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Elas viveram luto durante a gravidez e contam como superaram

Redação Vida e Estilo

Por Thaís Sabino (@thaissabino)

Era para ser o período mais feliz da vida deles. Finalmente, o sonho cultivado por tanto tempo estava prestes a se realizar. Os dois passariam a ser três, talvez quatro em alguns anos, mas o importante naquele momento, em que um “risco” a mais ou a menos tem tanto significado, é que eles estavam formando uma família. Emoção, excitação e a vontade de dividir a notícia com o mundo tornaram impossível fazer qualquer surpresa. Paula Nogueira ainda lembra de assistir ao marido chorar de felicidade ao saber que seria pai. E hoje é ela quem chora ao contar que Allan faleceu antes de ver o filho nascer.

Paula já era mãe quando conheceu Allan e decidiu ter mais um filho para realizar o sonho do parceiro. “Ele ficou todo bobo”, contou Paula sobre a primeira reação de Allan. Logo toda a família já estava sabendo. Quando descobriu que seria um menino, Paula ainda tentou convencê-lo a guardar segredo até o “chá de revelação”, porém Allan não conseguiu conter a empolgação. “Tínhamos escolhido os nomes Manuela ou Miguel. Mas naquele momento ele disse que queria Pedro, para homenagear o avô. Fiz uma cara de insatisfeita, e concordamos com Miguel”, contou Paula.

“Bebê” se tornou o assunto favorito das conversas diárias e o tempo no trânsito – Allan sempre levava Paula de carro ao trabalho – passou a ser preenchido com a escolha de cores e peças para o enxoval. O que Paula não sabia é que sua vida viraria de cabeça para baixo ainda nos primeiros meses de gravidez. Allan reclamou de uma dor no braço naquele dia de 2016, mas seguiu com a rotina normal. Mais tarde, ele teve uma parada cardíaca e faleceu. Paula ficou inconsolável e hoje diz que não teria esperança de ser feliz novamente se não fosse o Pedro, e não Miguel, ter entrado em sua vida.

A dor e “frustração” de não poder colocar juntos pai e filho não diminuem com o tempo. Já faz 10 anos que Cris Guerra teve que lidar com sentimentos de luto e vida ao mesmo tempo. Diferente de Paula, Cris não estava tentando engravidar, pelo menos não mais após sofrer dois abortos em um relacionamento anterior. Mas, no fundo, o desejo de ser mãe ainda a acompanhava. “Sabe quando você tem um sonho e esconde de si mesma? Era tudo o que eu mais queria na vida”, contou.

Guilherme, o pai, também ficou realizado com a notícia. “Quando fizemos a primeira ultrassonografia do Francisco e ouvimos o coração bater, choramos muito. Foi uma das cenas mais emocionantes da minha vida”, lembrou Cris. A alegria do casal teve um choque pouco tempo depois. A forma como Cris perdeu Gui não é muito diferente da história vivida por Paula: ele sofreu uma parada cardíaca em casa, sozinho e não pôde ser socorrido. “Senti uma dor que não tem nome. Achei que nunca mais iria parar de sofrer”, lembrou Cris.

“O Francisco me salvou”, disse Cris

A recuperação não foi fácil. Paula teve descolamento de placenta, anemia e a incerteza de que conseguiria levar a gestação até o final. Cris teve que lidar com a possibilidade de estar muito feliz e muito triste ao mesmo tempo. “Digo que o coração dele (Francisco) bateu por nós por um tempo”, disse ela. “Como não dizer que eu era a mulher mais feliz do mundo depois da vinda de um filho perfeito? Mas ao mesmo tempo, a presença do Francisco me lembrava imediatamente a falta do Gui”, continuou. Foi esse sentimento que motivou Cris a começar o blog “Para Francisco”. “Ao invés de engolir o luto, preferi mergulhar nele e vivê-lo por inteiro, para sair inteira também”, disse ela.

Os textos escritos por Cris são emocionantes e carregam mensagens sobre o pai que Francisco não conheceu. Funcionou como uma “bomba de oxigênio”, segundo ela descreveu, pois a ajudou a voltar a respirar. “Entendi que eu precisava registrar minhas lembranças enquanto elas ainda estavam frescas na memória e no coração, para que o Francisco, no futuro, tivesse acesso ao pai. Foi uma maneira que encontrei de desabafar”, justificou.

