Autor: 
Daniel Salomão

Em artigo anterior, destacamos a importância da aliança entre a pesquisa bíblica acadêmica e as informações fornecidas pelas obras mediúnicas de conteúdo histórico na busca de uma compreensão mais profunda dos episódios e ensinamentos do Evangelho. Essa postura já encontra respaldo no pensamento de Kardec, aberto ao diálogo com a Ciência e atento às contribuições mediúnicas para o conhecimento histórico, como mostra seu destaque às psicografias de ErmanceDufaux sobre as vidas de Joana D’Arc, Carlos VIII e Luiz XI, ditadas por eles mesmos.

Além dos profundos ensinamentos morais que reúne, aobra Há dois mil anos, do Espírito Emmanuel, psicografada por Chico Xavier, traz interessantes informações que podem ser comparadas com conclusões da pesquisa bíblica contemporânea, como as que se referem ao julgamento e à condenação de Jesus. O senador romano Publius Lentulus, personagem principal da obra eresidente em Jerusalém durante o processo, esteve nos bastidores da decisão de Pôncio Pilatos, tendo até mesmo se posicionado sobre a questão. Segundo Pilatos, o debate que promoveu entre as lideranças romanas nessa ocasião tinha por objetivo o exame do assunto, “de modo que meu ato não prejudique os interesses do Império, nem colida com o meu ideal de justiça”. E é nesse episódio que vamos nos deter neste artigo. Contudo, antes do julgamento pelo poder romano, Jesus foi interrogado pelas lideranças judaicas, o que não é detalhado por Emmanuel, mas merece uma breve reflexão a partir dos Evangelhos para que se compreenda melhor o contexto em que Jesus foi apresentado a Pilatos.

Mesmo sem sabermos como as informações foram obtidas por seus redatores, que não presenciaram o processo, os quatro evangelhos descrevem de forma semelhante esse primeiro interrogatório, cada um com suas especificidades. Após a prisão, Jesus foiencaminhado ainda durante a noite às lideranças do Sinédrio para que deliberassem o que fazer (Mc 14:43, Mt 26:57, Lc 22:54, Jo 18:12-13), o que se prorrogou até as primeiras horas da manhã (Mc 15:1, Mt 27:1, Lc 22:66). Mateus e Marcos apresentam registro quase idêntico, destacando a procura por parte do Sinédrio, segundo os costumes judaicos, de algum testemunho que justificasse a pena capital para Jesus, mesmo que falso. Segundo eles, algumas testemunhas declararam ter ouvido do interrogado: “eu destruirei este Templo feito por mãos humanas e, depois de três dias, edificarei outro, não feito por mãos humanas” (Mc 14:58, Mt 26:61), o que, apenas segundo Marcos, não se mostrou suficiente aos interrogadores (14:59).

Enquanto João apenas informa um questionamento do Sumo Sacerdote sobre a doutrina exposta por Jesus(18:19), os sinóticos descrevem certo acirramento do debate. Na ausência de testemunho adequado, o interrogador tentou conseguir uma confissão, como destacamos no registro de Marcos:

 

Ele, porém, ficou calado e nada respondeu. O Sumo Sacerdote o interrogou de novo: “És tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?” Jesus respondeu: “Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu”. O Sumo Sacerdote, então, rasgando as suas túnicas, disse: “Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia. Que vos parece?” E todos julgaram-no réu de morte (Mc 14:61-64).

 

Também Mateus e Lucas registram nesse momento a presença dos três títulos futuramente atribuídos a Jesus, de Cristo ou Messias, Filho de Deus e Filho do Homem.Porém, enquanto Marcos afirma ter Jesus se reconhecido como tal (“eu sou”), em Mateus (26:64) e Lucas (22:70) o interrogado atribuiu essa conclusão ao Sinédrio (“tu o disseste” e “vós dizeis que eu sou”, respectivamente). Há também a hipótese de que a resposta em Marcos seja, em verdade, uma pergunta (“eu sou?”), o que pode ser mais coerente com os registros paralelos, em que Jesus não se afirma diretamente como Messias e Filho de Deus. Afinal, para Jesus, talvez essas associações devessem vir da avaliação de seus atos e ensinos por parte de seus seguidores.

A referência à vinda do Filho do Homem, sempre no futuro, é feita espontaneamente por Jesus, mas não constanas perguntas direcionadas a ele. Ainda que apareça em terceira pessoa, como se se tratasse de um outro indivíduo, é bem aceito que Jesus tenha se identificado com essa figura. A expressão “filho do homem” tinha aplicações cotidianas, referindo-se a um homem qualquer, a si mesmo, ou a um ser com forma humana. Porém, ao ser aplicada à descrição de uma figura celestial no livro de Daniel (7:9-14), aproximadamente dois séculos antes,acabou por abraçar também a conotação apocalíptica de grande juiz do fim dos tempos, imagem associada pelos primeiros cristãos a Jesus.

