.

Crio o João com a ajuda de pessoas solidárias, não tenho amparo do governo.

TEMPO INTEGRAL

Tinha um comércio em casa e tive que fechar para poder cuidar dele. A gente para a vida porque não tem tempo de mais nada, nem de cuidar da gente mesmo. Não dá tempo de ir a um clínico, fazer uma prevenção.

Mas vale a pena. O João já consegue movimentar os bracinhos, que antes eram totalmente rígidos. Ele me acompanha com o olhar, sorri, enxerga, escuta. Em casa, montei um canto para trabalhar a terapia com ele, faço o que aprendo com as fisioterapeutas para ele não esquecer.

Meu sonho é ver o João andar, falar, me chamar de mãe ou de mainha. Acredito que a gente vai conseguir.

O João chegou para mim num momento muito difícil. Por causa da obesidade, estava muito triste, achava que a vida estava acabando. No casamento tinha muita briga, muita desunião. Ele chegou e renovou tudo, trouxe mais amor, mais união. Já fiz um voto com Deus que, se eu ganhar a guarda definitiva dele, vou parar de fumar, emagrecer. Se eu não cuidar de mim, como vou cuidar dele?

Depoimento publicado no Jornal Folha de S.Paulo, em 30 de janeiro de 2017.

Marcia Leal Jek* comenta

Lendo essa matéria compreendemos o quanto deve estar sendo difícil para Valéria vivenciar esta situação. A busca do entendimento da Microcefalia é de suma importância para que possa inclusive buscar as formas mais adequadas de ajuda ao seu filho adotivo.

Joanna de Ângelis, Espírito, nos diz, em seu livro “Constelação Familiar”, psicografado por Divaldo Franco: “Quando, por acaso, na constelação familiar exista algum exemplo de expiação, deve-se torná-lo preciosa lição de vida, não apenas para o padecente, mas para todos os membros, que se deverão unir, a fim de atenuar os sofrimentos daquele que se encontra necessitado de ajuda. Essa providência desenvolve em todos a coragem e o respeito à vida, eliminando temores e diluindo ilusões em torno da matéria, principalmente quanto à sua fragilidade”.

Valéria comenta que o João chegou na vida dela numa fase bem difícil que estava passando. Sabemos que Deus não nos dá nenhuma prova que não possamos suportá-la. A chegada de João fez com que ela tivesse fé e confiança, e fazer o bem a outrem retorna para nós em forma de bênçãos e alívio às nossas dores.

Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Cap. XIV, item 9, no quinto parágrafo, Santo Agostinho afirma: "Ó, espíritas! Compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir; (...) tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes."

Somos instruídos pelos Espíritos Superiores que nossos filhos são Espíritos reencarnados que possuem provas a serem vivenciadas e com um plano reencarnatório necessário à evolução, como cada um de nós que aqui neste planeta no momento habita.

A prova de existência que João atravessa também é uma prova para Valéria, que não está tutelando este espírito por acaso.

A Adoção é um ato de amor não apenas das pessoas que adotam, mas também para os próprios adotados, que aceitam as famílias que os acolhem, pois sabemos que mesmo antes de estarmos encarnados temos planos a cumprir nesta nossa nova jornada.

Em "O Evangelho segundo o Espiritismo", capítulo XIV, encontramos: “Não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família, e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue.”

Portanto, encontramos duas espécies de famílias: as que se encontram neste planeta por laços espirituais e as que se encontram por laços consanguíneos – “As primeiras duradouras, fortificam-se pela purificação da alma. As segundas, frágeis como a própria matéria, extingue-se com o tempo e quase sempre se dissolvem moralmente desde a vida atual.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV.)

Precisamos amar a todos, sentir que Deus é nosso pai e todos nós somos irmãos.

* Marcia Leal Jek é espírita e colaboradora do Espiritismo.net.