Influência oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e atos
459. Influem os Espíritos em
nossos pensamentos e em nossos atos?
“Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles
que vos dirigem.”
460. De par com os pensamentos que nos são próprios, outros haverá que nos
sejam sugeridos?
“Vossa alma é um Espírito que pensa. Não ignorais que, freqüentemente, muitos
pensamentos vos acodem a um tempo sobre o mesmo assunto, não raro, contrários
uns dos outros. Pois bem! No conjunto deles, estão sempre de mistura os vossos
com os nossos. Daí a incerteza em que vos vedes. É que tendes em vós duas
idéias a se combaterem.”
461. Como havemos de distinguir os pensamentos que nos são próprios dos que
nos são sugeridos?
“Quando um pensamento vos é sugerido, tendes a impressão de que alguém vos
fala. Geralmente, os pensamentos próprios são os que acodem em primeiro lugar.
Afinal,
não vos é de grande interesse estabelecer essa distinção. Muitas vezes, é útil
que não saibais fazê-la. Não a fazendo, obra o homem com mais liberdade. Se se
decide pelo bem, é voluntariamente que o pratica; se toma o mau caminho, maior
será a sua responsabilidade.”
462. É sempre de dentro de si mesmos que os homens inteligentes e de gênio
tiram suas idéias?
“Algumas vezes, elas lhes vêm do seu próprio Espírito, porém, de outras
muitas, lhes são sugeridas por Espíritos que os julgam capazes de
compreendê-las e dignos de
vulgarizá-las. Quando tais homens não as acham em si mesmos, apelam para a
inspiração. Fazem assim, sem o suspeitarem, uma verdadeira evocação.”
Se fora útil que
pudéssemos distinguir claramente os nossos pensamentos próprios dos que nos
são sugeridos, Deus nos houvera proporcionado os meios de o conseguirmos, como
nos concedeu o de diferençarmos o dia da noite. Quando uma coisa se conserva
imprecisa, é que convém assim aconteça.
463. Diz-se comumente ser sempre bom o primeiro impulso. É exato?
“Pode ser bom, ou mau, conforme a natureza do Espírito encarnado. É sempre bom
naquele que atende às boas inspirações.”
464. Como distinguirmos se um pensamento sugerido procede de um bom Espírito
ou de um Espírito mau?
“Estudai o caso. Os bons Espíritos só para o bem aconselham. Compete-vos
discernir.”
465. Com que fim os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal?
“Para que sofrais como eles
sofrem.”
a) - E isso lhes diminui os sofrimentos?
“Não; mas fazem-no por inveja, por não poderem suportar que haja seres
felizes.”
b) - De que natureza é o sofrimento que procuram infligir aos outros?
“Os que resultam de ser de ordem inferior a criatura e de estar afastada de
Deus.”
466. Por que permite Deus que Espíritos nos excitem ao mal?
“Os Espíritos imperfeitos são instrumentos próprios a por em prova a fé e a
constância dos homens na prática do bem. Como Espírito que és, tens que
progredir na
ciência do infinito. Daí o passares pelas provas do mal, para chegares ao bem.
A nossa missão consiste em te colocarmos no bom caminho. Desde que sobre ti
atuam influências más, é que as atrais, desejando o mal; porquanto os
Espíritos inferiores correm a te auxiliar no mal, logo que desejes praticá-lo.
Só quando queiras o mal, podem eles ajudar-te para a prática do mal. Se fores
propenso ao assassínio, terás em torno de ti uma nuvem de Espíritos a te
alimentarem no íntimo esse pendor. Mas outros também te cercarão,
esforçando-se por te influenciarem para o bem, o que restabelece o equilíbrio
da balança e te deixa senhor dos teus atos.”
É assim que Deus confia à nossa consciência a escolha do caminho que devamos
seguir e a liberdade de ceder a uma ou outra das influências contrárias que se
exercem sobre nós.
467. Pode o homem eximir-se da influência dos Espíritos que procuram
arrastá-lo ao mal?
“Pode, visto que tais Espíritos só se apegam aos que, pelos seus desejos, os
chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem.”
468. Renunciam às suas tentativas os Espíritos cuja influência a vontade do
homem repele?
“Que querias que fizessem? Quando nada conseguem, abandonam o campo.
Entretanto, ficam à espreita de um momento propício, como o gato que tocaia o
rato.”
469. Por que meio podemos neutralizar a influência dos maus Espíritos?
“Praticando o bem e pondo em Deus toda a vossa confiança, repelireis a
influência dos Espíritos inferiores e aniquilareis o império que desejam ter
sobre vós. Guardai-vos de atender às sugestões dos Espíritos que vos suscitam
maus pensamentos, que sopram a discórdia entre vós outros e que vos insuflam
as paixões más. Desconfiai especialmente dos que vos exaltam o orgulho, pois
que esses vos assaltam pelo lado fraco. Essa a razão por que Jesus, na oração
dominical, vos ensinou a dizer: 'Senhor! Não nos deixes cair em tentação, mas
livra-nos do mal'.”
470. Os Espíritos, que ao mal procuram induzir-nos e que põem assim em prova a
nossa firmeza no bem, procedem desse modo cumprindo missão? E, se assim é,
cabe-lhes alguma responsabilidade?
“A nenhum Espírito é dada a missão de praticar o mal. Aquele que o faz fá-lo
por conta própria, sujeitando-se, portanto, às conseqüências. Pode Deus
permitir-lhe que assim proceda, para vos experimentar; nunca, porém, lhe
determina tal procedimento. Compete-vos, pois repeti-lo.”
471. Quando experimentamos uma sensação de angústia, de ansiedade indefinível,
ou de íntima satisfação, sem que lhe conheçamos a causa, devemos atribuí-la
unicamente a uma disposição física?
“É quase sempre efeito das comunicações em que inconscientemente entrais com
os Espíritos, ou da que com elas tivestes durante o sono.”
472. Os Espíritos que
procuram atrair-nos para o mal se limitam a aproveitar as circunstâncias em
que nos achamos, ou podem também criá-las?
“Aproveitam as circunstâncias ocorrentes, mas também costumam criá-las,
impelindo-vos, mau grado vosso, para aquilo que cobiçais. Assim, por exemplo,
encontra um homem, no seu caminho, certa quantia. Não penses tenham sido os
Espíritos que a trouxeram para ali. Mas, eles podem inspirar ao homem a idéia
de tomar aquela direção e sugerir-lhe depois a de se apoderar da importância
achada, enquanto outros lhe sugerem a de restituir o dinheiro ao seu legítimo
dono. O mesmo se dá com relação a todas as demais tentações.”
Parte 3ª - Das Leis
Morais
Cap. V - Da Lei de
Conservação
Gozo dos Bens Terrenos
711. O uso dos bens da Terra
é um direito de todos os homens?
“Esse direito é conseqüente da necessidade de viver. Deus não imporia um
dever sem dar ao homem o meio de cumpri-lo.”
712. Com que fim pôs Deus
atrativos no gozo dos bens materiais?
“Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e para experimentá-lo por
meio da tentação.”
a) - Qual o objetivo dessa tentação?
“Desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.”
Se o homem só fosse instigado a usar dos bens terrenos pela utilidade que
têm, sua indiferença houvera talvez comprometido a harmonia do Universo. Deus
imprimiu a esse uso o atrativo do prazer, porque assim é o homem impelido ao
cumprimento dos desígnios providenciais. Mas, além disso, dando àquele uso
esse atrativo, quis Deus também experimentar o homem por meio da tentação, que
o arrasta para o abuso, de que deve a razão defendê-lo.