De qualquer forma, importante é destacar que, antes de ser levado a Pilatos, já estavam na mente das lideranças judaicas seus “crimes” de ameaça ao Templo e de se autodenominar o Messias esperado, descendente de Davi(Mc 11:9-10; Mt 21:9; Lc 19:38 e Mc 13:1-2; Mt 24:1-2; Lc 21:5-6), que justificariam a execução de Jesus. De certo modo, Jesus foi preso devido às suas falas perante oTemplo, contrárias à próspera aristocracia sacerdotal, ainda que não tenha sido condenado por isso pelos romanos. Nesse sentido, na percepção de Ana, humilde serva da esposa de Publius Lentulus, todo o processo se iniciou “pela ingratidão de um dos discípulos, em virtude do despeito e da ambição dos sacerdotes e fariseus do Templo da grande cidade israelita”.

Sob dominação de Roma, o Sinédrio não tinha liberdade para executar ou determinar a execução de ninguém, dependendo de Pilatos para isso. Todavia, a acusação que tinha importância em uma das instâncias possuía pouca ou nenhuma significação para a outra: não era crime de blasfêmia para o judaísmo dizer-se Messias, nem importava substancialmente à administração romana a profecia de Jesus contra o templo, não merecedora de pena de morte. Contudo, as lideranças judaicas usaram aprópria expectativa de que o Messias vindouro seria o rei de Israel (Jr 23:1-6; Zc 9:9-10; Mq 5:1-3), um dos entendimentos à época, para sustentar sua posição contra Jesus perante a autoridade romana.

Ainda pela manhã, como informa Marcos:

 

Pilatos o interrogou: “és tu o rei dos judeus?”Respondendo, ele disse: “Tu o dizes”. E os chefes dos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas. Pilatos o interrogou de novo: “Nada respondes? Vê de quanto te acusam!” Jesus, porém, nada mais respondeu, de sorte que Pilatos ficou impressionado (Mc 15:2-5).

 

A acusação de que Jesus teria pretensões de ser rei o colocava na posição de um revolucionário, contrário à dominação romana. Enquanto o registro de Mateus (27:11-14) é praticamente idêntico ao de Marcos, Lucas (23:2) ainda acrescenta os próprios argumentos dos acusadores, de que Jesus estaria “subvertendo nossa nação, impedindo que se paguem impostos a César e pretendendo ser Cristo Rei”. Contudo, mais uma vez Jesus atribuiu as conclusões sobre ele aos interrogadores, agora sobre ser ou não “rei dos judeus” (“tu o dizes”). Apenas em João (18:36), Jesus apresentou uma resposta, explicando que seu reinado não era terrestre, não era “deste mundo”, como nós bem entendemos. Importante é salientar que, do ponto de vista espírita, não é um problema identificar diferenças, contradições entre os Evangelhos ou mesmo possíveis erros de redação, pois a leitura bíblica que fazemos não guarda expectativas de inerrância dos textos, em acordo com a postura de Kardec. Os quatro evangelhos, porém, concordam que, para Pilatos, a acusação pareceu vazia.

Segundo a obra Há dois mil anos, devido à revelação de um sonho de sua esposa, que recomendava seu não envolvimento no caso (Mt 27:19), o representante do poder romano convocou lideranças romanas da região para discutir com cuidado a denúncia do Sinédrio, incluindo Publius Lentulus. Ao expor seu entendimento ao senador, Pilatos afirmou, como também registram os Evangelhos,não ver culpa alguma em Jesus, “senão a de ardente visionário de coisas que não posso ou não sei compreender, surpreendendo-me amargamente o seu penoso estado de pobreza”. Publius corroborou as conclusões de Pilatos, de que nada haveria nas palavras deJesus que “se erguesse contra qualquer instituto social ou político do Império”, e recomendou que o réu fosse encaminhado a Herodes Ântipas, em conformidade com a narrativa presente apenas Lucas (23:6-12). Sendo Jesus galileu, pertencia à jurisdição de Herodes, tetrarca da Galileia e da Pereia, o qual estava em Jerusalém na ocasião. Contudo, como também atesta Emmanuel, o governante tratou Jesus e a acusação contra ele com deboche, devolvendo-o a Pilatos em humilhante condição e sem um parecer sobre o caso.

O retorno a Pilatos é narrado apenas em Lucas e João. Segundo o primeiro, 

 

Depois de convocar os chefes dos sacerdotes, os chefes e o povo, Pilatos disse-lhes: “Vós me apresentastes este homem como um agitador do povo; ora, eu o interroguei diante de vós e não encontrei neste homem motivo algum de condenação, como o acusais. Tampouco Herodes, uma vez que ele o enviou novamente a nós. Como vedes, este homem nada fez que mereça a morte. Por isso eu vou soltá-lo, depois de o castigar” (Lc 23:13-16). 

