Por Philippa Roxby,  repórter de Saúde da BBC News

 

 

Os psiquiatras alertam para um "tsunami" de problemas de saúde mental devido à pandemia de coronavírus.

 

Os médicos estão particularmente preocupados com o fato de crianças e idosos não receberem o apoio de que precisam devido ao fechamento de escolas, ao isolamento social e ao medo de hospitais. Fatores como a solidão, o medo da covid-19 e incertezas quanto ao futuro agravam doenças mentais pré-existentes e criam novos problemas para pessoas até então saudáveis.

Em uma pesquisa feita no Reino Unido, os psiquiatras relataram aumento no número de atendimentos de emergência relacionados à doenças mentais e uma queda nas consultas de rotina.

Eles afirmam que muitas pessoas deixaram de procurar ajuda mesmo com os serviços de saúde mental ainda abertos, e por isso acabaram chegando ao ponto em que atendimentos de emergência foram mais necessários.

 

'Os pacientes evaporaram'

 

"Já estamos vendo o impacto devastador da covid-19 na saúde mental, com mais pessoas em crise", diz a professora Wendy Burn, presidente do Royal College of Psychiatrists (Colégio Real de Psiquiatras), no Reino Unido.

"E estamos muito preocupados com as pessoas que precisam de ajuda agora, mas não estão conseguindo. Nosso medo é que o 'lockdown' (fechamento total de comércio e serviço) esteja fazendo com que as pessoas guardem problemas que poderiam levar a um 'tsunami' de doenças mentais depois".

A pesquisa da instituição, feita com 1.300 médicos de saúde mental de todo o Reino Unido, constatou que 43% haviam visto um aumento em casos urgentes, enquanto 45% relataram uma redução nas consultas de rotina.

"Na psiquiatria da velhice nossos pacientes parecem ter evaporado, acho que as pessoas têm medo demais de procurar ajuda", disse um psiquiatra.

Outro escreveu: "Muitos de nossos pacientes desenvolveram distúrbios mentais como resultado direto da interrupção da rotina gerada pelo coronavírus, do isolamento social, do aumento do estresse e da falta de remédios".

Idosos e jovens estão entre os grupos que geram maior preocupação.

"Estamos preocupados que crianças e jovens com doença mental que possam estar com dificuldades não estejam recebendo o apoio de que precisam", diz Bernadka Dubicka, que preside a faculdade de psiquiatria infantil e adolescente do Royal College of Psychiatrists. "Precisamos passar a mensagem e deixar claro que os serviços ainda estão abertos."

Tanto do Reino Unido quanto no Brasil, o atendimento psicológico continua funcionando e pode inclusive ser feito à distância, através de plataformas de videochamada. No entato, o uso da tecnologia para chamar um médico durante o bloqueio é difícil para algumas pessoas mais velhas, explica Amanda Thompsell, especialista em psiquiatria para idosos.

Idosos também costumam ser "relutantes" em procurar ajuda, e sua necessidade de apoio à saúde mental provavelmente é maior do que nunca, diz ela.

 

'Prioridade clara'

A instituição de saúde mental Rethink Mental Illness disse que as preocupações levantadas pelos especialistas são apoiadas por evidências de que as pessoas estão convivendo com mais doenças mentais.

Em uma outra pesquisa feita no país, a maioria das pessoas disse que sua saúde mental piorou desde o início da pandemia, devido à interrupção de rotinas e estretégias que elas utilizavam para controlar problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, pânico, entre outros.

"O NHS (sistema de saúde público do Reino Unido) está fazendo um trabalho incrível nas circunstâncias mais difíceis, mas a saúde mental deve ser uma prioridade clara", diz Danielle Hamm, da instituição de caridade. "É preciso investimentos para garantir que os serviços possam lidar com esse aumento antecipado da demanda."

Segundo ela, sem o atendimento adequado no momento, pode levar anos para que algumas pessoas se recuperem dos problemas mentais gerados pela pandemia.

 

Notícia publicada na BBC News Brasil em 17 de maio de 2020

 

Telma Cerqueira* comenta

 

O tema abordado nesse artigo e a estatística apresentada nos revelam um quadro mais do que preocupante. Podemos dizer que chega a ser  alarmante. Na origem disso tudo estão os traumas dos mais diversos (desta e de outras existências), que podem resultam em distúrbios psíquicos e emocionais, pois toda consequência tem uma causa.

Estamos vivendo hoje um momento de crise, que nos desestruturou social e emocionalmente, porém precisamos sempre procurar o lado positivo das coisas.

Os tempos de crise atuais são favoráveis à espiritualidade, é um momento que nos convida a olhar para dentro de nós. Momento que nos convida a mudar o foco, a buscar a nossa essência, a entender a finalidade da vida.

Infelizmente a maioria das pessoas não tem o habito de ficar sozinhas e refletir sobre a vida, sobre o sentido real da vida. Viver intensamente não significa viver freneticamente, ligados aos interesses e a aquisição de valores materiais. O fato de estarmos em “isolamento social” não quer dizer que estamos totalmente isolados. O momento exige que sejamos resilientes, ou seja, que encontremos maneiras de sermos felizes mesmo em “lockdown”.

