Autor: 
Juana de Jesús

O Evangelho não é dado a interpretações particulares, disse Simão Pedro (II Pedro 1:20). Os ensinos de Nosso Senhor Jesus são verdadeiros manás celestes que se multiplicam cada vez que conseguimos avançar um degrau na jornada da compreensão. As suas parábolas têm, portanto, variadas interpretações que merecem igualmente atenção do discípulo (a) sincero (a) do Senhor.

Em particular, a Parábola dos talentos[1] sempre nos chamou especial atenção no diz respeito à questão do medo, sentimento ainda muito presente, em nossos corações, no seu aspecto negativo: o da paralisia espiritual. O temor, como todo e qualquer sentimento, tem o seu lado positivo e o seu lado negativo. Do lado positivo, o medo faz com que não nos submetamos a situações que poderiam nos prejudicar ainda mais em nossa ascensão espiritual, a exemplo: atravessar a rua quando um carro está vindo e perder aquela reencarnação. É o instinto de conservação/preservação. Por outro lado, é negativo quando nos impede de seguir no Caminho, na Verdade e na Vida, paralisando-nos espiritualmente. É sobre este último que trataremos, neste artigo.

Na Parábola, o Senhor deixa seus 3 (três) servos com o que precisam, durante a sua ausência, para cuidarem de sua obra, conforme a capacidade de cada um deles. A infalível, soberanamente justa, sábia, amorosa e misericordiosa Providência Divina distribui 8 (oito) recursos: 5 (cinco) para um, 2 (dois) para outro e apenas 1 (um) para o último. É lógico o entendimento que de que se confia mais recursos a quem mais conseguiria não somente cuidar, mas fazer bom uso e multiplicá-los. Os dois primeiros servos, ao retorno do Senhor, entregaram os talentos recebidos em dobro, o primeiro devolveu-Lhe 10 (dez) e o segundo, 4 (quatro). O último, a quem nos identificamos, não conseguiu, porém, entregar 2 (dois) talentos e o motivo foi o medo.

Como ainda somos seres muito presos à matéria, tendemos a interpretar os recursos como bens materiais, associados à riqueza. Pensamos muitas vezes nos salários que recebemos e nos próprios bens materiais (corpo, carro, casa, dinheiro, roupas...) que temos à nossa disposição para auxiliar no trabalho da caridade. Já nos encontramos, no entanto, na condição de compreender esses recursos do ponto de vista de competências do ser, isto é, da capacidade de se comunicar, discernir, ter compaixão, ser íntegro (a), escrever, administrar... de educar!

O fato de sermos seres em evolução, do átomo ao arcanjo[2], retira toda e qualquer ideia de dons inatos ou concedidos pelo Criador a seus escolhidos. Os talentos da comunicação, das artes, dentre outros, são conquistas do Espírito e somente assim podem ser entendidos.

Sendo assim, multiplicá-los na Seara do Senhor seria espalhar as suas sementes pelo exemplo; e, para dar o exemplo, é preciso agir, é preciso, pois, seguir a Lei de trabalho. Nesse sentido, podemos compreender o medo também como ociosidade e descumprimento desta Lei Divina. O medo tem diversas formas. Nas palavras de Emmanuel, existe o:

[...] Medo de servir,

Medo de fazer amigos,

Medo de desapontar,

Medo de sofrer,

Medo da incompreensão,

Medo da alegria,

Medo da dor.[3]

Além disso, sabemos que o mal é ausência do Bem. Portanto, se não usamos devidamente os recursos concedidos pela Providência, estamos deixando o mal se propagar, deixando de levar a palavra consoladora, o carinho a(o) irmã(o) aflito, a Luz aos corações em trevas e dores... a educação espiritual sob as asas do Amor e da Sabedoria!

Por isso, alguns teóricos arriscam dizer que existem apenas dois sentimentos nos quais todos os outros se resumem: medo e amor. Do que podemos depreender que: ou estamos amando, ou estamos com medo.

O único modo de fazer isso é, sem embargo, transformando-nos em seres melhores: aprendendo a nos amar para que possamos amar aos outros e, acima de tudo, ao Nosso Pai. O exemplo fala por si.

Já amou, hoje?

* Este é segundo artigo de uma série que aborda as parábolas de Nosso Senhor Jesus. Todos eles foram concedidos pela autora para serem publicados por Espiritismo.net. Rogamos ao Mestre que abençoe todas as almas envolvidas neste belo trabalho de amor.

 

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. Capítulo XVI: Não se pode servir a Deus e a Mamon. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1. ed. – 2. imp. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. – 1. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Capítulo 132: Tendo Medo. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. 37. ed. – 4. imp. Brasília: FEB, 2017.

 


[1] KARDEC, 2019.

[2] KARDEC, 2013, q. 540.

[3] XAVIER, 2017.

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