Um álbum de recordações

Paula também encontrou uma forma de se reconectar ao parceiro. Entre os planos do casal, estava um ensaio fotográfico da gestação. “Ele curtia muito, estávamos só esperando a barriga crescer, mas não deu tempo”, disse ela. Paula encontrou um fotógrafo disposto a tornar esse sonho realidade: ele colocou Allan presente na vida da nova família, mesmo que apenas em um álbum de recordações. “Foi a maneira que encontrei para homenageá-lo”, concluiu Paula.

Notícia publicada no Portal Yahoo!, em 7 de março de 2017.

Fabiana Shcaira Zoboli* comenta

Ao mencionarmos o tema gravidez, costuma surgir em nossa mente uma figura materna, envolta em uma aura de beleza e ternura, e quase sempre esquecemos de que, para uma gestação ser plena e feliz, a presença do pai do bebê faz toda a diferença.

Afinal, longe de ser aquele que sai de madrugada em busca de comidas extravagantes, o pai é o companheiro que presta inestimável apoio nos incontáveis momentos desafiadores da gestação e que, muitas vezes, emociona-se e vibra, tanto quanto a mulher, com a perspectiva de ter em seus braços seu filho.

Na reportagem, vemos dois pais, vibrantes com a perspectiva de partilhar a Vida com seus filhos, desencarnando, repentinamente, frustrando esse sonho, ao mesmo tempo em que, para as mães, impôs-se a necessidade de conseguir forças, talvez sobre-humanas, que só o amor pode promover, para levar a termo a gravidez e prosseguir com suas Vidas.

Observamos o esforço dessas mulheres que, como mães, lutaram para vencer essa fase e lembramos a necessidade de vivenciar o luto. Muitas famílias sofrem com o desencarne de familiares e o luto, ao contrário do que muitas vezes se prega, precisa ser vivenciado para ser superado. A narrativa, como a mamãe Cris fez ao criar o blog, tem sido uma importante ferramenta para se lidar com o luto, mas outras existem, formando o que se tem chamado de "Terapia do Luto", que ajuda muitos a superar essa fase de grande tristeza.

A condição de espíritas pode e ajuda a lidar melhor com o desencarne, porque traz a consciência de que a Vida do nosso familiar continua e em planos mais elevados. Mas, às vezes, por isso mesmo, muitos espíritas acreditam que não devem sentir a dor da separação, quando isso ainda não nos é possível no estágio evolutivo em que nos encontramos. E assim, a dor da separação e todos os sentimentos que advém do falecimento de um ser querido machucam, independente da religião, e podem se constituir em uma grande prova, colocando em cheque a nossa fé, que, muitas vezes, precisa ser reconstruída.

Essas mamães vivenciaram o luto e mostraram que é possível superar esse momento doloroso e seguir com a Vida, reconstruindo, muitas vezes, a fé, as convicções e até os próprios sonhos, sabendo que quem partiu antes de nós, estará sempre em nosso coração.

Sem dúvida, essa superação traz grande crescimento ao Espírito imortal que, em essência, somos, sendo necessário reconhecer que são essas experiências que mais nos ajudam a desenvolver virtudes e nos ajudam a galgar degraus importantes na escalada de nossa evolução – tanto para quem desencarna, como para quem permanece encarnado -, onde vemos a solicitude de Deus mesmo nos momentos dolorosos, sendo que, especialmente neles, Ele não nos abandona, fortalecendo-nos e inspirando-nos sempre - não esqueçamos disso.

Isabel Allende, escritora peruana de ascendência chilena, também passou pelo desencarne doloroso de um ente querido, de sua filha. E, para ela, escreveu a célebre obra “Cartas a Paula”, na esperança de Paula recuperar-se de um coma irreversível, o que não aconteceu. E, em meio às suas reflexões, reproduzimos aqui, uma de suas frases que ilustra o quanto podemos crescer, mesmo em meio ao desencarne de seres queridos, como fizeram as mamães da reportagem, se, ao invés de nos rebelarmos, aceitarmos e continuarmos a Viver: “Quando sentimos que a mão da morte nos pousa no ombro, a vida ilumina-se de outra maneira e descobrimos em nós mesmos coisas maravilhosas de que nem sequer suspeitávamos.”

* Fabiana Shcaira Zoboli é espírita e colaboradora do Espiritismo.net.