Pais x filhos
- A autoridade em crise
(Revista Planeta - Edição 433)
http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/433/artigo105014-1.htm
A autoridade parental é indispensável para a construção do caráter e da
personalidade dos filhos. Crianças criadas sem consciência de limites se tornam
adultos frustrados e infelizes. Muitos pais, porém, têm medo de desempenhar seu
papel de educador, confundindo autoridade com autoritarismo
Por Luís Pellegrini

"TENHO MEDO DE SUFOCAR SUA
PERSONALIDADE OU SUA CRIATIVIDADE"
Autoridade e autoritarismo são coisas muito diferentes. Ambas as palavras têm o
mesmo radical: autor. Mas, enquanto a primeira pode ser entendida como o poder
de impor limites necessários para a convivência em sociedade, a segunda indica
um exacerbamento desse poder, realizado pela simples imposição de uma idéia sem
possibilidade de contraposição.
É exatamente por confundir e misturar os significados de autoridade e de
autoritarismo que tantos pais, hoje, têm medo de exercer qualquer forma de poder
sobre seus filhos - seja ele justo e necessário à boa educação da criança ou um
poder ilícito e prepotente, ditado apenas pelo desejo arrogante de se impor a
qualquer custo.
Em qualquer tipo de relação humana, o autoritarismo é sempre estúpido e nefasto.
Mas, em relações do tipo professor/aluno e, sobretudo, nas relações entre pais e
filhos, a autoridade é indispensável para a construção sadia da criança.
A autoridade enfrenta séria crise na sociedade contemporânea. Levadas ao
exagero, sentenças do tipo "é proibido proibir", que se transformaram em
palavras de ordem nos anos hippies das décadas de 1960 e 1970, fizeram muito
mais estragos do que se poderia supor naqueles momentos de farra libertária.
Plantaram nas mentes e nos corações a convicção falsa e perigosa de que, na
vida, tudo são direitos e nada é dever. Boa parte dos pais de hoje (eles mesmos
mal-educados) simplesmente não sabe o que fazer para controlar a rebeldia dos
filhos, perdendo-se no interior de situações esdrúxulas nas quais quem deveria
ser comandado comanda, e quem deveria mandar comete um desmando atrás do outro.
Ou vocês, caros leitores, acreditam que o sucesso de séries televisivas tipo
Supernanny se deve a um simples modismo?
A crise da autoridade parental é real e se reflete em projeções danosas em todos
os demais aspectos da sociedade. No Brasil, basta prestar atenção ao que
acontece atualmente em todas as esferas do poder governamental, seja ele
executivo, legislativo ou judiciário. Há total confusão entre autoridade e
autoritarismo, gerando situações de descalabro caótico, de sambas do crioulo
doido nos quais o grampo e a espionagem campeiam soltos e ninguém leva a
legalidade realmente a sério. O problema é exemplar e vem do berço. Quem não
aprendeu desde cedo a ter consciência de limites tenderá a viver e a manifestar
até o fim a sua patologia de descomedimentos.
Voltemos ao tema: a crise da autoridade parental. Quem, ao visitar algum casal
amigo com criança pequena e preferir, às 10 horas da noite, dizer "tchau" e ir
embora - já que a conversa era impossível com aquele pirralho que não parava de
gritar -, não ouviu desculpas do tipo: "Ele não quer ir dormir", "é um inferno
toda vez que chega a hora de fazer os deveres da escola", "ele faz tudo o que
lhe dá na cabeça"...
Nos consultórios, os psicólogos especializados em problemas de família ouvem
esses mesmos desabafos todos os dias. Qual é a causa dessa grande desordem
familiar? A ausência da autoridade, dizem os especialistas. Esses pais, que
pensam cuidar bem de seus filhos e procuram ser o mais zelosos e atentos
possível, não impõem aquilo que deveriam impor. Seja porque rejeitam, "por
princípio", toda posição de autoridade, seja porque, embora querendo manifestar
sua autoridade, não conseguem mantê-la por mais de alguns instantes.
Sabemos todos, no entanto (e os educadores que trabalham em comunidades
periféricas carentes melhor que ninguém), que é a falta de educação e, portanto,
de autoridade - familiar, escolar ou social - que fabrica a delinqüência. Educar
uma criança significa ensiná-la a se tornar um ser civilizado. Isso pressupõe,
no que diz respeito aos pais, firmeza, constância e, sobretudo, a convicção de
que essa autoridade é legítima porque sem ela não é possível uma construção
correta da criança.
Para que isso realmente aconteça, é preciso, em primeiro lugar, que os pais
superem as suas próprias resistências internas, às vezes muito sólidas, que se
opõem a esse exercício. Para a moderna psicologia, são os medos dos pais que os
impedem de se posicionar de modo correto. Claude Halmos, importante psicanalista
francesa, explica quais são esses medos e como se livrar deles em seu livro
L'Autorité expliquée aux parents (A autoridade explicada aos pais), lançado há
pouco na França pela Editora Nil.
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"TENHO MEDO QUE MEU FILHO DEIXE DE ME AMAR.
" Para Claude, esse é o medo
que vem em primeiro lugar. O medo de ser rejeitado leva o genitor a dizer sempre
"sim" e a proibir o menos possível. Esse medo, no entanto, parte de uma idéia
falsa, segundo a qual uma criança seria feliz "sem limites". Ora, uma criança
deixada entregue a suas próprias pulsões e seus desejos não poderá ser feliz.