713. Traçou a Natureza limites aos gozos?
“Traçou, para vos indicar o limite do necessário. Mas, pelos vossos excessos,
chegais à saciedade e vos punis a vós mesmos.”
714. Que se deve pensar do
homem que procura nos excessos de todo gênero o requinte dos gozos?
“Pobre criatura! Mais digna é de lástima que de inveja, pois bem perto está da
morte!”
a) - Perto da morte física, ou da morte moral?
“De ambas.”
O homem, que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se
abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua
necessidade, Abdica da razão que Deus lhe deu por guia e quanto maiores forem
seus excessos, tanto maior preponderância confere ele à sua natureza animal
sobre a sua natureza espiritual. As doenças, são, ao mesmo tempo, o castigo à
transgressão da lei de Deus.
Cap. VII - Da Lei de Sociedade
Necessidade da Vida Social
766. A vida social está em a
Natureza?
“Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente
a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação.”
767. É contrário à lei da
Natureza o insulamento absoluto?
“Sem dúvida, pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem
concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente.”
768. Procurando a sociedade,
não fará o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou há nesse
sentimento algum providencial objetivo de ordem mais
geral?
“O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor
de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No
insulamento, ele se
embrutece e estiola.”
Homem nenhum possui
faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se
completam, para lhe assegurarem o bem-estar e o progresso. Por isso é que,
precisando uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e
não insulados.
Laços de Família
773. Por que é que, entre os
animais, os pais e os filhos deixam de reconhecer-se, desde que estes não mais
precisam de cuidados?
“Os animais vivem vida material e não vida moral. A ternura da mãe pelos
filhos tem por princípio o instinto de conservação dos seres que ela deu à
luz. Logo que esses
seres podem cuidar de si mesmos, está ela com a sua tarefa concluída; nada
mais lhe exige a Natureza. Por isso é que os abandona, a fim de se ocupar com
os recém-vindos.”
774. Há pessoas que, do fato de os animais ao cabo de certo tempo abandonarem
suas crias, deduzem não serem os laços de família, entre os homens, mais do
que resultado dos costumes sociais e não efeito de uma lei da Natureza. Que
devemos pensar a esse respeito?
“Diverso do dos animais é o destino do homem. Por que, então, quererem
identificá-lo com estes? Há no homem alguma coisa mais, além das necessidades
físicas: há a
necessidade de progredir. Os laços sociais são necessários ao progresso e os
de família mais apertados tornam os primeiros. Eis por que os segundos
constituem uma lei da Natureza. Quis Deus que, por essa forma, os homens
aprendessem a amar-se como irmãos.”
775. Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de
família?
“Uma recrudescência do egoísmo.”
Cap. X - Da Lei de Liberdade
Livre-Arbítrio
843. Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?
“Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o
livre-arbítrio, o homem seria máquina.”
844. Do livre-arbítrio goza o
homem desde o seu nascimento?
“Há liberdade de agir, desde que haja vontade de fazê-lo. Nas primeiras fases
da vida, quase nula é a liberdade, que se desenvolve e muda de objeto com o
desenvolvimento das faculdades. Estando seus pensamentos em concordância com o
que a sua idade reclama, a criança aplica o seu livre-arbítrio àquilo que lhe
é necessário.”
845. Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as
predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?
“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme
seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-las à prática de atos
repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas
disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a
vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.”
846. Sobre os atos da vida nenhuma influência exerce o organismo? E, se essa
influência existe, não será exercida com prejuízo do livre-arbítrio?
“É inegável que sobre o Espírito exerce influência a matéria, que pode
embaraçar-lhe as manifestações. Daí vem que, nos mundos onde os corpos são
menos materiais do que na Terra, as faculdades se desdobram mais livremente.
Porém, o instrumento não dá a faculdade. Além disso, cumpre se distingam as
faculdades morais das intelectuais. Tendo um homem o instinto do assassínio,
seu próprio Espírito é, indubitavelmente, quem possui esse instinto e quem lho
dá; não são seus órgãos que lho dão. Semelhante ao bruto, e ainda pior do que
este, se torna aquele que nulifica o seu pensamento, para só se ocupar com a
matéria, pois que não cuida mais de se premunir contra o mal. Nisto é que
incorre em falta, porquanto assim procede por vontade sua.” (Vede n°s. 367 e
seguintes - “Influência do organismo”.)
847. Da aberração das
faculdades tira ao homem o livre-arbítrio?
“Já não é senhor do seu pensamento aquele cuja inteligência se ache turbada
por uma causa qualquer e, desde então, já não tem liberdade. Essa aberração
constitui muitas vezes uma punição para o Espírito que, porventura, tenha
sido, noutra existência, fútil e orgulhoso, ou tenha feito mau uso de suas
faculdades. Pode esse Espírito, em tal caso, renascer no corpo de um idiota,
como o déspota no de um escravo e o mau rico no de um mendigo. O Espírito,
porém, sofre por efeito desse constrangimento, de que tem perfeita
consciência. Está aí a ação da matéria.” (371 e seguintes)
848. Servirá de escusa aos atos reprováveis o ser devida à embriaguez a
aberração das faculdades intelectuais?
“Não, porque foi voluntariamente que o ébrio se privou da sua razão, para
satisfazer a paixões brutais. Em vez de uma falta, comete duas.”
849. Qual a faculdade predominante no homem em estado de selvageria: o
instinto, ou o livre-arbítrio?
“O instinto, o que não o impede de agir com inteira liberdade, no tocante a
certas coisas. Mas, aplica, como a criança, essa liberdade às suas
necessidades e ela se amplia com a inteligência. Conseguintemente, tu, que és
mais esclarecido do que um selvagem, também és mais responsável pelo que fazes
do que um selvagem o é pelos seus atos.”
850. A posição social não
constitui às vezes, para o homem, obstáculo à inteira liberdade de seus atos?
“É fora de dúvida que o mundo tem suas exigências, Deus é justo e tudo leva em
conta. Deixa-vos, entretanto, a responsabilidade de nenhum esforço empregardes
para
vencer os obstáculos.”
Cap. XII - Da Perfeição
Moral
As Virtudes e os Vícios
893. Qual a mais meritória de
todas as virtudes?
“Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda
do bem. Há virtudes sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos
maus pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do
interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais
meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”
894. Há pessoas que fazem o bem espontaneamente, sem que precisem vencer
quaisquer sentimentos que lhes sejam opostos. Terão tanto mérito, quanto as
que se vêem na contingência de lutar contra a natureza que lhes é própria e a
vencem?
“Só não têm que lutar aqueles
em quem já há progresso realizado. Esses lutaram outrora e triunfaram. Por
isso é que os bons sentimentos nenhum esforço lhes custam e suas ações lhes
parecem simplíssimas. O bem se lhes tornou um hábito. Devidas lhes são as
honras que se costumam tributar a velhos guerreiros que conquistaram seus
altos postos.
“Como ainda estais longe da
perfeição, tais exemplos vos espantam pelo contraste com o que tendes à vista
e tanto mais os admirais, quanto mais raros são. Ficai sabendo, porém, que,
nos mundos mais adiantados do que o vosso, constitui a regra o que entre vós
representa a exceção. Em todos os pontos desses mundos, o sentimento do bem é
espontâneo, porque somente bons Espíritos os habitam. Lá, uma só intenção
maligna seria monstruosa exceção. Eis por que neles os homens são ditosos. O
mesmo se dará na Terra, quando a Humanidade se houver transformado, quando
compreender e praticar a caridade na sua verdadeira acepção.”
