“Não proibição, mas educação”.1

O Carnaval é, sem dúvida, uma das manifestações culturais mais marcantes da sociedade brasileira. Para muitos, representa um período de alegria, descontração e convivência social intensa. Entretanto, à luz da Doutrina Espírita, essa festividade nos traz outra visão, mais profunda e reflexiva, que não se baseia em proibições rígidas, mas na educação da consciência e no exercício responsável do livre-arbítrio.
O Espiritismo não ignora o valor das expressões culturais nem propõe uma postura de isolamento social. Porém, oferece critérios para que compreendamos os efeitos morais e espirituais de nossas escolhas. Por isso, o Espírito Emmanuel observa que “nenhum Espírito equilibrado, em face do bom senso que deve presidir a existência das criaturas, pode fazer a apologia da loucura generalizada que adormece as consciências nas festas carnavalescas”.2 A advertência não se dirige à festa em si, mas aos excessos que frequentemente surgem.
Historicamente, as raízes do Carnaval remontam a celebrações da Antiguidade, como as bacanais gregas e as saturnálias romanas, marcadas pela suspensão temporária de normas sociais e pelo estímulo aos sentidos. Tais práticas são compreendidas como resquícios de um estágio mais primitivo da humanidade. Manoel Philomeno de Miranda, Espírito, descreve o Carnaval como um “vestígio de barbárie e primitivismo que tende a desaparecer à medida que a Humanidade progredir moralmente”.3 Assim, a reflexão espírita concentra-se menos na tradição cultural e mais nos comportamentos que emergem nesse período.
Entre esses comportamentos, destacam-se a perda do autocontrole, os desregramentos e o abuso dos sentidos, fatores que podem levar ao adormecimento da consciência moral. Atitudes assim não terminam nos limites do corpo físico nem no curto espaço de tempo da festa, mas produzem efeitos que se prolongam na vida espiritual das pessoas.
Um ponto central dessa análise refere-se às influências espirituais, pois pensamentos e emoções possuem natureza vibratória, criando campos de afinidade que aproximam encarnados e desencarnados em sintonia semelhante. Durante o Carnaval, a concentração mental de multidões em estados de excitação, somada ao uso frequente de álcool e drogas, forma o que Philomeno de Miranda descreve como densas “nuvens psíquicas de baixo teor vibratório” 3 que se estendem sobre as cidades.
Nesse ambiente, ocorre uma intensa interação entre os planos físico e espiritual, configurando uma verdadeira simbiose psíquica. Espíritos desencarnados, ainda presos às paixões e aos vícios, encontram nos encarnados meios para a satisfação indireta de seus desejos. Muitos foliões, sem perceber, tornam-se instrumentos passivos dessas influências.3 O Espírito Jair Presente, através das mãos de Chico Xavier, acrescenta que, por trás de inúmeros episódios de exaustão, violência ou morte associados à festa, encontra-se o vício, que consome a vitalidade física e espiritual dos envolvidos.4
A invigilância típica desses dias favorece o retorno de impulsos instintivos que apenas longos processos educativos conseguem atenuar. Novamente, Emmanuel alerta que essa entrega descuidada pode abrir amplas brechas para processos obsessivos, afirmando que, em certas circunstâncias, “toda uma existência não basta para realizar os reparos precisos de uma hora de insânia e de esquecimento do dever”.2 Relatos espirituais mencionam, inclusive, médiuns que, após se entregarem de forma imprudente à folia, retornam aos seus lares acompanhados por entidades perturbadas, atraídas pela afinidade vibratória.5
Outro aspecto relevante diz respeito ao uso de substâncias tóxicas. Philomeno de Miranda comenta que essas substâncias liberam elementos que se fixam nas delicadas estruturas do perispírito, comprometendo seu equilíbrio e exigindo, por vezes, múltiplas reencarnações para o completo restabelecimento.3 Trata-se de um dano que ultrapassa o campo físico e alcança dimensões mais profundas do ser.
Apesar desse cenário, o Mundo Espiritual Superior não se mantém indiferente. Durante o período carnavalesco, são mobilizadas equipes de trabalhadores espirituais em verdadeiros serviços de emergência, com o objetivo de minimizar desvarios, acidentes e suicídios, socorrendo os mais vulneráveis. E sob a coordenação de benfeitores como Dr. Bezerra de Menezes, postos de atendimento são organizados nas proximidades dos grandes centros de folia, atendendo pessoas que, durante o sono físico, clamam por auxílio em favor de familiares envolvidos nos excessos.3
Entretanto, Irmão X chama a atenção para um fator agravante: o fato de que muitos núcleos de irradiação espiritual, como igrejas e centros espíritas, reduzem suas atividades ou fecham durante o Carnaval. Essa pausa facilita a ação de forças perturbadoras, deixando mentes desprevenidas mais suscetíveis ao assédio espiritual.6
Diante desse quadro, qual seria, então, a conduta recomendada? O amigo espiritual André Luiz sugere o “afastamento de atividades de caráter festivo que possam levar ao mergulho inconsciente no desajuste”7, lembrando que a verdadeira alegria caminha junto com a temperança. O Espiritismo não defende a censura amarga nem a condenação das pessoas, mas convida ao discernimento e à escolha consciente.
Muitos espíritas aproveitam o período carnavalesco para o recolhimento, o estudo, a meditação, o convívio familiar e o lazer saudável, afastando-se daquilo que Philomeno de Miranda denomina “onda de sombras”3 que acompanha a festa popular. Mas Emmanuel vai além, ao sugerir que os recursos financeiros gastos nos excessos carnavalescos poderiam ser transformados em auxílio aos necessitados, convertendo o supérfluo em esperança para os que sofrem.2
O Carnaval, portanto, observado e compreendido a partir dessa perspectiva, não é apenas um evento social, mas um verdadeiro teste para o livre-arbítrio. Cada consciência é chamada a observar a si mesma, avaliar suas motivações e refletir sobre as consequências de suas escolhas. Sem impor proibições, a Doutrina Espírita propõe educação moral, equilíbrio e responsabilidade, convidando o indivíduo a harmonizar a vida social com o compromisso inadiável da própria evolução espiritual.
Equipe Doutrinária do Espiritismo.net
Bibliografia:
EMMANUEL (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido (Médium). Vida e Sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1971. ↩︎
EMMANUEL (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido (Médium). Cartas do Alto. Cap. 74: Sobre o carnaval. Araras, SP: IDE, 1987. ↩︎ ↩︎
MIRANDA, Manoel Philomeno de (Espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (Médium). Nas Fronteiras da Loucura. Salvador: LEAL, 1982. ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎
PRESENTE, Jair (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido (Médium). Agência de notícias. Cap. 5: Concurso de samba. São Bernardo do Campo, SP: GEEM. ↩︎
PIRES, Cornélio (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido (Médium). Ação, vida e luz. Cap. 14: Carnaval. São Paulo: Edicel. ↩︎
IRMÃO X (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido (Médium). Verdade e amor. Cap. 22: Cousas do carnaval. Araras, SP: IDE. ↩︎
LUIZ, André (Espírito); VIEIRA, Waldo (Médium). Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 1960. ↩︎