Diretrizes Doutrinárias
O Livro dos Espíritos
Cap. VII - Da Volta do Espírito à Vida
Corporal
União da alma e do corpo
334. Há predestinação
na união da alma com tal ou tal corpo, ou só à última hora é feita a escolha
do corpo que ela tomará?
“O Espírito é sempre, de antemão, designado. Tendo escolhido a prova a que
queira submeter-se, pede para encarnar. Ora, Deus, que tudo sabe e vê, já
antecipadamente sabia e vira que tal Espírito se uniria a tal corpo.”
335. Cabe ao Espírito a escolha do corpo em que encarne, ou somente a do
gênero de vida que lhe sirva de prova?
“Pode também escolher o corpo, porquanto as imperfeições que este apresente
ainda serão, para o Espírito, provas que lhe auxiliarão o progresso, se vencer
os obstáculos que lhe oponha. Nem sempre, porém, lhe é permitida a escolha do
seu invólucro corpóreo; mas, simplesmente, a faculdade de pedir que seja tal
ou qual.”
a) - Poderia o Espírito recusar, à última hora, tomar o corpo por ele
escolhido?
“Se recusasse, sofreria muito mais do que aquele que não tentasse prova
alguma.”
336. Poderia dar-se não haver Espírito que aceitasse encarnar numa criança que
houvesse de nascer?
“Deus a isso proveria. Quando uma criança tem que nascer vital, está
predestinada sempre a ter uma alma. Nada se cria sem que à criação presida um
desígnio.”
344. Em que momento a
alma se une ao corpo?
“A união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento.
Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a
este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até ao
instante em que a criança vê a luz. O grito, que o recém-nascido solta,
anuncia que ela se conta no número dos vivos e dos servos de Deus.”
345. É definitiva a
união do Espírito com o corpo desde o momento da concepção? Durante esta
primeira fase, poderia o Espírito renunciar a habitar o corpo que lhe está
destinado?
“É definitiva a união, no sentido de que outro Espírito não poderia substituir
o que está designado para aquele corpo. Mas, como os laços que ao corpo o
prendem são ainda muito fracos, facilmente se rompem e podem romper-se por
vontade do Espírito, se este recua diante da prova que escolheu. Em tal caso,
porém, a criança não vinga.”
346. Que faz o Espírito, se o corpo que ele escolheu morre antes de se
verificar o nascimento?
“Escolhe outro.”
a) - Qual a utilidade dessas mortes prematuras?
“Dão-lhes causa, as mais das vezes, as imperfeições da matéria.”
347. Que utilidade
encontrará um Espírito na sua encarnação em um corpo que morre poucos dias
depois de nascido?
“O ser não tem então consciência plena da sua existência. Assim, a importância
da morte é quase nenhuma. Conforme já dissemos, o que há nesses casos de morte
prematura é uma prova para os pais.”
349. Quando falha por
qualquer causa a encarnação de um Espírito, é ela suprida imediatamente por
outra existência?
“Nem sempre o é imediatamente. Faz-se mister dar ao Espírito tempo para
proceder a nova escolha, a menos que a reencarnação imediata corresponda a
anterior determinação.”
351. No intervalo que
medeia da concepção ao nascimento, goza o Espírito de todas as suas
faculdades?
“Mais ou menos, conforme o ponto, em que se ache, dessa fase, porquanto ainda
não está encarnado, mas apenas ligado. A partir do instante da concepção,
começa o Espírito tomado de perturbação, que o adverte de que lhe soou o
momento de começar nova existência corpórea. Essa perturbação cresce de
contínuo até ao nascimento. Nesse intervalo, seu estado é quase idêntico ao de
um Espírito encarnado durante o sono. À medida que a hora do nascimento se
aproxima, suas idéias se apagam, assim como a lembrança do passado, do qual
deixa de ter consciência na condição, de homem, logo que entra na vida. Essa
lembrança, porém, lhe volta pouco a pouco ao retornar ao estado de Espírito.”
353. Não sendo completa a união do Espírito ao corpo, não estando
definitivamente consumada, senão depois do nascimento, poder-se-á considerar o
feto como dotado de alma?
“O Espírito que o vai animar existe, de certo modo, fora dele. O feto não tem
pois, propriamente falando, uma alma, visto que a encarnação está apenas em
via de operar-se. Acha-se, entretanto, ligado à alma que virá a possuir.”
354. Como se explica a
vida intra-uterina?
“É a da planta que vegeta. A criança vive vida animal. O homem tem a vida
vegetal e a vida animal que, pelo seu nascimento, se completam com a vida
espiritual.”
358. Constitui crime a
provocação do aborto, em qualquer período da gestação?
“Há crime sempre que
transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime
sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, por isso que
impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo
que se estava formando.”
359. Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe
dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?
“Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que
já existe.”
360. Será racional ter-se para com um feto as mesmas atenções que se dispensam
ao corpo de uma criança que viveu algum tempo?
“Vede em tudo isso a vontade e a obra de Deus. Não trateis, pois,
desatenciosamente, coisas que deveis respeitar. Por que não respeitar as obras
da criação, algumas vezes incompletas por vontade do Criador? Tudo ocorre
segundo os seus desígnios e ninguém é chamado para ser juiz.”