Hoje com a Internet e a tecnologia nos é oferecido uma gama de situações e facilidades que embora não estejamos rodeados fisicamente de pessoas, podemos estar virtualmente cercados de muitas pessoas, com interesses semelhantes participando de muitas atividades que nos preenchem a alma que nos conecta aos interesses que nos fazem sentir felizes. Podemos ler mais, ouvir boa musica brincar com nossos filhos, ouvir palestras, participar de Seminários, de cursos, aprender e estudar mais e tantas outras a coisas que nos dão prazer. Essas situações nos leva a desenvolver a criatividade, a afastar o medo que nos paralisa e a manter a nossa saúde mental.

Através desse vírus, constatamos a nossa fragilidade física, e percebemos que a vida de todos se vê ameaçada e que a nossa jornada física pode ser interrompida a qualquer momento, e isso nos faz pensar, em questões simples, como por exemplo: o que tenho feito da minha vida? Que possibilidade eu tenho de recuperar o tempo mal utilizado? Como tenho distribuído meu carinho e atenção aos que me cercam? Quais os valores que tenho e como podem ser mais bem utilizados?

Diante das circunstancias físicas ou morais que presenciamos, somos constrangidos pelo convite de rever vida, pelo desejo de nos elevarmos através de atitudes simples, para oferecer nossa atenção e solidariedade aos nossos semelhantes. Assim, nos tornamos mais suaves, mais ternos, mais tolerantes e amigos. Estamos então nos primeiros degraus da nossa evolução moral.

Chega para nós um tempo propício para começar a desintoxicar o nosso modo de viver a vida, modo este, que a maioria das pessoas vinha tendo, vivendo numa correria frenética, sem tempo para a família, sem tempo para si mesmo, buscando obter sempre mais, e hoje podemos entender que precisamos de tão pouco para viver bem e em paz. Ao invés de milhares de roupas, calçados, bolsas e acessórios, precisamos de poucas peças de vestuário, onde se conclui que o importante é ter o necessário ao invés do supérfluo, do acúmulo que nos faz pobres de alma, pobres na nossa essência. Aprendemos a valorizar o abraço, a estar em família, e sentimos como é bom ter aqueles a quem amamos à nossa volta.

Mas para chegarmos a essas conclusões fez-se necessário romper com o ritmo frenético de nossas atividades, romper com a sede de produtividade, com a busca da felicidade nas coisas frívolas e passageiras para auscultar o nosso mundo interior. E perceber que a felicidade, não é uma questão de intensidade, mas sim de equilíbrio, de ordem, de ritmo e de harmonia.

Há uma lição que deve ser aprendida por todos com essa pandemia. A humanidade, em sua maioria, precisa repensar a vida, precisa desenvolver uma consciência mais lúcida e deixar o estado evolutivo ainda tão identificado com a realidade material, palpável a todos nós, passando a entender que a vida não é somente ter é preciso aprender a ser, entendendo que existe uma realidade espiritual que transcende a tudo isto, que percebemos com os nossos olhos físicos.

A pandemia vai exigir muito de toda a humanidade por algum tempo e sua evolução vai depender da forma como as pessoas vão reagir a ela, podendo, a partir daí, criar uma perspectiva de vida diferente para a maioria de nós.

Todos os acontecimentos, sejam do passado ou os atuais, estão dentro de uma ordem divina e perfeita, apesar de não a compreendermos.

A espiritualidade é o combustível que nos faz mover dentro desta crise de saúde mental que por consequência torna-se social, econômica, ecológica e até espiritual. E o que vai nos ajudar a continuar a nossa jornada sem medo é a confiança de que tudo está sob controle, nas mãos de uma Sabedoria Suprema que tudo sabe, e tudo preside. É a espiritualidade de cada um de nós que nesta hora nos religa a uma força maior. Cada um sabe a maneira de se relacionar com Deus, de confiar nele, de saber que ele sustenta as nossas vidas. É essa certeza que poderá nos ajudar a passar por esse período, embora confuso aos nossos olhos, mas que nos conduzirá a sairmos plenos e ver a vida por outra lente.

Contam que Chico costumava ter em cima de sua cama uma placa com os dizeres:

“Isso também passa!”

Indagado sobre o motivo, ele dizia que era para que quando estivesse passando por momentos ruins, lembrar-se de que eles iriam embora, que iriam passar, e que ele estava vivendo aquilo por algum motivo. Mas a placa também era para lembrá-lo de que quando estivesse muito feliz, ele não deveria deixar tudo para trás e se deixar levar, porque esses momentos de euforia também iriam passar, e momentos difíceis viriam novamente.

Durante toda essa pandemia temos tido tempo para pensar, mais e melhor, sobre essas palavras do nosso Chico. Que possamos sair mais humanizados e solidários de toda essa crise: sanitária, humanista, política, social e espiritual.

Portanto confiemos em Deus e conforme nos disse Chico Xavier: Tudo passa... e isso também passará!

 

* Telma Simões Cerqueira é Bacharel em Nutrição pela Universidade Veiga de Almeida, artista plástica e expositora espírita. Nasceu em lar evangélico, porém se tornou espírita nos arroubos da juventude, conhecendo a Doutrina Espírita aos 23 anos. Sempre ativa no Movimento Espírita, participa das atividades do Centro Espírita Jorge Niemeyer, em Vila Isabel, Rio de Janeiro/RJ.

 

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