Ela estará limitada, incapacitada para a vida social, a escola, pois não saberá
respeitar as regras que possibilitam a convivência. Estará despreparada para a
vida a dois, pois esperará que seus companheiros lhe permitam tudo, como faziam
seus pais.
A criança "sem limites" vive constantemente angustiada, pois não encontra
nenhuma barreira que a proteja de si mesma e do mundo exterior.
Toda criança começa por recusar os limites, mas essa recusa esconde, na verdade,
uma procura deles, pois ela sabe que são necessários. Por isso, a autoridade é
uma prova de amor, e não de desamor. Podemos dizer-lhe: "Se eu não o amasse, não
me importaria com aquilo que você vai se tornar e o deixaria fazer tudo o que
lhe desse na telha."
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"TENHO MEDO DE SUFOCAR SUA
PERSONALIDADE OU SUA CRIATIVIDADE." Certas formas de autoridade - que deveríamos
chamar, mais apropriadamente, de autoritarismo - podem efetivamente "quebrar" a
personalidade de uma criança. A "autoridade de domador", por exemplo, que
pretende submeter a criança ao poder arbitrário do adulto: "Eu sou seu patrão,
você tem de me obedecer!" Mas a autoridade verdadeira a que se refere Claude em
seu livro é diferente por duas razões.
"A primeira é que ela se dirige a uma criança que ouvimos e respeitamos. A
segunda é que não exigimos uma submissão da criança ao adulto, mas uma submissão
à regra enunciada por este último, à qual todos estamos submetidos (não bater
nos outros, não roubar, etc.)." Essa autoridade verdadeira, além de não arranhar
a personalidade da criança, favorece o seu florescimento. Quando evolui num
universo devidamente sinalizado no qual a interdição é claramente colocada e
compreendida, a criança se sente em segurança e encorajada para a criatividade.
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"TENHO MEDO DE SER UM PAI
VIOLENTO."
Bastaria uma única palavra, um único tapa para traumatizar uma criança para todo
o sempre; é necessário, assim, engolir o sapo e permanecer impassível diante de
uma criança em crise de birra desenfreada. "Essas falsas convicções, devidas em
grande parte a uma leitura equivocada da psicologia da criança, constituem a
raiz desse medo", explica Claude. Esse medo, no entanto, é perigoso, uma vez
que, ao proporcionar aos pais uma imagem muito negativa da sua agressividade,
inibe-a totalmente. Ora, segundo Claude, quando somos levados ao desespero por
uma criança que grita, dá chutes e quebra as coisas, é legítimo e desejável
exprimir a própria cólera, mesmo se os meios pelos quais nós a expressamos não
sejam sempre aqueles que teríamos gostado de usar. Assim, a criança compreenderá
que seus pais, e a outra pessoa em geral, são, como ela, sensíveis às agressões.
O respeito pelos outros começa pelo respeito aos próprios pais. Mas o respeito
nunca transita em mão única. Para ensinar a uma criança o que é o respeito ao
próximo, é preciso primeiramente mostrar que você a respeita.
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"TENHO MEDO DE PUNIR." Fica
subentendido: "Prefiro conversar." Como se a punição fosse um insulto à
inteligência da criança... Para Claude, a punição, quando não é humilhante e é
proporcional à falta cometida, não constitui uma forma de maus-tratos. "A
punição é indispensável. A proibição deve ser ensinada à criança. Se ela
transgride uma primeira vez, um chamado à ordem pode bastar. Mas se ela continua
a transgredir, a punição é indispensável, e cada genitor deve inventar a punição
que lhe parecer mais adaptada à criança e à gravidade da transgressão. Como uma
criança poderá compreender a importância de uma regra se uma punição não
sanciona a sua transgressão?"
Na opinião da psicóloga, é bem mais prejudicial para a criança e a sociedade que
ela cresça com a idéia falsa e perigosa de que pode fazer o que bem entende,
inclusive cometer atos maldosos, e gozar de toda impunidade. Sem contar que o
genitor que se limita a falar em vez de repreender acaba por perder toda
credibilidade aos olhos do seu filho. A punição serve também para fazer com que
as palavras dos genitores sejam respeitadas, dando a elas peso e sentido e
evitando que sejam transformadas num blablablá inofensivo.
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"TENHO MEDO DE CONFLITOS." A vida da família deve se desenrolar num clima de bom humor e serenidade... Essa fantasia utópica é sedutora e amplamente compartilhada, porém impraticável. O conflito é inevitável pelo simples fato de que a criança sempre se opõe aos limites, pelo menos nos primeiros tempos, e que o enfrentamento contribui para o fortalecimento da sua estrutura, embora muitas vezes consuma uma enorme quantidade da energia dos pais. Uma criança pequena não é um ser civilizado: ela é dominada pelas suas pulsões, pelo "princípio do prazer" e pelo sentimento de onipotência; para que ela se torne um ser civilizado, deve transformar o seu funcionamento inicial. Para que isso aconteça, a autoridade de seus pais é indispensável. Uma criança se constrói ao se opor. Essas divergências criam inevitavelmente fricções. Para Claude, assumir essas fricções, sem procurar a qualquer preço preservar a paz do momento, significa simplesmente cumprir com o seu dever de educador.
Para Contato com a Coordenação Geral no Paltalk, acesse: www.espiridigi.net/familia