895. Postos de lado os
defeitos e os vícios acerca dos quais ninguém se pode equivocar, qual o sinal
mais característico da imperfeição?
“O interesse pessoal. Freqüentemente, as qualidades morais são como, num
objeto de cobre, a douradura que não resiste à pedra de toque. Pode um homem
possuir qualidades reais, que levem o mundo a considerá-lo homem de bem. Mas,
essas qualidades, conquanto assinalem um progresso, nem sempre suportam certas
provas e às vezes basta que se fira a corda do interesse pessoal para que o
fundo fique a descoberto. O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na
Terra que, quando se patenteia todos o admiram como se fora um fenômeno.
“O apego às coisas materiais constitui sinal notório de inferioridade, porque,
quanto mais se aferrar aos bens deste mundo, tanto menos compreende o homem o
seu destino. Pelo desinteresse, ao contrário, demonstra que encara de um ponto
mais elevado o futuro.”
896. Há pessoas desinteressadas, mas sem discernimento, que prodigalizam seus
haveres sem utilidade real, por lhes não saberem dar emprego criterioso. Têm
algum
merecimento essas pessoas?
“Têm o do desinteresse, porém
não o do bem que poderiam fazer. O desinteresse é uma virtude, mas a
prodigalidade irrefletida constitui sempre, pelo menos, falta de juízo. A
riqueza, assim como não é dada a uns para ser aferrolhada num cofre forte,
também não o é a outros para ser dispersada ao vento. Representa um depósito
de que uns e outros terão de prestar contas, porque terão de responder por
todo o bem que podiam fazer e não fizeram, por todas as lágrimas que podiam
ter estancado com o dinheiro que deram aos que dele não precisavam.”
897. Merecerá reprovação aquele que faz o bem, sem visar a qualquer recompensa
na Terra, mas esperando que lhe seja levado em conta na outra vida e que lá
venha a ser melhor a sua situação? E essa preocupação lhe prejudicará o
progresso?
“O bem deve ser feito caritativamente, isto é, com desinteresse.”
a) - Contudo, todos alimentam o desejo muito natural de progredir, para
forrar-se à penosa condição desta vida. Os próprios Espíritos nos ensinam a
praticar o bem com esse objetivo. Será, então, um mal pensarmos que,
praticando o bem, podemos esperar coisa
melhor do que temos na Terra?
“Não, certamente; mas aquele que faz o bem, sem idéia preconcebida, pelo só
prazer de ser agradável a Deus e ao seu próximo que sofre, já se acha num
certo grau de progresso, que lhe permitirá alcançar a felicidade muito mais
depressa do que seu irmão que, mais positivo, faz o bem por cálculo e não
impelido pelo ardor natural do seu coração.”
b) - Não haverá aqui uma distinção a estabelecer-se entre o bem que podemos
fazer ao nosso próximo e o cuidado que pomos em corrigir-nos dos nossos
defeitos?
Concebemos que seja pouco meritório fazermos o bem com a idéia de que nos seja
levado em conta na outra vida; mas será igualmente indício de inferioridade
emendarmo-nos, vencermos as nossas paixões, corrigirmos o nosso caráter, com o
propósito de nos aproximarmos dos bons Espíritos e de nos elevarmos?
“Não, não. Quando dizemos - fazer o bem, queremos significar - ser caridoso.
Procede como egoísta todo aquele que calcula o que lhe possa cada uma de suas
boas ações render na vida futura, tanto quanto na vida terrena. Nenhum
egoísmo, porém, há em querer o homem melhorar-se, para se aproximar de Deus,
pois que é o fim para o qual devem todos tender.”
898. Sendo a vida corpórea apenas uma estada temporária neste mundo e devendo
o futuro constituir objeto da nossa principal preocupação, será útil nos
esforcemos por adquirir conhecimentos científicos que só digam respeito às
coisas e às necessidades materiais?
“Sem dúvida. Primeiramente, isso vos põe em condições de auxiliar os vossos
irmãos; depois, o vosso Espírito subirá mais depressa, se já houver progredido
em inteligência. Nos intervalos das encarnações, aprendereis numa hora o que
na Terra vos exigiria anos de aprendizado. Nenhum conhecimento é inútil; todos
mais ou menos contribuem para o progresso, porque o Espírito, para ser
perfeito, tem que saber tudo, e porque, cumprindo que o progresso se efetue em
todos os sentidos, todas as idéias adquiridas ajudam o desenvolvimento do
Espírito.”
899. Qual o mais culpado de dois homens ricos que empregam exclusivamente em
gozos pessoais suas riquezas, tendo um nascido na opulência e desconhecido
sempre a necessidade, devendo o outro ao seu trabalho os bens que possui?
“Aquele que conheceu os sofrimentos, porque sabe o que é sofrer. A dor, a que
nenhum alívio procura dar, ele a conhece; porém, como freqüentemente sucede,
já dela se
não lembra.”
900. Aquele que incessantemente acumula haveres, sem fazer o bem a quem quer
que seja, achará desculpa, que valha, na circunstância de acumular com o fito
de maior
soma legar aos seus herdeiros?
“É um compromisso com a consciência má.”
901. Figuremos dois
avarentos, um dos quais nega a si mesmo o necessário e morre de miséria sobre
o seu tesouro, ao passo que o segundo só o é para os outros, mostrando-se
pródigo para consigo mesmo; enquanto recua ante o mais ligeiro sacrifício para
prestar um serviço ou fazer qualquer coisa útil, nunca julga demasiado o que
dependa para satisfazer aos seus gostos ou às suas paixões. Peça-se-lhe um
obséquio e estará sempre em dificuldade para fazê-lo; imagine, porém, realizar
uma fantasia e terá sempre o bastante para isso. Qual o mais culpado e qual o
que se achará em pior situação no mundo dos Espíritos?
“O que goza, porque é mais egoísta do que avarento. O outro já recebeu parte
do seu castigo.”
902. Será reprovável que cobicemos a riqueza, quando nos anime o desejo de
fazer o bem?
“Tal sentimento é, não há dúvida, louvável, quando puro. Mas, será sempre
bastante desinteressado esse desejo? Não ocultará nenhum intuito de ordem
pessoal? Não será de fazer o bem a si mesmo, em primeiro lugar, que cogita
aquele, em quem tal desejo se manifesta?”
903. Incorre em culpa o homem, por estudar os defeitos alheios?
“Incorrerá em grande culpa, se o fizer para os criticar e divulgar, porque
será faltar com a caridade. Se o fizer, para tirar daí proveito, para
evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade. Importa, porém, não
esquecer que a indulgência para com os defeitos de outrem é uma das virtudes
contidas na caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se
de vós não poderão dizer o mesmo. Tratai, pois, de possuir as qualidades
opostas aos defeitos que criticais no vosso semelhante. Esse o meio de vos
tornardes superiores a ele. Se lhe censurais a ser avaro, sede generosos; se o
ser orgulhoso, sede humildes e modestos; se o ser áspero, sede brandos; se o
proceder com pequenez, sede grandes em todas as vossas ações. Numa palavra,
fazei por maneira que se não vos possam aplicar estas palavras de Jesus: Vê o
argueiro no olho do seu vizinho e não vê a trave no seu próprio.”
904. Incorrerá em culpa aquele que sonda as chagas da sociedade e as expõe em
público?
