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Idosos órfãos de filhos vivos são os novos desvalidos do século XXI

Por Ana Fraiman, Mestre em Psicologia Social pela USP

Atenção e carinho estão para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a saúde do corpo. Nestas últimas décadas surgiu uma geração de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de vida de toda a família. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões.

A ordem era essa: em busca de melhores oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos, que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições. Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças.

A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono: era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião.

Separação e responsabilidade

Assim como os pais deixavam e, ainda deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem em busca de melhores condições de vida, de trabalho e estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém, isso não é percebido como abandono emocional. Não há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam, também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone, agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas, carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação. E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los. Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos em poucas horas. Nasceu uma geração de ‘pais órfãos de filhos’. Pais órfãos que não se negam a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que cedem seus créditos consignados para filhos contraírem dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança. Mas que não têm assento à vida familiar dos mais jovens, seus próprios filhos e netos, em razão – talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam.

Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar.

A irritação por precisar mudar alguns hábitos. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa. Restam poucos interesses em comum a compartilhar. Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis.

A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz

Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora. para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo. Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade.

A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais grave seria não ter modelo. A questão é que as dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas e violência toldam a visão de consequências e sequestram as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos, cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além, os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade. E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos: pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção. Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional.

Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem atenção às necessidades de seus pais, conforme envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente preconceituosas e fóbicas em relação à morte e à velhice. Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer. Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não foram pedidos e nem lhes cabem de fato.

De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer, sentir e pensar ao envelhecer? É risível o esforço das gerações mais jovens, querendo educa-los, quando o envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva, da qual os adultos de hoje – que justa, porém indevidamente – cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não fazem a mais pálida ideia. Além do que, também não têm a menor noção de como haverão eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. Penso ser uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos. Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém, um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. O compartilhar é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias para a segurança de todos.

Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas, em redes públicas de saúde e de comunicação, quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até então. É necessário aprender a enfrentar o que constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população. E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura em relação ao envelhecimento populacional afirmam que a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. O aumento expressivo de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as estratégias para enfrentá-lo.

Matéria publicada na Revista Pazes, em 19 de setembro de 2016.

Valerie Nascimento* comenta

“Nunca deixes um velho sem o teu sorriso ou um aperto de mãos. Vê o que podes fazer por ele, com alegria e afeto. Se já chegou a velhice dele, a tua se encontra a caminho, não te iludas. E poderás ser mais necessitado que ele.”(1)

Tenho um professor de Saúde Mental, psicólogo, que ilustrou umas das nossas aulas com uma história fantástica, que só teve uma solução bacana porque um dos envolvidos deixou que o amor o conduzisse.

Certo rapaz tinha uma parente muito idosa em casa, que já manifestava sintomas de debilidade mental e, interessado, buscou o professor para orientações sobre como agir com ela. Recebeu a seguinte explicação:

– Você deve agir de acordo com a fala dela. Se ela te diz que está vendo um fantasma, você olha pro lado e diz: “Olha! Eu também estou! Mas esse é um fantasma bonzinho…” Ou seja, você entra no universo dela, não discute, não tenta dizer que aquilo não está ocorrendo e tenta ressignificar a situação.

Chegando em casa, viu que a idosa estava encolhida atrás do sofá. Perguntada sobre o que aconteceu, a senhora responde que a tinham sequestrado e a levado para aquela casa. Implorava que o rapaz a salvasse.

Indagando o ocorrido à irmã, que naquele dia tinha sido responsável pelos cuidados à senhora, recebe uma resposta irritadíssima: “Ela está louca! Passou o dia inteiro atrás do sofá com essa estória, nem reconhece ninguém!”

O rapaz se abaixa no nível da idosa e diz: “Vem comigo! Vamos fugir daqui!” Pega a mão dela e a leva para o carro, pedindo que se abaixasse para que os ‘sequestradores’ não a vissem. Deu uma volta no quarteirão e voltaram para casa. “Chegamos, a senhora está liberta agora! Estamos em casa, ninguém mais vai sequestrá-la.”

A tia olha ao redor aliviada, reconhece os demais parentes e agradece efusivamente ao sobrinho que a resgatou de um terrível ‘sequestro’.

Com carinho, empatia e criatividade se contornou uma situação que poderia se tornar grave e extremamente estressora para todos, mas especialmente para a idosa.

O Espírito Lázaro(2), comentando sobre o dever, considera:

Na ordem dos sentimentos, o dever é muito difícil de ser cumprido, porque se encontra em antagonismo com as seduções do interesse e do coração. Suas vitórias não têm testemunhas, e suas derrotas não sofrem repressão. O dever íntimo do homem está entregue ao seu livre-arbítrio: o aguilhão da consciência, esse guardião da probidade interior, o adverte e sustenta, mas ele se mostra frequentemente impotente diante dos sofismas da paixão. O dever do coração, fielmente observado, eleva o homem. Mas como precisar esse dever? Onde ele começa? Onde acaba? O dever começa precisamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranquilidade do vosso próximo, e termina no limite que não desejaríeis ver transposto em relação a vós mesmos. (Grifos nossos.)

Este dever se aplica a todas as situações da vida, mas aquele que se refere aos pais, biológicos ou não, é tão importante que aparece em destaque muitas vezes no Velho e Novo Testamento, se tornou Lei Divina com os 10 Mandamentos, recebeu um capítulo especial em “O Evangelho segundo o Espiritismo” (XIV), além de questões em “O Livro dos Espíritos” e incontáveis abordagens na literatura espírita.

E vai além. Basta uma breve pesquisa na Internet para encontrarmos uma infinidade de artigos acadêmicos, de psicologia e outras especialidades, informando sobre o processo do envelhecer e como é importante uma rede de apoio social e familiar para o idoso, ainda que ele esteja saudável e ativo.

