Autor: 
André Henrique de Siqueira

Aprendendo toda hora

 

 

 

 

Noite alta e Josefino Carreras consultava a própria consciência. O escuro da habitação singela, cravada em em meio ao agreste rústico, contrastava com a serenidade na alma e a luminescência interior de seu coração dedicado.

 Carreras era um homem de poucas palavras. Agricultor desde menino, conhecia as durezas do tempo tanto quanto a secura da terra. Na lida com o sertão bravio aprendera a lutar silenciosamente pela vitória da vida usando a enxada e o balde, a picareta e o balaio nos embates que a natureza lhe oferecia. Sabia agradecer o tantinho de chuva que lhe garantia a sobrevivência, e se tinha um costume incomum era o de dançar no pátio quando o céu chorava de alegria, em dias de chuva boa.

 Josefino conhecia os segredos da Terra. Sabia onde a água se escondia e onde os bichos se alimentavam. Apurado no lidar com a terra seca, tinha as mãos calejadas mas o coração tranquilo.

 Pode-se dizer que era um sábio: dia e noite, no entrementes da lida, consultava o próprio pensamento investigando o porquê e o como das coisas. Não era um homem letrado. Vez por outra - e com dificuldade - lia uma página da Bíblia surrada, presente de sua mãe. E afora a cartilha do bê-a-bá, fora o único livro que já tinha visto. Por isso era solene quando tinha tempo para leitura.

 Não fosse seu cachorro Deca - contração de "cara DE CAchorro" - seria um homem sozinho. Uma vez, quando ainda era jovem, enamorou-se de Mariazinha, mas quando ela morreu, o sofrimento foi tanto, que preferiu não se apaixonar novamente: seria melhor não sentir aquela dor de novo - pensava silencioso.

 Apesar das poucas letras, e da pouca convivência com pessoas, Carreras era um homem bom, disposto ao crescimento sincero. Mergulhava na própria alma com a  experiência de um escafandrista e sabia recolher tesouros do fundo dos sentimentos, das experiências e das reflexões.

 Naquela noite ele pensava. Havia visto uma árvore, que julgava morta - pelos anos de secura, arrebentar em insinuações de verde por causa de uma chuvinha bondosa da semana passada. E refletindo sobre o crescimento da vida renovada, perguntava a si mesmo:

 - Que é que faz a alma crescer? O corpo a gente alimenta. Dá água quando tem. Mas a alma, como cresce? Como é que fica bom um cabra que não é direito? Como é que fica sabido um cristão que nem sabe ser?...

 Josefino mordia os pensamentos como quem quisesse alimentar-se. E não fazia com pressa... Por isso as respostas vinham. Era curioso olhar dentro da cabeça dele para ver o desafio de fazer e responder, pausando para refletir o que ele mesmo elaborava.

 Dizia para Deca, como se o cachorro entendesse o filosofar anoitecido:

 - Ói Deca, tenho para mim que alma tem caminho!... Igual a peba que sabe andar dentro da terra. Nossinhô deve de ter dado um caminho de certeza pro homi que quer ser bom... Otrodia eu li uma tar de aventurança... O padre disse que era roteiro, mas num sei o que é roteiro. Mas discunfio seja caminho mermo...

 O cachorro olhava silencioso, esperando o próximo carinho.

 - Tenho pra mim é que preciso saber primeiro da própria ignorança. Se o homi acha que sabe o que não sabe, nunca vai puder aprender, né não? Isso é o que entendo de humildade: saber o que se sabe e saber o que não se sabe... A pessoa que pensa que "é o que não é" se enche o tal orgulho que impede o homi de aprender... É como a semente que faz força achando que a água tá perto e gasta o que tem sem saber isperá a lição das estações... Então eu acho que o caminho começa mermo na humildade.

 Deca balançava o rabo. E Josefino, animado com o assentimento, seguia seu solilóquio:

 - Mas o cabra que tem mermo vontade de ser bom, eu acho que tem saber resistir. Ingual aquela árvore veia que nós vimos hoje... Tem aprender a sofrer e transformar tudo em oportunidade. Cê viu que ela fez com a chuvinha pouca? Pra mais de três anos que a veia parecia ter morrido - inté penssei em usar ela em fogueiro - mas foi só cair uma águinha e tá lá a belezura de verdagem!... Penso que a alma é assim: sofre.. sofre... sofre... mas quando aprende é igual a árvore veia que recebe chuva, cresce que é uma beleza... Até sisquece do tempo que foi ruim... E aprende a guardar forças para enfrentar má estação.

 Ói Deca! Eu preciso ser justo... Creditei naquele pau véio não... Pensei mermo tivesse morrido. Mas o danado cresceu feito porco cevado, só por causa de uma chuvinha... A alma deve ser assim. Aprende com a lida, sofre e se arruma de jeito, para seguir no rumo do benzadeus! Mas tem que fazer esforço! Por que quem é preguiçoso nessa vida num consegue nada! Tem que ter coragem para aprender. E força para resistir. Eu fico pensando Nosso Senhor na cruz, uma coragem danada! Não teve medo nem raiva... Só agradecia. E quando lhe deram vinagre pra beber - acredita Deca!?, deram vinagre a ele com sede!... Ele inté bebeu... Mas fez cara ruim não. Agradeceu foi mais. Era homem bom mermo! Eu fico comigo matutando: isso é lição pra nóis! Quando a secura da vida trazer lição de dor é necessaro pensar mió! E aprender com as dor. Tirar delas o tantinho de água que alimenta, igual a árvore véia!...

 O animal já se deitara. Parecia acompanhar a reflexão de seu sábio dono.

 - Vamo durmi Deca! Manhã tem mais dia e mais luta. Por hoje tô convencido de que alma cresce com humildade, aprende com sofrimento, mas tem que fazer força pra verdejar... Manhã vou contar pras macaxeira, pra ver se elas aprende!... Vô inté levar um balde da água de casa. E vou deixar um pouquinho na pranta veia, pela lição que a bicha me deu!... Eita sô! É vivendo e aprendendo!... É morrendo e aprendendo mermo!... Vamo durmi Deca... Vamos durmi!

 O cachorro concordou com um salto. Dirigiram-se para a dentro de casa, cada qual para a sua cama. De olhos cerrados, pareciam meditar na lição da árvore velha: viver e reviver aprendendo toda hora...

 

 

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