“Depende do sentimento que o mova. Se o escritor apenas visa produzir
escândalo, não faz mais do que proporcionar a si mesmo um gozo pessoal,
apresentando quadros que constituem antes mau do que bom exemplo. O Espírito
aprecia isso, mas pode vir a ser punido por essa espécie de prazer que
encontra em revelar o mal.”
a) - Como, em tal caso, julgar da pureza das intenções e da sinceridade do
escritor?
“Nem sempre há nisso utilidade. Se ele escrever boas coisas, aproveitai-as. Se
proceder mal, é uma questão de consciência que lhe diz respeito,
exclusivamente. Demais, se o escritor tem empenho em provar a sua sinceridade,
apóie o que disser nos exemplos que dê.”
905. Alguns autores hão publicado belíssimas obras de grande moral, que
auxiliam o progresso da Humanidade, das quais, porém, nenhum proveito tiraram
eles. Ser-lhes-á levado em conta, como Espíritos, o bem a que suas obras hajam
dado lugar?
“A moral sem as ações é o mesmo que a semente sem o trabalho. De que vos serve
a semente, se não a fazeis dar frutos que vos alimentem? Grave é a culpa
desses homens, porque dispunham de inteligência para compreender. Não
praticando as máximas que ofereciam aos outros, renunciaram a colher-lhes os
frutos.”
906. Será passível de censura
o homem, por ter consciência do bem que faz e por confessá-lo a si mesmo?
“Pois que pode ter consciência do mal que pratica, do bem igualmente deve
tê-la, a fim de saber se andou bem ou mal. Pesando todos os seus atos na
balança da lei de Deus e, sobretudo, na lei de justiça, amor e caridade, é que
poderá dizer a si mesmo se suas obras são boas ou más, que as poderá aprovar
ou desaprovar. Não se lhe pode, portanto, censurar que reconheça haver
triunfado dos maus pendores e que se sinta satisfeito, desde que de tal não se
envaideça, porque então cairia noutra falta.”
Paixões
907. Será substancialmente
mau o princípio originário das paixões, embora esteja na Natureza?
“Não; a paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o
princípio que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as
paixões podem levá-lo à realização de grandes coisas. O abuso que delas se faz
é que causa o mal.”
908. Como se poderá determinar o limite onde as paixões deixam de ser boas
para se tornarem más?
“As paixões são como um corcel, que só tem utilidade quando governado e que se
torna perigoso desde que passe a governar. Uma paixão se torna perigosa a
partir do
momento em que deixais de poder governá-la e que dá em resultado um prejuízo
qualquer para vós mesmos, ou para outrem.”
As paixões são alavancas
que decuplicam as forças do homem e o auxiliam na execução dos desígnios da
Providência. Mas, se, em vez de as dirigir, deixa que elas o
dirijam, cai o homem nos excessos e a própria força que, manejada pelas suas
mãos, poderia produzir o bem, contra ele se volta e o esmaga.
Todas as paixões têm seu
princípio num sentimento, ou numa necessidade natural. O princípio das paixões
não é, assim, um mal, pois que assenta numa das condições providenciais da
nossa existência. A paixão propriamente dita é a exageração de uma necessidade
ou de um sentimento. Está no excesso e não na causa e este excesso se torna um
mal, quando tem como conseqüência um mal qualquer.
Toda paixão que aproxima o
homem da natureza animal afasta-o da natureza espiritual.
Todo sentimento que eleva
o homem acima da natureza animal denota predominância do espírito sobre a
matéria e o aproxima da perfeição.
909. Poderia sempre o homem,
pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?
“Sim, e, freqüentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe
falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!”
910. Pode o homem achar nos Espíritos eficaz assistência para triunfar de suas
paixões?
“Se o pedir a Deus e ao seu bom gênio, com sinceridade, os bons Espíritos lhe
virão certamente em auxílio, porquanto é essa a missão deles.”
911. Não haverá paixões tão
vivas e irresistíveis, que a vontade seja impotente para dominá-las?
“Há muitas pessoas que dizem: Quero, mas a vontade só lhes está nos lábios.
Querem, porém muito satisfeitas ficam que não seja como “querem”. Quando o
homem crê
que não pode vencer as suas paixões, é que seu Espírito se compraz nelas, em
conseqüência da sua inferioridade. Compreende a sua natureza espiritual aquele
que as procura reprimir. Vencê-las é, para ele, uma vitória do Espírito sobre
a matéria.”
912. Qual o meio mais eficiente de combater-se o predomínio da natureza
corpórea?
“Praticar a abnegação.”
O Egoísmo
913. Dentre os vícios, qual o
que se pode considerar radical?
“Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os
vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis
combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz,
enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços
para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade.
Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve
expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo
incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as
outras qualidades.”
914. Fundando-se o egoísmo no sentimento do interesse pessoal, bem difícil
parece extirpá-lo inteiramente do coração humano. Chegar-se-á a consegui-lo?
“À medida que os homens se instruem acerca das coisas espirituais, menos valor
dão às coisas materiais. Depois, necessário é que se reformem as instituições
humanas que o entretêm e excitam. Isso depende da educação.”
915. Por ser inerente à espécie humana, o egoísmo não constituirá sempre um
obstáculo ao reinado do bem absoluto na Terra?
“É exato que no egoísmo tendes o vosso maior mal, porém ele se prende à
inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra e não à Humanidade mesma. Ora,
depurando-se por encarnações sucessivas, os Espíritos se despojam do egoísmo,
como de suas outras impurezas. Não existirá na Terra nenhum homem isento de
egoísmo e praticante da caridade? Há muito mais homens assim do que supondes.
Apenas, não os conheceis, porque a virtude foge à viva claridade do dia. Desde
que haja um, por que não haverá dez? Havendo dez, por que não haverá mil e
assim por diante?
916. Longe de diminuir, o
egoísmo cresce com a civilização, que, até, parece, o excita e mantém. Como
poderá a causa destruir o efeito?
“Quanto maior é o mal, mais hediondo se torna. Era preciso que o egoísmo
produzisse muito mal, para que compreensível se fizesse a necessidade de
extirpá-lo. Os homens, quando se houverem despojado do egoísmo que os domina,
viverão como irmãos, sem se fazerem mal algum, auxiliando-se reciprocamente,
impelidos pelo sentimento mútuo da solidariedade. Então, o forte será o amparo
e não o opressor do fraco e não mais serão vistos homens a quem falte o
indispensável, porque todos praticarão a lei de justiça. Esse o reinado do
bem, que os Espíritos estão incumbidos de preparar.”
917. Qual o meio de destruir-se o egoísmo?
“De todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de
desenraizar-se porque deriva da influência da matéria, influência de que o
homem, ainda muito próximo de sua origem, não pôde libertar-se e para cujo
entretenimento tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação.
O egoísmo se enfraquecerá à proporção que a vida moral for predominante sobre
a vida material e, sobretudo, com a compreensão, que o Espiritismo vos
faculta, do vosso estado futuro, real e não desfigurado por ficções
alegóricas. Quando, bem compreendido, se houver identificado com os costumes e
as crenças, o Espiritismo transformará os hábitos, os usos, as relações
sociais. O egoísmo assenta na importância da personalidade. Ora, o
Espiritismo, bem compreendido, repito, mostra as coisas de tão alto que o
sentimento da personalidade desaparece, de certo modo, diante da imensidade.
Destruindo essa importância, ou, pelo menos, reduzindo-a às suas legítimas
proporções, ele
necessariamente combate o egoísmo.