Nossos legisladores também se preocuparam com este tema. Normas Constitucionais e a Lei 8842/94 já asseguravam direitos à população idosa, porém, em 2003 foi entregue o Estatuto do Idoso, uma Lei Federal elaborada por diversas entidades voltadas para os direitos de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, residentes no Brasil. Ao longo dos seus 118 artigos, o Estatuto dá ampla proteção jurídica para que nossos idosos usufruam direitos sem depender de favores, amargurar humilhações ou simplesmente para viverem com dignidade, inclusive com normas punitivas àqueles que não as cumprirem.

Mas, como mostra a reportagem, por que tantas pessoas na terceira idade ainda passam pela dor do abandono, da impaciência e incompreensão daqueles que deveriam cuidar-lhes?

Vivemos momentos decisivos na história da Humanidade. Por onde quer que voltemos nosso olhar vemos dor, sofrimento, aflição. Nos lares, nas ruas, nas nações, montanhas de calamidades se agigantam e parece que nos falta um chão seguro para colocarmos os pés e caminharmos adiante.

É preciso, porém, não nos desesperarmos, e nos mantermos sempre atentos à fala do Meigo Rabi: “Eu disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo.” (João, 16:33.)

Não existe peso maior do que possamos suportar, carregar. Não seria condizente com os atributos de misericórdia e justiça de Deus. No entanto, num mundo habitado por Espíritos endividados com as sublimes Leis, passando por provas e expiações de suas faltas e equívocos, a felicidade plena ainda não é possível. Mas entre tantas atribulações podemos ter ações e reações positivas, operosas, condizentes com a segurança que nos dá a mensagem cristã, ainda diante da temporária realidade avassaladora do mal em nós e aquele que nos rodeia. E assim construiremos o Reino de Deus em nós.

A mensagem de Lázaro que destacamos acima nos diz que o cumprimento do dever é difícil porque quase sempre ele vai na via inversa dos nossos desejos. Para tal, depreende-se esforço, disciplina, conscientização.

Hoje em dia, com a correria da vida moderna, nos enchemos de afazeres e obrigações, relegando ao depois obrigações que pedem nossa atenção. Se nos despojarmos das máscaras que carregamos e fizermos uma autoanálise, veremos com clareza que, obviamente nem sempre, mas, em geral, nossos propósitos de vida estão em trabalhar mais, ganhar mais, viajar mais, se divertir mais, dar mais conforto aos nossos filhos, poupar mais para a velhice e por esses caminhos vamos… E em que momento trabalhamos nosso crescimento interno, nossa doação ao mundo, agregando valores à vida de outras pessoas, devolvendo com gratidão o que recebemos ao longo do processo?

Honrar pai e mãe, é um dever moral, uma Lei Divina e humana. A primeira está registrada na consciência do espírito imortal e a segunda nos códigos humanos. Não há como o filho justificar o desconhecimento para não exercer o dever de cuidar dos pais quando o vigor da juventude já os abandonou.

Sabemos, pelos ensinos espíritas, que a família é escola redentora, hospital de almas feridas nos embates da convivência anterior e que necessitam do medicamento da oportunidade e do esquecimento do passado para se curarem.

O conhecimento espírita facilita o desempenho do dever, nos dando condições de entender as causas das nossas imperfeições e os recursos para convertê-las em aprendizado e construções no bem.

Ainda nos ensina Kardec(3) que “certos pais, é verdade, descuidam dos seus deveres, e não são para os filhos o que deviam ser. Mas é a Deus que compete puni-los, e não aos filhos. Não cabe a estes censurá-los, pois que talvez eles mesmos fizeram por merecê-los assim”.

A esse respeito, o querido Espírito benfeitor Maria Benedita(4), nos diz que junto com a missão de serem pais e mães na Terra, os Espíritos precisam administrar suas limitações, seus conflitos internos. Alguns sufocam tudo isso, a tentativa de que seus filhos jamais o notem, nunca o saibam, como se fosse possível. Outros, porém, não suportam o peso do compromisso e, por isso, explodem, fogem, abandonam ou investem por caminhos de irresponsabilidades tristes de se ver.

Nada, porém, autoriza os filhos a “apagarem” em si as marcas da descendência. O dever de amar aos pais se traduz em zelo, repeito, aceitação, atenção, conforto e não apenas no indispensável para concluírem sua existência. Em demonstrar nosso afeto, em falar-lhes de amor, em ensinar nossos filhos a respeitá-los como são, em ser uma constante em suas vidas, sem que isso nos sejam uma simples obrigação a fazer.

Somos todos devedores daqueles que nos deram a oportunidade do reencarne ou nos conduziram nele. E, a menos que não faça parte do nosso programa reencarnatório ou haja fuga pela porta equivocada do suicídio, não nos esqueçamos que também passaremos pelo envelhecimento um dia, porque não há como escamotearmos a máxima: nascer, morrer, renascer incontáveis vezes, até atingir os limites da perfeição.

“Filho, ajuda teu pai na velhice, não o entristeças durante sua vida. E se ele perder a lucidez, sabe desculpar e não o desprezes em nenhum dia de sua vida. Porque a bondade com o pai não será esquecida, mas será plantada em lugar de teus pecados e contada para ti como justiça.” (Eclesiástico, 3, 14-17.)

Referências:

(1) Chão de Rosas. Espírito Scheilla. João Nunes Maia;

(2) O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, cap. XVII, item 7;

(3) Idem acima, cap. XIV, itens de 1 a 4;

(4) Benedita Maria, psicografia de Raul Teixeira, Ações Corajosas para Viver em Paz.

* Valerie Nascimento é espírita e colaboradora do Espiritismo.net.