Crises e Argumentos(*)
(Luiz Carlos D.
Formiga)
"Lá na escola todo mundo fuma maconha..."
Argumento é raciocínio pelo qual se tira uma conseqüência ou dedução.
Crise é manifestação violenta e repentina de ruptura de equilíbrio.
Estado de dúvidas e incertezas. Fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos
fatos, das idéias. Tensão, conflito.
Freqüentemente as pessoas utilizam o argumento - "todo mundo faz" - para
justificar condutas assumidas. É comum encontrá-lo entre jovens, não resistindo
à "pressão do grupo" na crise da adolescência.
O critério de freqüência (todo mundo) deve ser olhado com prudência. Um
profissional de saúde não pode formar um diagnóstico sem o apoio das noções de
"normalidade" e de "valor". Não são suficientes os critérios estatísticos ou
sócio-culturais. Aborto, dentes cariados, eutanásia e terrorismo podem ser
freqüentes, mas não devem ser considerados como "normais".
Nos aparelhos, como por exemplo, o microscópio ótico ou eletrônico, normalidade
se prende à finalidade; nos seres naturais é preciso estar a par das exigências
de sua natureza corporal e espiritual. Surge então a necessidade de parâmetros
que não podem fugir à perspectiva dos valores. Valores devem ser entendidos como
tudo o que contribui para a perfeição integral do ser e para a realização de
seus fins existenciais como pessoa.
Na análise do comportamento são necessários enfoques de ordem biológica,
psicológica, sócio-cultural, antropológica e espiritual. Não deve ser
considerado normal o que reduz nosso coeficiente de liberdade de opção. Não
apenas opção por uma conduta ou outra, mas também a capacidade para resistir à
impulsão e compulsão, seja ela sexual, religiosa ou outra.
"Todo mundo faz" é argumento tão enganoso quanto os de incurabilidade,
sofrimento e inutilidade, na justificativa prática da eutanásia direta ou
indireta. Nesta, existe pouca diferença entre "ação" e "omissão" e estamos
diante do mesmo fim.
Ninguém pode licitar o que é ilícito só porque está a seu favor. No mínimo vai
dar em CPI, mesmo após a morte, no mundo espiritual.
A melhor maneira de se medir a licitude de uma ação é imaginá-la como regra
geral. Imaginem determinadas ações legalizadas (aborto, pena de morte,
eutanásia) e nas mãos de interesses diversos, econômicos, políticos, ou outros.
Soubemos de uma mãe que, sofrendo as pressões da "revolução sexual", aconselhou
a filha adolescente o caminho do sexo livre. O argumento foi "uma forma de
prevenir seqüelas psicológicas na idade adulta".
Alguém já disse que "a falsa compreensão da Psicanálise a respeito do sentimento
de frustração lançou uma grande confusão sobre os métodos educativos". De
equívoco em equívoco chegou-se a conclusão de que o indivíduo disciplinado e
auto-controlado é neurótico, ao passo que o sujeito desregulado e impulsivo é o
normal.
Na adolescência, os pais colhem o que plantaram na infância. Nesta fase da vida,
que não é mais a infância e ainda não é a maturidade, aparece o dilema sério de
possuir um corpo apto para a reprodução acompanhado de uma clara imaturidade
social e emocional, para enfrentar as conseqüências derivadas disso.
Hoje, fala-se em sexo seguro por causa da Aids. Mas, o que é sexo seguro? Sexo
seguro é aquele que é seguro, uai! E o que é seguro?
A semeadura pode ser aparentemente livre, mas a colheita é obrigatória.
A conseqüência paradoxal da revolução sexual do século XX foi redução do índice
de natalidade. A França, Itália e Alemanha apresentaram taxas negativas de
crescimento demográfico (uso de métodos anticoncepcionais e aumento da
instabilidade das ligações afetivas, aumento de homossexuais de ambos os sexos).
A observação dos comportamentos dos filhos dos liberados da década de 60 nos
leva a supor a existência de um movimento de mudanças em relação a casamento,
família e fidelidade, principalmente após a crescente pandemia de Aids.
Crises e argumentos coexistem à beira do terceiro milênio. É difícil defender o
controle da natalidade sem pensar em racismo ou colonialismo dos países
industriais.
Argumenta-se que a contracepção não combate a mortalidade infantil; que os meios
anticoncepcionais não são inócuos e que eliminando-se a pessoa do pobre não se
suprime a miséria. O controle da natalidade não reduz a gravidez de alto risco.
Argumenta-se também, que as pessoas do terceiro mundo vivem em "alto risco", com
a desnutrição, anemia carencial e verminose.
Diante da crise, fase difícil, grave, todos estavam tensos, no conflito. Queriam
justiça com as próprias mãos, mas a mulher (com comportamento de risco)
encontrou aquele, que argumentou e evitou o apedrejamento.
(*) Introdução com subtítulo - "Advertência" ao Leitor – do Livro "Dores,
Valores, Tabus e Preconceitos". CELD Editora, RJ. RJ. 1996 (Esgotado).
Originalmente publicado no "O Imortal", abril de 1991, página 6, Cambe, Paraná,
Brasil. Republicado na Revista Fraternidade (Lisboa – Pt), 485: 294-295 (nov)
2003.
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