“O choque, que o homem experimenta, do egoísmo os outros é o que muitas vezes
o faz egoísta, por sentir a necessidade de colocar-se na defensiva. Notando
que os outros pensam em si próprios e não nele, ei-lo levado a ocupar-se
consigo, mais do que com os outros. Sirva de base às instituições sociais, às
relações legais de povo a povo e de homem a homem o princípio da caridade e da
fraternidade e cada um pensará menos na sua pessoa, assim veja que outros nela
pensam. Todos experimentarão a influência moralizadora do exemplo e do
contacto. Em face do atual extravasamento de egoísmo, grande virtude é
verdadeiramente necessária, para que alguém renuncie à sua personalidade em
proveito dos outros, que, de ordinário, absolutamente lhe não agradecem.
Principalmente para os que possuem essa virtude, é que o reino dos céus se
acha aberto. A esses, sobretudo, é que está reservada a felicidade dos
eleitos, pois em verdade vos digo que, no dia da justiça, será posto de lado e
sofrerá pelo abandono, em que se há de ver, todo aquele que em si somente
houver pensado."
FÉNELON.
Louváveis esforços indubitavelmente se empregam para fazer que a Humanidade
progrida. Os bons sentimentos são animados, estimulados e honrados mais do que
em
qualquer outra época. Entretanto, o egoísmo, verme roedor, continua a ser a
chaga social. É um mal real, que se alastra por todo o mundo e do qual cada
homem é mais ou menos vítima. Cumpre, pois, combatê-lo, como se combate uma
enfermidade epidêmica. Para isso, deve-se proceder como procedem os médicos:
ir à origem do mal. Procurem-se em todas as partes do organismo social, da
família aos povos, da choupana ao palácio, todas as causas, todas as
influências que, ostensiva ou ocultamente, excitam, alimentam e desenvolvem o
sentimento do egoísmo. Conhecidas as causas, o remédio se apresentará por si
mesmo. Só restará então destruí-las, senão totalmente, de uma só vez, ao menos
parcialmente, e o veneno pouco a pouco será eliminado. Poderá ser longa a
cura, porque numerosas são as causas, mas não é impossível. Contudo, ela só se
obterá se o mal for atacado em sua raiz, isto é, pela educação, não por essa
educação que tende a fazer homens instruídos, mas pela que tende a fazer
homens de bem. A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do
progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se
conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo
modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita
experiência e profunda observação. É grave erro pensar-se que, para exercê-la
com proveito baste o conhecimento da Ciência. Quem acompanhar, assim o filho
do rico, como o do pobre, desde o instante do nascimento, o observar todas as
influências perniciosas que sobre eles atuam, em conseqüência da fraqueza, da
incúria e da ignorância dos que os dirigem, observando igualmente com quanta
freqüência falham os meios empregados para moralizá-los, não poderá
espantar-se de encontrar pelo mundo tantas esquisitices. Faça-se com o moral o
que se faz com a inteligência e ver-se-á que, se há naturezas refratárias,
muito maior do que se julga é o número das que apenas reclamam boa cultura,
para produzir bons frutos.
O homem deseja ser feliz e natural é o sentimento que dá origem a esse desejo.
Por isso é que trabalha incessantemente para melhorar a sua posição na Terra,
que pesquisa as causas de seus males, para remediá-los. Quando compreender bem
que no egoísmo reside uma dessas causas, a que gera o orgulho, a ambição, a
cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, que a cada momento o magoam, a que
perturba todas as relações sociais, provoca as dissensões, aniquila a
confiança, a que o obriga a se manter constantemente na defensiva contra o seu
vizinho, enfim a que do amigo faz inimigo, ele compreenderá também que esse
vício é incompatível com a sua felicidade e, podemos mesmo acrescentar, com a
sua própria segurança. E quanto mais haja sofrido por efeito desse vício, mais
sentirá a necessidade de combatê-lo, como se combatem a peste, os animais
nocivos e todos os outros flagelos. O seu próprio interesse a isso o induzirá.
O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade o é de todas as
virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os
esforços do homem, se quiser assegurar a sua felicidade neste mundo, tanto
quanto no futuro. Caracteres do homem de bem
918. Por que indícios se pode
reconhecer em um homem o progresso real que lhe elevará o Espírito na
hierarquia espírita?
“O espírito prova a sua elevação, quando todos os atos de sua vida corporal
representam a prática da lei de Deus e quando antecipadamente compreende a
vida
espiritual.”
Verdadeiramente, homem de bem
é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza. Se
interrogar a própria consciência sobre os atos que praticou,
perguntará se não transgrediu essa lei, se não fez o mal, se fez todo o bem
que podia, se ninguém tem motivos para dele se queixar, enfim se fez aos
outros o que desejara que lhe fizessem. Possuído do sentimento de caridade e
de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem contar com qualquer retribuição, e
sacrifica seus interesses à justiça. É bondoso, humanitário e benevolente para
com todos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raças, nem de
crenças.
Se Deus lhe outorgou o poder e a riqueza, considera essas coisas como UM
DEPÓSITO, de que lhe cumpre usar para o bem. Delas não se envaidece, por saber
que
Deus, que lhas deu, também lhas pode retirar. Se sob a sua dependência a ordem
social colocou outros homens, trata-os com bondade e complacência, porque são
seus iguais perante Deus. Usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e
não para os esmagar com seu orgulho. É indulgente para com as fraquezas
alheias, porque sabe que também precisa da indulgência dos outros e se lembra
destas palavras do Cristo: Atire a primeira pedra aquele que estiver sem
pecado. Não é vingativo. A exemplo de Jesus, perdoa as ofensas, para só se
lembrar dos benefícios, pois não ignora que, como houver perdoado, assim
perdoado lhe será. Respeita, enfim, em seus semelhantes, todos os direitos que
as leis da Natureza lhes concedem, como quer que os mesmos direitos lhe sejam
respeitados. Conhecimento de si mesmo
919. Qual o meio prático mais
eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do
mal?
“Um sábio da antigüidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”
a) - Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está
precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?
“Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a
minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se
não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar.
Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.
Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o
dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus
e ao seu anjo de guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se
aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos
perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo
procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que,
feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não
ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: “Se aprouvesse a Deus chamar-me
neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo
dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?”
“Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo
e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a
vossa
consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.
“O conhecimento de si mesmo
é, portanto, a chave do progresso individual. Mas, direis, como há de alguém
julgar-se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio para atenuar as
faltas e torná-las desculpáveis? O avarento se considera apenas econômico e
previdente; o orgulhosos julga que em si só há dignidade. Isto é muito real,
mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos. Quando estiverdes
indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis,
se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não na poderia ter por
legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de duas medidas na
aplicação de Sua justiça. Procurai também saber o que dela pensam os vossos
semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos, porquanto esses
nenhum interesse têm em mascarar a verdade e Deus muitas vezes os coloca ao
vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos com mais franqueza
do que o faria um amigo. Perscrute, conseguintemente, a sua consciência aquele
que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim de extirpar de si
os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas daninhas; dê balanço no
seu dia moral para, a exemplo do comerciante, avaliar suas perdas e seus
lucros e eu vos asseguro que a conta destes será mais avultada que a daquelas.
Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem
receio o despertar na outra vida.
“Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não
temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar
uma felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar
haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o
objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e
privações temporárias? Pois bem! Que é esse descanso de alguns dias, turbado
sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de
bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços? Sei haver muitos que
dizem ser positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a idéia
que estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer
que compreendais esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa
alma. Por isso foi que primeiro chamamos a vossa atenção por meio de fenômenos
capazes de ferir-vos os sentidos e que agora vos damos instruções, que cada um
de vós se acha encarregado de espalhar. Com este objetivo é que ditamos
O Livro dos Espíritos.”