 

Como ocorre em outros trechos já citados, Pilatos insistiu na inocência de Jesus. Conforme Emmanuel, a ideia de açoitá-lo na tentativa de aplacar a fúria dos acusadores veio de um ajudante de ordens, ao perceber que a multidão ameaçava “invadir a casa”. Interessante é o relato desse mesmo ajudante, de que havia conversado com Jesus nesse ínterim, o qual lhe afirmou poder “invocar as legiões de seus anjos e pulverizar toda a Jerusalém dentro de um minuto, mas que isso não estava nos desígnios divinos, e sim a sua humilhação infamante, para que se cumprissem as determinações das escrituras” e não ter interesse em apelar juridicamente às autoridades romanas para solução de seu caso, o que se assemelha aos textos de Jo 18:36 e 19:10, que, contudo, registram esse diálogo entre Jesus e o próprio Pilatos.

Porém, a flagelação pública não foi suficiente.Conforme nos informa Emmanuel, “não parecia que os peregrinos de Jerusalém haviam acorrido à cidade para as comemorações da Páscoa, mas, tão somente, para procederem à condenação do humilde Messias de Nazaré”,o que atesta o apoio da massa à proposta do Sinédrio. Por uma sugestão do próprio Publius Lentulus, Pilatos, então, propôs à multidão a condenação de um criminoso no lugar de Jesus, o que era um costume do povo por ocasião da festa (Mc 15:6; Mt 27:15; Jo 18:39).

 

Eles, porém, vociferaram todos juntos: “Morraesse homem! Solta-nos Barrabás!” Este último havia sido preso por um motim na cidade e por homicídio. Pilatos, querendo soltar Jesus, dirigiu-lhes de novo a palavra. Mas eles gritavam: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Pela terceira vez, disse-lhes: "Que mal fez este homem? Nenhum motivo de morte encontrei nele! Por isso vou soltá-lo depois de o castigar”. Eles, porém, insistiam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado; e seus clamores aumentavam (Lc 23:17-23).

 

Assim, ainda em conversa com o senador, Pilatos concordou que todas as medidas para livrar Jesus estavam esgotadas. A pressões eram grandes. Segundo Emmanuel, sua fidelidade a César começava a ser questionada, dada a “intriga dos sacerdotes do templo”, que valorizavam as falsas pretensões de realeza terrestre por parte de Jesus.Logo, ainda que contrário às demandas do Sinédrio, o governante romano rendeu-se à decisão de crucificar Jesus. Como atesta apenas Mateus (27:24), “pegou água e, lavando as mãos na presença da multidão, disse: ‘Estou inocente desse sangue. A responsabilidade é vossa’”, em ato simbólico que o “celebrizaria para sempre”. A decisão estava tomada. Importante é destacar que, tanto nos Evangelhos quanto na obra de Emmanuel, Pilatos é apresentado como um juiz sensível e cuidadoso em sua decisão perante a insistência das lideranças judaicas. Contudo, na própria obra Há dois mil anos e em relatos de judeus do século I d.C., como Filo de Alexandria e Flávio Josefo, são atestadas graves dificuldades morais do governante.

Enfim, os Evangelhos, Emmanuel e os pesquisadores, em geral, concordam que os incômodos judaicos não foram suficientes para a condenação de Jesus: nem a pretensa profecia contra o templo, nem sua associação ao Messias. Para alguns estudiosos, diante da impotência do Sinédrio para aplicar sentenças de morte, sua condenação por Pilatos deveu-se à interpretação de sua atitude como de rebeldia contra o poder romano, mesmo não sendo Jesus “um pretendente ao trono de Davi, ou um suposto líder revoltoso contra Roma”. Ademais, levando em conta apenas os textos bíblicos, “há nos Evangelhos poucos elementos acerca de um reino de Deus a ser estabelecido pela força”. Contudo, como vimos, segundo a obra Há dois mil anos, nem Publius Lentulus nem Pilatos pensaram dessa forma, mas cederam à pressão pública e política. De qualquer forma, Jesus foi executado como um criminoso político.

Concluindo, em uma análise comparativa, podemos observar que a história do julgamento contada por Emmanuel inclui todos os relatos evangélicos, mesmo os que não são coincidentes em todos eles, em quase total concordância. Uma pequena diferença está na atribuição de um dos diálogos com Jesus a um ajudante de Pilatos, enquanto João o atribui ao próprio, como apontamos.Ademais, ainda que secundária perante a proposta ética de Jesus, a qual deve ser central em nossas reflexões, entendemos como importante a discussão comparada entre as contribuições históricas e mediúnicas para os estudos bíblicos. Se hoje a posição acadêmica é mais criteriosa e menos pretensiosa quanto às práticas e conclusões da pesquisa histórica, também as contribuições mediúnicas, como já entendia Kardec, merecem análise cuidadosa.Nesse sentido, somando-se, contribuições científicas e espíritas só têm a ganhar umas com as outras, na direção de uma compreensão mais sólida e segura da sublime passagem de Jesus pelo planeta.

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