“Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” – Jesus (Tiago, 2:17.)
“A fé, na essência, é aquele embrião de mostarda do ensinamento de Jesus que, em pleno crescimento, através da elevação pelo trabalho incessante, se converte no Reino Divino, onde a alma do crente passa a viver.” – Emmanuel e Chico Xavier (“Fonte Viva”, Cap. 39)

Ao voltarmos novamente as nossas atenções para a Parábola do Grão de Mostarda, passamos a refletir de forma mais detida sobre a natureza da evolução espiritual e a força latente que reside no íntimo de cada criatura. Jesus, em sua sabedoria pedagógica, utilizou-se desse pequeno elemento da natureza para ilustrar verdades que guardam uma aragem e uma urgência admiráveis para os tempos de transição que atravessamos.
Compreendemos que o Divino Mestre recorreu a essa imagem em contextos distintos, um público e outro privado, mas sempre preservando um fio condutor essencial, que foi o ensino de uma fé viva, prática e capaz de operar grandes transformações na alma humana.
Iniciamos nossa reflexão observando o primeiro momento, quando Jesus ensinava às multidões à beira do lago ou nos caminhos da Galiléia. Naquele cenário de conversa ao ar livre, o povo, cansado e esperançoso, aguardava sinais grandiosos de um Reino de Deus que imaginavam ser político ou espetacular. A lição, contudo, aponta para o mínimo, para o que quase passa despercebido: ela utiliza a semente minúscula para mostrar que o divino trabalha discretamente, crescendo por dentro antes de se tornar visível.
Como bem nos esclarece Cairbar Schutel, em sua obra “Parábolas e Ensinos de Jesus”, na seção dedicada a este tema, o conhecimento desse Reino cresce em nós como a própria planta, operando significativas mudanças em nosso mundo íntimo, a ponto de nos tornarmos um centro de apoio moral e espiritual não apenas para nossos semelhantes, mas também para nós mesmos, amparados pela companhia constante dos Espíritos elevados que se afinam com nossos propósitos de renovação, tal como os pássaros que buscam as árvores mais vigorosas para seu repouso. Percebemos, assim, que a proposta do Cristo não é de um arrebatamento súbito, mas de um processo de desenvolvimento interno, constante e delicado, que exige o trabalho do estudo e da pesquisa para que a semente se transforme em árvore generosa.
O segundo contexto apresenta um clima inteiramente diverso. O Mestre descia do Monte da Transfiguração e encontrou seus discípulos em meio à frustração e confusão, pois tentaram ajudar um rapaz perturbado e não conseguiram. Em um ensinamento íntimo, quase uma correção amorosa, Jesus explica que o insucesso deles decorria da incredulidade ou de uma fé ainda misturada com hesitação. Ao afirmar que a fé do tamanho de um grão de mostarda poderia mover montanhas, Jesus não se referia a massas de terra, mas às dificuldades morais, aos preconceitos e às resistências que encontramos em nossa caminhada.
Para nós, sob a luz da Doutrina Espírita, essa fé representa uma verdadeira força atrativa que aciona as faculdades do Espírito em direção ao Criador. Conforme nos assevera Allan Kardec, em “O Evangelho segundo o Espiritismo", no capítulo XIX, item 7: “fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”. Somente essa fé raciocinada é capaz de suportar as vicissitudes, convertendo a semente de confiança inicial em um carvalho de certezas espirituais.
O paralelo entre esses dois momentos revela a essência do Evangelho, pois, se no grão, aprendemos que o Reino Celeste começa pequeno e cresce sutilmente, na montanha, compreendemos que a fé, mesmo pequena, precisa ser inteira e sem divisões interiores para ser transformadora. A Deus não lhe agrada os atos exteriores, somente a perseverança que se traduz em obras. A aplicação prática dessa lição sugere que deixemos de ser observadores passivos para nos tornarmos operários diligentes na própria evolução.
Assim, a fé é fruto do esforço pessoal e do cumprimento do dever, como afirma Cairbar Schutel, em “Parábolas e Ensinos de Jesus”, no capítulo sobre o Servo Trabalhador: “a fé é o salário dos bons obreiros, e para que esse salário seja aumentado, é preciso que os obreiros cumpram primeiramente seus deveres”. Significa dizer que cada pequeno ato de caridade e cada esforço de reforma íntima representam o desenvolvimento fecundo da semente divina em direção à sua plena floração, oferecendo sombra e amparo a todos os que caminham no deserto arenoso da existência terrena.
Equipe Doutrinária do Espiritismo.net