SANTO AGOSTINHO.
Muitas faltas que cometemos
nos passam despercebidas. Se, efetivamente, seguindo o conselho de Santo
Agostinho, interrogássemos mais amiúde a nossa consciência,
veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos, unicamente por não
perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos.
A forma interrogativa tem
alguma coisa de mais preciso do que qualquer máxima, que muitas vezes deixamos
de aplicar a nós mesmos. Aquela exige respostas categóricas, por um sim ou
não, que não abrem lugar para qualquer alternativa e que são outros tantos
argumentos pessoais. E, pela soma que derem as respostas, poderemos computar a
soma de bem ou de mal que existe em nós.
Parte 4ª - Das Esperanças
e Consolações
Cap. I - Das Penas e Gozos
Terrestres
Felicidade e Infelicidade
Relativas
920. Pode o homem gozar de
completa felicidade na Terra?
“Não, por isso que a vida lhe foi dada como prova ou expiação. Dele, porém,
depende a suavização de seus males e o ser tão feliz quanto possível na
Terra.”
921. Concebe-se que o homem
será feliz na Terra, quando a Humanidade estiver transformada. Mas, enquanto
isso se não verifica, poderá conseguir uma felicidade
relativa?
“O homem é quase sempre o obreiro da sua própria infelicidade. Praticando a
lei de Deus, a muitos males se forrará e proporcionará a si mesmo felicidade
tão grande quanto o comporte a sua existência grosseira.”
Aquele que se acha bem compenetrado de seu destino futuro não vê na vida
corporal mais do que uma estação temporária, uma como parada momentânea em
péssima hospedaria. Facilmente se consola de alguns aborrecimentos passageiros
de uma viagem que o levará a tanto melhor posição, quanto melhor tenha cuidado
dos preparativos para empreendê-la. Já nesta vida somos punidos pela
infrações, que cometemos, das leis que regem a existência corpórea, sofrendo
os males conseqüentes dessas mesmas infrações e dos nossos próprios excessos.
Se, gradativamente, remontarmos à origem do que chamamos as nossas desgraças
terrenas, veremos que, na maioria dos casos, elas são a conseqüência de um
primeiro afastamento nosso do caminho reto. Desviando-nos deste, enveredamos
por outro, mau, e, de conseqüência em conseqüência, caímos na desgraça.
922. A felicidade terrestre é
relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui
a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de
felicidade comum a todos os homens?
“Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida
moral, a consciência tranqüila e a fé no futuro.”
923. O que para um é supérfluo não representará para outro, o necessário, e
reciprocamente, de acordo com as posições respectivas?
“Sim, conformemente às vossas idéias materiais, aos vossos preconceitos, à
vossa ambição e às vossas ridículas extravagâncias, a que o futuro fará
justiça, quando
compreenderdes a verdade. Não há dúvida de que aquele que tinha cinqüenta mil
libras de renda, vendo-se reduzido a só ter dez mil, se considera muito
desgraçado, por não mais poder fazer a mesma figura, conservar o que chama a
sua posição, ter cavalos, lacaios, satisfazer a todas as paixões, etc.
Acredita que lhe falta o necessário. Mas, francamente, achas que seja digno de
lástima, quando ao seu lado muitos há, morrendo de fome e frio, sem um abrigo
onde repousem a cabeça? O homem criterioso, a fim de ser feliz, olha sempre
para baixo e não para cima, a não ser para elevar sua alma ao infinito.”
924. Há males que independem
da maneira de proceder do homem e que atingem mesmo os mais justos. Nenhum
meio terá ele de os evitar?
“Deve resignar-se e sofrê-los sem murmurar, se quer progredir. Sempre, porém,
lhe dado haurir consolação na própria consciência, que lhe proporciona a
esperança de melhor futuro, se fizer o que é preciso para obtê-lo.”
925. Por que favorece Deus, com os dons da riqueza, a certos homens que não
parecem tê-las merecido?
“Isso significa um favor aos olhos dos que apenas vêem o presente. Mas, ficai
sabendo, a riqueza é, de ordinário, a prova mais perigosa do que a miséria.”
926. Criando novas necessidades, a civilização não constitui uma fonte de
novas aflições?
“Os males deste mundo estão na razão das necessidades factícias que vos
criais. A muitos desenganos se poupa nesta vida aquele que sabe restringir
seus desejos e olha sem inveja para o que esteja acima de si. O que menos
necessidades tem, esse o mais rico.
“Invejais os gozos dos que vos parecem os felizes do mundo. Sabeis,
porventura, o que lhes está reservado? Se os seus gozos são todos pessoais,
pertencem eles ao número dos egoístas: o reverso então virá. Deveis, de
preferência, lastimá-los. Deus algumas vezes permite que o mau prospere, mas a
sua felicidade não é de causar inveja, porque com lágrimas amargas a pagará.
Quando um justo é infeliz, isso representa uma prova que lhe será levada em
conta, se a suportar com coragem. Lembrai-vos destas palavras de Jesus:
Bem-aventurados os que sofrem, pois que serão consolados.”
927. Não há dúvida que, à felicidade, o supérfluo não é forçosamente
indispensável, porém o mesmo não se dá com o necessário. Ora, não será real a
infelicidade daqueles a quem falta o necessário?
“Verdadeiramente infeliz o
homem só o é quando sofre a falta do necessário à vida e à saúde do corpo.
Todavia, pode acontecer que essa privação seja de sua culpa. Então, só tem que
se queixar de si mesmo. Se for ocasionada por outrem, a responsabilidade
recairá sobre aquele que lhe houver dado causa.”
928. Evidentemente, por meio
da especialidade das aptidões naturais, Deus indica a nossa vocação neste
mundo. Muitos dos nossos males não advirão de não seguirmos essa vocação?
“Assim é, de fato, e muitas vezes são os pais que, por orgulho ou avareza,
desviam seus filhos da senda que a Natureza lhes traçou, comprometendo-lhes a
felicidade, por efeito desse desvio. Responderão por ele.”
a) - Acharíeis então justo que o filho de um homem altamente colocado na
sociedade fabricasse tamancos, por exemplo, desde que para isso tivesse
aptidão?
“Cumpre não cair no absurdo, nem exagerar coisa alguma: a civilização tem suas
exigências. Por que haveria de fabricar tamancos o filho de um homem altamente
colocado, como dizes, se pode fazer outra coisa? Poderá sempre tornar-se útil
na medida de suas faculdades, desde que não as aplique às avessas. Assim, por
exemplo, em vez de mau advogado, talvez desse bom mecânico, etc.”
No afastarem-se os homens da sua esfera intelectual reside indubitavelmente
uma das mais freqüentes causas de decepção. A inaptidão para a carreira
abraçada constitui fonte inesgotável de reveses. Depois, o amor-próprio,
sobrevindo a tudo isso, impede que o que fracassou recorra a uma profissão
mais humilde e lhe mostra o suicídio como remédio para escapar ao que se lhe
afigura humilhação. Se uma educação moral o houvesse colocado cima dos tolos
preconceitos do orgulho, jamais se teria deixado apanhar desprevenido.
929. Pessoas há, que, baldas de todos os recursos, embora no seu derredor
reine a abundância, só têm diante de si a perspectiva da morte. Que partido
devem tomar? Devem deixar-se morrer de fome?
“Nunca ninguém deve ter a idéia de deixar-se morrer de fome. O homem acharia
sempre meio de se alimentar, se o orgulho não se colocasse entre a necessidade
e o
trabalho. Costuma-se dizer: “Não há ofício desprezível; o seu estado não é o
que desonra o homem.” Isso, porém, cada um diz para os outros e não para si.”
930. É evidente que, se não
fossem os preconceitos sociais, pelos quais se deixa o homem dominar, ele
sempre acharia um trabalho qualquer, que lhe proporcionasse meio de viver,
embora deslocando-se da sua posição. Mas, entre os que não têm preconceitos ou
os põem de lado, não há pessoas que se vêem na impossibilidade de prover às
suas necessidades, em conseqüência de moléstias ou outras causas independentes
da vontade delas?
“Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de
fome.”
Com uma organização social
criteriosa e previdente, ao homem só por culpa sua pode faltar o necessário.
Porém, suas próprias faltas são freqüentemente resultado do meio onde se acha
colocado. Quando praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na
justiça e na solidariedade e ele próprio também será melhor.”
931. Por que são mais
numerosas, na sociedade, as classes sofredoras do que as felizes?
“Nenhuma é perfeitamente feliz e o que julgais ser a felicidade muitas vezes
oculta pungentes aflições. O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para
responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são
mais numerosas, por ser a Terra lugar de expiação. Quando a houver
transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser
infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre.”
932. Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos
bons?
“Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são
tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.”
933. Assim como, quase sempre, é o homem o causador de seus sofrimentos
materiais, também o será de seus sofrimentos morais?
“Mais ainda, porque os sofrimentos materiais algumas vezes independem da
vontade; mas, o orgulho ferido, a ambição frustrada, a ansiedade da avareza, a
inveja, o
ciúme, todas as paixões, numa palavra, são torturas da alma.
“A inveja e o ciúme! Felizes os que desconhecem estes dois vermes roedores!
Para aquele que a inveja e o ciúme atacam, não há calma, nem repouso
possíveis. À sua frente, como fantasmas que lhe não dão tréguas e o perseguem
até durante o sono, se levantam os objetos de sua cobiça, do seu ódio, do seu
despeito. O invejoso e o ciumento vivem ardendo em contínua febre. Será essa
uma situação desejável e não compreendeis que, com as suas paixões, o homem
cria para si mesmo suplícios voluntários, tornando-se-lhe a Terra verdadeiro
inferno?”
Muitas expressões pintam energicamente o efeito de certas paixões. Diz-se:
ímpar de orgulho, morrer de inveja, secar de ciúme ou de despeito, não comer
nem beber de
ciúmes, etc. Este quadro é sumamente real. Acontece até não ter o ciúme objeto
determinado. Há pessoas ciumentas, por natureza, de tudo o que se eleva, de
tudo o que sai da craveira vulgar, embora nenhum interesse direto tenham, mas
unicamente porque não podem conseguir outro tanto. Ofusca-as tudo o que lhes
parece estar acima do horizonte e, se constituíssem maioria na sociedade,
trabalhariam para reduzir tudo ao nível em que se acham. É o ciúme aliado à
mediocridade.
De ordinário, o homem só é
infeliz pela importância que liga às coisas deste mundo. Fazem-lhe a
infelicidade a vaidade, a ambição e a cobiça desiludidas. Se se colocar fora
do círculo acanhado da vida material, se elevar seus pensamentos para o
infinito, que é seu destino, mesquinhas e pueris lhe parecerão as vicissitudes
da Humanidade, como o são as tristezas da criança que se aflige pela perda de
um brinquedo, que resumia a sua felicidade suprema.
Aquele que só vê felicidade na satisfação do orgulho e dos apetites grosseiros
é infeliz, desde que não os pode satisfazer, ao passo que aquele que nada pede
ao supérfluo é feliz com os que outros consideram calamidades.
Referimo-nos ao homem civilizado, porquanto, o selvagem, sendo mais limitadas
as suas necessidades, não tem os mesmos motivos de cobiça e de angústias.
Diversa é a sua maneira de ver as coisas. Como civilizado, o homem raciocina
sobre a sua infelicidade e a analisa. Por isso é que esta o fere. Mas, também,
lhe é facultado raciocinar sobre os meios de obter consolação e de
analisá-los. Essa consolação ele a encontra no sentimento cristão, que lhe dá
a esperança de melhor futuro, e no Espiritismo que lhe dá a certeza desse
futuro.
Desgosto da vida. Suicídio
943. Donde nasce o desgosto da vida, que, sem motivos plausíveis, se apodera
de certos indivíduos?
“Efeito da ociosidade, da falta de fé e, também, da saciedade.
“Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas
aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais
rapidamente. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência e
resignação, quanto obra com o fito da felicidade mais sólida e mais durável
que o espera.”
944. Tem o homem o direito de
dispor da sua vida?
“Não; só a Deus assiste esse direito. O suicídio voluntário importa numa
transgressão desta lei.”
a) - Não é sempre voluntário o suicídio?
“O louco que se mata não sabe o que faz.”
945. Que se deve pensar do
suicídio que tem como causa o desgosto da vida?
“Insensatos! Por que não trabalhavam? A existência não lhes teria sido tão
pesada.”
946. E do suicídio cujo fim é fugir, aquele que o comete, às misérias e às
decepções deste mundo?
“Pobres Espíritos, que não têm a coragem de suportar as misérias da
existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que carecem de energia e de
coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as
suportam sem se queixar, porque serão recompensados! Ai, porém, daqueles que
esperam a salvação do que, na sua impiedade, chamam acaso, ou fortuna! O
acaso, ou a fortuna, para me servir da linguagem deles, podem, com efeito,
favorecê-los por um momento, mas para lhes fazer sentir mais tarde,
cruelmente, a vacuidade dessas palavras.”
a) - Os que hajam conduzido o
desgraçado a esse ato de desespero sofrerão as conseqüências de tal proceder?
“Oh! Esses, ai deles! Responderão como por um assassínio.”
947. Pode ser considerado suicida aquele que, a braços com a maior penúria, se
deixa morrer de fome?
“É um suicídio, mas os que lhe foram causa, ou que teriam podido impedi-lo,
são mais culpados do que ele, a quem a indulgência espera. Todavia, não
penseis que seja
totalmente absolvido, se lhe faltaram firmeza e perseverança e se não usou de
toda a sua inteligência para sair do atoleiro. Ai dele, sobretudo, se o seu
desespero nasce do orgulho. Quero dizer: se for quais homens em quem o orgulho
anula os recursos da inteligência, que corariam de dever a existência ao
trabalho de suas mãos e que preferem morrer de fome a renunciar ao que chamam
sua posição social! Não haverá mil vezes mais grandeza e dignidade em lutar
contra a adversidade, em afrontar a crítica de um mundo fútil e egoísta, que
só tem boa-vontade para com aqueles a quem nada falta e que vos volta as
costas assim precisais dele? Sacrificar a vida à consideração desse mundo é
estultícia, porquanto ele a isso nenhum apreço dá.”
948. É tão reprovável, como o que tem por causa o desespero, o suicídio
daquele que procura escapar à vergonha de uma ação má?
“O suicídio não apaga a falta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas.
Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso ter-se a de lhe sofrer
as conseqüências. Deus, que julga, pode, conforme a causa, abrandar os rigores
de Sua justiça.”
949. Será desculpável o suicídio, quando tenha por fim obstar a que a vergonha
caia sobre os filhos, ou sobre a família?
“O que assim procede não faz bem. Mas, como pensa que o faz, Deus lhe leva
isso em conta, pois que é uma expiação que ele se impõe a si mesmo. A intenção
lhe atenua a falta; entretanto, nem por isso deixa de haver falta. Demais;
eliminai da vossa sociedade os abusos e os preconceitos e deixará de haver
desses suicídios.”
Aquele que tira de si mesmo a
vida, para fugir à vergonha de uma ação má, prova que dá mais apreço à estima
dos homens do que à de Deus, visto que volta para a vida
espiritual carregado de suas iniqüidades, tendo-se privado dos meios de
repará-los durante a vida corpórea. Deus, geralmente, é menos inexorável do
que os homens. Perdoa aos que sinceramente se arrependem e atende à reparação.
O suicídio nada repara.
950. Que pensar daquele que
se mata, na esperança de chegar mais depressa a uma vida melhor?
“Outra loucura! Que faça o bem e mais cedo estará de lá chegar, pois,
matando-se, retarda a sua entrada num mundo melhor e terá que pedir lhe seja
permitido voltar, para concluir a vida a que pôs termo sob o influxo de uma
idéia falsa. Uma falta, seja qual for, jamais abre a ninguém o santuário dos
eleitos.”
951. Não é, às vezes,
meritório o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de
outrem, ou ser útil aos seus semelhantes?
“Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o sacrifício da vida não
constitui suicídio. Mas, Deus se opõe a todo sacrifício inútil e não o pode
ver de bom grado,
se tem o orgulho a manchá-lo. Só o desinteresse torna meritório o sacrifício
e, não raro, quem o faz guarda oculto um pensamento, que lhe diminui o valor
aos olhos de Deus.”
Todo sacrifício que o homem faça à custa da sua própria felicidade é um ato
soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque resulta da prática da lei de
caridade.
Ora, sendo a vida o bem terreno a que maior apreço dá o homem, não comete
atentado o que a ela renuncia pelo bem de seus semelhantes: cumpre um
sacrifício. Mas, antes de o cumprir, deve refletir sobre se sua vida não será
mais útil do que sua morte.
952. Comete suicídio o homem que perece vítima de paixões que ele sabia lhe
haviam de apressar o fim, porém a que já não podia resistir, por havê-las o
hábito mudado
em verdadeiras necessidades físicas?
“É um suicídio moral. Não percebeis que, nesse caso, o homem é duplamente
culpado? Há nele então falta de coragem e bestialidade, acrescidas do
esquecimento de
Deus.”
a) - Será mais, ou menos, culpado do que o que tira a si mesmo a vida por
desespero?
“É mais culpado, porque tem tempo de refletir sobre o seu suicídio. Naquele
que o faz instantaneamente, há, muitas vezes, uma espécie de desvairamento,
que alguma coisa tem da loucura. O outro será muito mais punido, por isso que
as penas são proporcionadas sempre à consciência que o culpado tem das faltas
que comete.”
953. Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será
culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando
voluntariamente sua
morte?
“É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a
existência. E quem poderá estar certo de que, mau grado às aparências, esse
termo tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último
momento?”
a) - Concebe-se que, nas circunstâncias ordinárias, o suicídio seja
condenável; mas, estamos figurando o caso em que a morte é inevitável e em que
a vida só é encurtada de alguns instantes.
“É sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Criador.”
b) - Quais, nesse caso, as
conseqüências de tal ato?
“Uma expiação proporcionada, como sempre, à gravidade da falta, de acordo com
as circunstâncias.”
954. Será condenável uma
imprudência que compromete a vida sem necessidade?
“Não há culpabilidade, em não havendo intenção, ou consciência perfeita da
prática do mal.”
955. Podem ser consideradas
suicidas e sofrem as conseqüências de um suicídio as mulheres que, em certos
países, se queimam voluntariamente sobre os corpos dos maridos?
“Obedecem a um preconceito e, muitas vezes, mais à força do que por vontade.
Julgam cumprir um dever e esse não é o caráter do suicídio. Encontram desculpa
na
nulidade moral que as caracteriza, em a sua maioria, e na ignorância em que se
acham. Esses usos bárbaros e estúpidos desaparecem com o advento da
civilização.”
956. Alcançam o fim objetivado aqueles que, não podendo conformar-se com a
perda de pessoas que lhes eram caras, se matam na esperança de ir
juntar-se-lhes?
“Muito diverso do que esperam é o resultado que colhem. Em vez de se reunirem
ao que era objeto de suas afeições, dele se afastam por longo tempo, pois não
é possível que Deus recompense um ato de covardia e o insulto que Lhe fazem
com o duvidarem da Sua providência. Pagarão esse instante de loucura com
aflições maiores do que as que pensaram abreviar e não terão, para
compensá-las, a satisfação que esperavam.”
957. Quais, em geral, com relação ao estado do Espírito, as conseqüências do
suicídio?
“Muito diversas são as conseqüências do suicídio. Não há penas determinadas e,
em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém,
uma
conseqüência a que o suicida não pode escapar; é o desapontamento. Mas, a
sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam a
falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela
cujo curso interromperam.”
A observação, realmente, mostra que os efeitos do suicídio não são idênticos.
Alguns há, porém, comuns a todos os casos de morte violenta e que são a
conseqüência da interrupção brusca da vida. Há, primeiro, a persistência mais
prolongada e tenaz do laço que une o Espírito ao corpo, por estar quase sempre
esse laço na plenitude da sua força no momento em que é partido, ao passo que,
no caso de morte natural, ele se enfraquece gradualmente e muitas vezes se
desfaz antes que a vida se haja extinguido completamente. As conseqüências
deste estado de coisas são o prolongamento da perturbação espiritual,
seguindo-se à ilusão em que, durante mais ou menos tempo, o Espírito se
conserva de que ainda pertence ao número dos vivos.
A afinidade que permanece entre o Espírito e o corpo produz nalguns suicidas,
uma espécie de repercussão do estado do corpo no Espírito, que, assim, a seu
mau grado, sente os efeitos da decomposição, donde lhe resulta uma sensação
cheia de angústias e de horror, estado esse que também pode durar pelo tempo
que devia durar a vida que sofreu interrupção. Não é geral este efeito; mas,
em caso algum, o suicida fica isento das conseqüências da sua falta de coragem
e, cedo ou tarde, expia, de um modo ou de outro, a culpa em que incorreu.
Assim é que certos Espíritos, que foram muito desgraçados na Terra, disseram
ter-se suicidado na existência precedente e submetido voluntariamente a novas
provas, para tentarem suportá-las com mais resignação. Em alguns, verifica-se
uma espécie de ligação à matéria, de que inutilmente procuram desembaraçar-se,
a fim de voarem para mundos melhores, cujo acesso, porém, se lhes conserva
interdito. A maior parte deles sofre o pesar de haver feito uma coisa inútil,
pois que só decepções encontram.
A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às
leis da Natureza. Todas nos dizem, em princípio, que ninguém tem o direito de
abreviar
voluntariamente a vida. Entretanto, por que não se tem esse direito? Por que
não é livre o homem de por termo aos seus sofrimentos? Ao Espiritismo estava
reservado demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é
uma falta, somente por constituir infração de uma lei moral, consideração de
pouco peso para certos indivíduos, mas também um ato estúpido, pois que nada
ganha quem o pratica, antes o contrário é o que se dá, como no-lo ensinam, não
a teoria, porém os fatos que ele nos põe sob as vistas.
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